A Mais Forte: peça de August Strindberg

11.09.2019

 

A Mais Forte

 

Personagens:

Mrs. X

Miss Y

 

Cenário: uma casa de chá, duas mesas de canto, uma sofá forrado de veludo vermelho, várias cadeiras.

Miss Y sentada no canto do café à sua frente uma garrafa vazia ale (espécie de cerveja). Ela lê uma revista, que mais tarde troca por outras. Mrs. X entra vestida com roupas de inverno, chapéu, capote, carregando uma sacola de compras, de desenho estranho.

 

Mrs X: Amélie querida, como vai? O que é isto? Sentada ai sozinha, numa noite de Natal. Até parece uma solteirona.

 

Miss Y: (olha-a sobre a revista, cumprimentando-a com a cabeça e para de ler).

 

Mrs. X: Ora, não gosto de vê lá aqui, tão só, e como se não bastasse, logo numa noite de Natal. Faz-me sentir tão mal, como no dia em que assisti uma festa de casamento num restaurante de Paris: a noiva lia histórias em quadrinhos, enquanto o noivo jogava bilhar com os outros convidados. Uf, então pensei: se no primeiro dia é assim, o que lhes espera no futuro? Ele, jogando bilhar na sua noite de núpcias e ela, sentada, lendo aquele jornalzinho. Que me diz disto? Bem, a comparação não foi das melhores, não é?

 

Entra uma garçonete com uma xícara de chocolate e coloca-a em cima da mesa, em frente a Mrs. X.

 

Mrs X: Sabe, Amelie, acho que teria sido melhor para você, se tive se casado com ele...Lembra-se bem quando insisti com você para desculpa-lo? Lembre-se? Hoje, poderia ser sua esposa, ter seu próprio lar... Recorda-se de como você se gabava de gostar da vida domestica, desejando, verdadeiramente, abandonar sua carreira teatral? Sim, Amélie querida – depois do teatro – a melhor coisa é um lar, crianças, você sabe... Não, acho que não entenderia isto!

 

Miss Y: (expressando desdém).

 

Mrs X: (prova algumas colheradas de chocolate, abre a sacola de compra e tira alguns presentes de Natal) – Ah, deixe-me mostrar-lhe o que comprei para meus filhos. (Mostra uma boneca) Olhe só, que graça! É para Lisa... Veja como fecha os olhos e vira a cabeça! Vê? E esta espingarda é para Maja (Arma a espingarda e atira em direção de Miss Y).

 

Miss Y: (Faz um gesto medroso).

 

Mrs. X: Não me diga que a assustei! Não pensou que eu fosse realmente atirar, pensou? Há? Nossa, pelo visto acho que sim! Se você quisesse atirar em mim, eu não ficaria surpresa. Afinal, eu me intrometi na sua vida – e acho que jamais se esquecerá disto – mesmo assim, não tive culpa... Ainda acredita que contribui para o seu afastamento do Grande Teatro – não é mesmo? Pode pensar o que quiser, mas não tive nada a ver com aquilo! No entanto, vejo que não importa o que diga, ainda assim você imaginará sempre que a responsabilidade foi toda minha! (Tira um par de chinelos da sacola). E estes são para minha cara metade. Eu mesma os enfeitei – com tulipas. Eu as detesto, sabe, mas meu marido tem quer ter tulipas em tudo que é seu.

 

Miss Y: (Olha sobre a revista, com curiosidade e ironia).

 

Mrs. X: (Colocando as mãos dentro dos chinelos) Olhe que pés pequenos tem Bob. Veja só! Mas, apesar disto, anda com tanta elegância! Você já o viu de chinelos?

 

Miss Y: (Ri em alto)

 

Mrs X: Deixe-me mostrar-lhe, (fazendo com as mãos, que os chinelos andem sobre a mesa).

 

Miss Y: (Dá outra gargalhada).

 

Mrs. X: E quando ele fica zangado, planta os pés assim e diz: “Droga! Estas criadas estúpidas não aprendem nem a fazer café! Olhe só! As cretinas não conseguem acender direito o pavio do lampião”. E se há uma corrente de ar e seus pés ficam frios: “Céus, que frio; estas tolas incorrigíveis sempre deixam o fogo da lareira se apagar”. (Esfrega a sola de um pé de chinelo na gáspea do outro).

