Brasil: sobre os ombros da servidão voluntária

04.08.2019

 

Por volta de 1549, um jovem francês chamado Étienne de La Boétie escrevia um discurso intitulado “Servidão Voluntária”. Nele, tratava do absolutismo francês e de como os servos desses reis voluntariamente aceitavam o totalitarismo imposto. Apesar dos quase 500 anos que nos separam do pensador francês, muitas de suas ideias ainda podem elucidar comportamentos frequentes da contemporaneidade.

 

Um futuro na contramão

 

É difícil, para expectadores de coração mais leve e ganância menos predatória, observar os últimos acontecimentos nacionais - e internacionais - e não sentir um leve frio na espinha em face de tamanho retrocesso. Crescemos em um mundo que acabara de combater grandes desastres humanitários, que educava suas novas gerações a não repetir velhos enganos, a não idolatrar falsos (e cruéis) profetas, a não tornar a exilar e matar o que lhe é diverso. Porém, talvez em algum momento dessa trajetória, nós tenhamos falhado. Talvez tenhamos baixado a guarda e, mesmo que por poucos segundos, confiado demais. Tempo suficiente para que algumas sementes fossem plantadas.

 

"O preço da liberdade é a eterna vigilância"

Thomas Jefferson, terceiro presidente americano

 

Mais que depressa vemos surgir políticas anti-migratórias nos EUA, o Brexit no Reino Unido, a Revolução Patriota na Polônia, ou a ascensão do NPD na Alemanha, partido de extrema direita que promete, se a caso vencer as eleições, expulsar todo e qualquer muçulmano do território alemão. Uma marcha lenta em direção ao passado.

 

E, é claro, que o Brasil não fica de fora. Ataques à educação e à cultura, declaração de guerra aos direitos humanos e ambientais, e uma série de declarações monstruosas foram as marcas dos primeiros sete meses do Governo Bolsonaro.

 

Apesar de tudo, do crescimento do ultra-conservadorismo no mundo, da substituição do bom senso pelo lobby, do retrocesso, confesso que observar esse movimento fluir do Estado não me impressiona muito. Aprendi, ao longo da vida, que a opressão vem do poder, que esse era, de fato, o agente de risco... O que realmente me interessa é tentar decifrar a base, aqueles que, mesmo em face da total opressão sofrida, de serem moralmente violentados todos os dias, aplaudem, grunhem e brigam em favor de seu violentador. Quem são esses servos tão fiéis e apaixonados?

 

O jovem Étienne de La Boétie

 

Por volta de 1549, na França, um jovem pensador chamado Étienne de la Boétie pensava sobre a aceitação da situação de servo ao longo do período conhecido como Absolutismo Francês. Para ele, a ideia de se sentir servo, de obedecer, era agradável a muitos, pois negava a necessidade de se responsabilizar pelos seus atos.

 

Há nessa entrega voluntária do poder de decisão um misto de sedução do governante e covardia do servo. Não uma covardia que se dá pela ausência de confiança em se enfrentar o poder absolutista, mas a covardia de quem não lida com as rédias de sua própria vida. De quem tem medo de enfrentar as consequências de seus próprios atos, seja pela menoridade kantiana, ou seja, incapacidade de definir suas ações e vontades sem o direcionamento de outro, ou pela vergonha de expor sua real vontade. Se minha ação individual oprime e causa mal, sou um crápula, mas se essas são ações de um governo que escolhi, sou só membro da situação.

 

Esses são questionamentos que trago um vídeo, originalmente publicado no espaço "Máquina do Mundo", do Coletivo Terceira Margem.

 

Nele, falo sobre a Servidão Voluntária moderna, sobre Retrotopia e Liberdade.

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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