A Tempestade e o Ímpeto dos tempos modernos

24.08.2019

Há quase 5 séculos, na Alemanha, se criava a expressão Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), termo utilizado para se referir ao movimento romântico que despontava na região.

 

Guiado por grandes nomes como Friedrich Schiller e Johann Wolfgang von Goethe, o movimento negava todo o racionalismo presente no iluminismo que reinava até então, o substituindo por uma visão mais subjetiva do mundo, impregnada de individualismo, emotividade e egocentrismo.

 

Como corrente artística, o romantismo figura como um dos movimentos mais importantes da história, seja pelo grande número de obras canônicas que viabilizou, seja pela nova visão de mundo que criava. Porém, e quando esse ímpeto tempestuoso volta à tona, mas desta vez coberto pelo manto da ignorância, ganância e violência?

 Os escritores alemães Goethe (esq.) e Schiller (dir.)

 

Dos cíclos, o pior

 

Ao longo de três décadas de vida, sempre ouvi que o mundo marchava em ciclos. Ciclos naturais, ciclos biológicos e ciclos sociais. Movimentos, vontades, buscas e desejos pareciam ressurgir sazonalmente.

 

Porém, confesso que apesar de sempre acreditar na comprovação da teoria pela observação despretensiosa dos cortes de roupa até então bregas que tomavam, com novo fôlego, as vitrines das lojas, ou pela ciranda conservadora-progressista nas rodas de conversa, nunca imaginei que me pegaria a comparar ações repulsivas da atualidade à termos e características literárias do século XVI.

 

Um joio e trigo misturado sem o menor pudor.

 O fogo devora a floresta amazônica.

 

A tempestade de fogo e o Ímpeto da mesquinhez.

 

Na última segunda-feira, às duas horas da tarde, o dia escureceu. Logo soubemos que a noite prematura era efeito de uma massa de ar frio que carregava consigo uma imensa e densa nuvem de cinzas provenientes das queimadas que ocorriam, há mais de dez dias, em florestas espalhadas por todo o território brasileiro, em sua maior parte integradas à Amazônia Legal.

 

Sturm und Drang!

 

Essas foram as primeiras palavras que passaram pela minha cabeça ao me deparar com colunas de fogo imensas que tragavam gigantes e centenárias árvores amazônicas. Talvez tenha sido a violência do termo, talvez a semelhança às sublimes fúrias naturais representadas nas telas de Abraham van Beijeren...

 River Landscape, obra de Abraham van Beijeren

 

Assim, fiz tristes conexões entre as ações desmedidas de intelectuais românticos e os atos bárbaros de produtores desmiolados.

 

Havia a negação da razão, havia o individualismo, havia o egocentrismo, mas sem nenhuma boa intenção. Sem arroubos artísticos, sem estéticas planejadas, sem engrandecimentos.

 

Vivemos dias de fogo, e precisamos gritar muito alto para sermos ouvidos, pois só assim penetraremos essa densa parede de fumaça e perturbaremos aqueles que negam não apenas a lógica e a razão, mas a própria manutenção da vida.

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

     POSTS recentes:     
Please reload

© 2016 por O Caos Cultural.