Miss Y: (Agora guinchando de tanto rir). Mrs. X: E quando ele chega em casa? Procura os chinelos feito louco, que Maria, geralmente, “esconde” sob a cômoda... Oh! Que vergonha sentir aqui caçoando do meu próprio marido. Mesmo porque ele é tão bom. É um ótimo maridinho. Você deveria se casar com um homem como ele, Amelie! Posso perguntar o porque de tanto riso? O que é? Que aconteceu? O melhor de tudo é que ele me é fiel – disto tenho certeza. Ele mesmo me disse!...Por que este risinho? Ele me contou que Frederica tentou conquista-lo enquanto eu viajava pela Noruega... Veja só que descaramento! (Silencio) Eu arrancaria os olhos dela! Isto é que faria se ela chegasse perto dele na minha presença! (Outro silencio) Ainda bem que foi ele quem me contou. Já pensou, vir a saber destas coisas por terceiros? (Silencio). Mas ela não foi a única, não senhora! Até hoje não compreendo porque as mulheres ficam assanhadas com Bob. Talvez elas achem que ele tenha algo a ver com a contratação de artistas, só porque trabalha no setor administrativo, sei lá. Não me surpreenderia nada se você, também, tivesse arrastados suas asinhas para ele. Nunca confiei muito com você... Mas agora sei que não poderia interessá-lo e, não sei bem porque, mas sempre pareceu que tinha algo contra ele. (Silêncio; as duas se entreolham embaraçadas). Porque não vem nos visitar hoje à noite, Amelie? Só para mostrar que não está magoada, pelo menos comigo... é tão desagradável não sermos boas amigas. Será porque me meti na sua vida antes? (Falando devagar)... ou...se lá....por que razão seria ....sinceramente....(Silêncio).

 

Miss Y: (Olhando-a fixamente com curiosidade).

 

Mrs X: (Pensativa) Nosso relacionamento foi tão estranho... Tive medo de você, logo que a conheci. Tanto medo que nem permitia que se afastasse de mim. Fosse onde fosse, sempre me encontrava a seu lado... Como não tinha coragem para ser sua inimiga, tornei-me sua amiga. Mas sempre que nos visitava acabávamos discutindo. Notei que Bob não suportava sua presença, e isto me causava um certo embaraço. Vocês não combinavam mesmo. Tentei persuadi-lo a ser mais gentil, em vão. Mas quando você, finalmente, nos contou que iria se casar, tudo mudou. Subitamente, uma grande amizade surgiu entre vocês dois! Você ficou bem mais à vontade e começou a se abrir mais um pouco, mostrar mais seus sentimentos – desde que isto não a prejudicasse, claro. O que aconteceu então? Não tive ciúmes... hoje isto me parece estranho! Lembro-me bem do batizado de meu filho, você era madrinha e eu tive que persuadir Bob a beijá-la. E depois que ele o fez você ficou tão confusa e envergonhada... Sinceramente, isto não me ocorreu naquele momento, nem pensei... Não me preocupei... até exatamente agora....(Levanta-se violentamente, exaltada). Porque não diz nada? Até agora não pronunciou uma só palavra! Deixou-me sentada aqui falando, falando o tempo todo! Ficou ai, sorvendo estes pensamentos guardados há tanto tempo, há tanto tempo tão bem guardados! Não só meus pensamentos, mas até minhas duvidas... Agora vejamos: porque, afinal de contas, rompeu o seu noivado? Ah? Porque nunca nos visitou depois disto? Porque não vai lá em casa hoje à noite?

 

Miss Y: (parece pronta para dizer algo)

 

