Espetáculo do Absurdo: a miséria como entretenimento e as excursões nas favelas cariocas

30.06.2019

 “Aventure-se em uma favela do Rio de Janeiro (a versão brasileira de um assentamento informal) nesta excursão educacional de meio dia [...] você vai visitar a favela, interagir com a população local e obter uma nova compreensão da sociedade brasileira. “

 

Podem parecer absurdas, ou mesmo provenientes de uma brincadeira desmedida e sem graça, mas essas são as palavras exatas que encontramos ao procurar por uma das mais populares atividades turísticas do Rio de Janeiro, a excursão pela favela, passeio esse que prefiro nomear de safári social.

 

Nascidas devida a um histórico de decadência social e despejos na capital carioca, que passava por um inchação pós êxodo rural em meados do século XIX, as favelas nunca foram uma opção lógica de seus moradores, e sim a consequência do abandono estatal, da injustiça, da violência e do pouco caso governamental para com sua população mais fragilizada.

 Quando a miséria torna-se um espetáculo?

 

Porém, as frustrações, dores e necessidades que se escorrem pelos barracos aos pés dos morros não representam a imagem que a elite - a mesma que fomentou a desumanização e exílio desses - procura exibir. Não só para a população mais ignorante do Brasil, como para todo o mundo.

 

Sorrisos sempre presentes, longas festas a base de samba e cerveja, e uma população que tem a certeza de que a felicidade não está no dinheiro (e pelo visto também não está no saneamento básico ou na preservação dos direitos civis), essa é a ideia mais difundida pela mídia do entretenimento no Brasil quando o tema é a favela. Novelas e mais novelas forçam um sorriso no sofrimento para que, talvez, seja mais fácil ou confortável olhar para nosso próprio privilégio, para nossas barrigas cheias e camas quentes, sem que se acenda aquela pequena sensação de egoísmo em corações mais favorecidos.

 Escritora Carolina Maria de Jesus

 

Todavia, a felicidade não é assim tão fácil. A realidade é mais dura, como nos mostra Carolina Maria de Jesus, em seu livro Quarto de Despejo”:

 

Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva para mim ir lá no Senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um pouco. Vou sair. (...) Eu tenho dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada: Viva a mamãe!. A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi o habito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida. Eu mandei o João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida. Mandei-lhe um bilhete assim: “Dona Ida peço-te se pode me arranjar um pouquinho de gordura, para eu fazer sopa para os meninos. Hoje choveu e não pude catar papel. Agradeço. Carolina”

 

Para o estrangeiro, "turistando" pelo Brasil, o apelo é outro. Em um país já tão exótico, uma dose a mais de curiosidade: venham interagir com a população local de nossos assentamentos informais.

 

Assentamentos informais.

 

A fome, a miséria, a sujeira e a violência. A degradação humana torna-se um espetáculo tão visceral quanto um safári pelas savanas africanas. Observar a criança descalça, sem estudos e condições, de futuro comprometido pela injustiça social é como observar uma zebra desatenta vigiada pelos leões. Um espetáculo lento e cruel.

 Dharavi, em Mumbai

 

E enganam-se os que pensam que esse fenômeno se dá apenas no Brasil, a favela de Dharavi, em Mumbai, Índia, acaba de receber o PRÊMIO Traveller’s Choice Awards, organizado pela Trip Advisor, como uma das 10 melhores experiências turísticas do planeta.

 

O sofrimento é içado aos palcos do mundo e os aplausos são sádicos.

 

Certa vez, no passado, Manoel Bandeira retratou o momento em que viu "um bicho/ na imundície de um pátio/ catando comida e detritos [...] o bicho, meu Deus, era um homem”. Hoje, se olha-se para o lado oposto do cenário retratado, como reagiria ao perceber que os urubus que espreitam a figura miserável são, na verdade, homens?

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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