Mrs X: Não, não falei! Não precisa dizer nada! Agora eu entendo tudo! Exatamente, agora, tudo parece ficar nos seus devidos lugares! Sei das respostas todas! Que vergonha! Não posso continuar sentada à mesma mesa que você (muda suas coisas para a mesa vizinha). Por isto tive que adornar seus chinelos com tulipas... porque você gosta de tulipas. Por isto é que nós (joga os chinelos no chão) tivemos que passar todas as férias no Largo Malar – porque você não gostava de praia. Por isto, também, meu filho se chama Eskil – porque é o nome do seu pai; por isto tive que usar as cores de que você gosta, comer seus pratos prediletos, beber o que você gosta de beber – chocolate, por exemplo... É por isto! Oh Deus! É pavoroso ter que pensar nisto – horrível! Tudo, tudo veio a mim de você, até mesmo suas paixões! Sua move-se furtivamente dentro da minha, como um verme, que rasteja, perfura e penetra uma maça, até que nada sobra além da casca ou dos restos! Eu tentei me livrar de você, mas não pude! Como uma serpente, me conquistava e me enfeitiçava com estes seus olhos negros... Sempre que abria as asas para escapar, sentia-me sendo puxada para baixo outra vez; meus pés permaneciam presos n´agua e quanto mais lutava para me manter à tona, mais eu afundava; mais para baixo eu ia, até tocar o fundo com os pés, onde você estava, como um caranguejo gigante, pronto para me tomar com suas presas! E é onde estou agora! Oh! Como a detesto; odeio-a, odeio-a! Mas você, tudo o que faz é sentar-se ai em silêncio, fria e impassível Sem se importar se hoje é dia de lua cheia ou de lua nova, Natal ou Ano Bom, se os que a rodeiam estão felizes, ou não! Você não tem capacidade para odiar ou para amar, tem o sangue tão frio, como o de uma cegonha, quando observa o buraco de um rato. Você é incapaz de farejar a sua caça e de obtê-la, mas sabe como se esconder nos buracos e nos cantos até cansá-la. Ai esta você, sentada – acho que deve saber que todos chamam este lugar de ratoeira, em sua homenagem. Fica aí, correndo os olhos pelos jornais, na esperança de poder ler a respeito de alguém que tenha tido má sorte, ou que tenha passado por uma desgraça, ou sobre outro alguém que tenha sido expulso do Teatro... Ai esta você, à espreita de vitimas, avaliando suas chances, como um comandante de um navio em um naufrágio. Aqui, você recebe seus tributos! Pobre Amelie! Sabe, apesar de tudo, sinto pena de você, porque tenho certeza de que não passa de uma miserável; miserável como qualquer animal ferido, feroz e perverso por ter sido atingido. É mesmo difícil zangar-me com você, apesar de saber que deveria – Mas, no final das contas, você é a mais fraca... A respeito de Bob; bem, não deixarei que isto me aborreça ...Não me prejudicou, realmente! E se foi você, ou qualquer outra que me levou ao hábito de tomar chocolate, não importa... (Pega a colher de chocolate com displicência). Além do mais, chocolate é uma bebida bastante saudável. E se me ensinou a me vestir – tant mieux – meu marido acabou reparando mais em mim! Eis algo com que sai ganhando e que você perdeu. A propósito, julgando pelo que tenho visto, acho mesmo que já o perdeu! Mas não há sem sombra de duvida que a sua intenção era que eu o deixasse – como você fez – e agora se arrepende. Mas isto é algo que não pretendo fazer mesmo! Não devemos ser partidárias, ou egoístas, você bem sabe. Mas porque eu ficaria com o que os outros rejeitam? É isto. Talvez, neste momento, eu seja realmente a mais forte... Você nunca recebeu nada de mim, enquanto que eu, sim, pois enquanto você acordava, eu já havia me apossado do que era seu. E porque foi que tudo que você tocava se tornava estéril e vazio? Suas tulipas e suas paixões não foram fortes o suficiente para que você mantivesse o amor de um homem – enquanto que eu fui capaz de tal. Seus autores prediletos não lhe ensinaram a viver – não como eu aprendi. Nem fizeram com que você desse à luz a um pequeno Esquile, mesmo sendo este o nome de seu pai... e por que está assim tão silenciosa, sempre com os lábios selados? Confesso ter pensado que isto fosse um sinal de força – mas talvez seja porque nunca tem nada a dizer! Ou, quem sabe, seja escassez de pensamentos! (Levanta-se e pega os chinelos do chão). Agora, vou para casa – e levo as tulipas comigo. Suas tulipas! Você achou difícil aprender com as experiências alheias – difíceis, também ceder e se humilhar – está quebrada como um galho seco – e eu, sobrevivi! Obrigada, Amelie, por tudo o que me ensinou e obrigada por ter ensinado meu marido a amar! Agora, vou para casa, para ama-lo!

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 Johan August Strindberg (Estocolmo, 22 de janeiro de 1849 — Estocolmo, 14 de maio de 1912) foi um dramaturgo, romancista, ensaísta e contista sueco.É autor, entre outras obras, das peças dramáticas "Menina Júlia" (Fröken Julie) e "O sonho" (Ett drömspel), dos romances "O Salão Vermelho" (Röda rummet) e "Gente de Hemsö" (Hemsöborna), e das novelas "Casados" (Giftas).

Figura ao lado de Henrik Ibsen, Søren Kierkegaard e Hans Christian Andersen entre os maiores escritores escandinavos de todos os tempos. É um dos pais do teatro moderno. Seus trabalhos são classificados como pertencentes aos movimentos literários naturalista e expressionista.

Strindberg é considerado um renovador da literatura e da língua sueca. 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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