Ana Cristina César: A Poetisa e os Poemas

19.04.2019

 Nascida em 1952, filha do sociólogo Waldo Aranha Lenz Cesar e da jornalista Maria Luiza Cruz, Ana Cristina Cesar foi uma poetisa e tradutora brasileira, considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo e frequentemente vinculada ao movimento de Poesia Marginal.

 

Conta-se que brincava de recitar poemas ainda aos seis anos, o que demonstrava o gosto pela literatura desde muito cedo. Futuramente foi estudar na Inglaterra, onde teve contato com obras de Emily Dickison, Sylvia Plath e Katherine Mansfield. Recém chegada ao Brasil, então com 19 anos, matriculou-se no curso de Letras da PUC-RJ, e passou a trabalhar mais sériamente com a escrita e a tradução.

 

 

Seus textos começaram a ser publicados na década de 70, tendo participado, portanto, da geração mimeógrafo, geração de escritores que enfrentavam a dureza da censura promovida pela ditadura, e buscavam a publicação de suas obras por meios alternativos, sendo o mais acessível deles a cópia por mimeógrafos.

 

A escrita de Ana Cristina César é densa, refletindo diretamente experiencias e sentimentos da poetisa. Tristezas, reflexões, angústias, relações e uma constante sensação de solidão e abandono.

 

Ana se suicidou as trinta e um anos, atirando-se da janéla do sétimo andar de seu apartamento em Copacabana.

 

Abaixo, acompanhei três poemas da poetisa carioca:

 

Sexta-Feira da Paixão

 

Alguns estão dormindo de tarde,
outros subiram para Petrópolis como meninos tristes.
Vou bater à porta do meu amigo,
que tem uma pequena mulher que sorri muito e fala pouco,
como uma japonesa.
Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
“Coisa ínfima, quero ficar perto de ti.”
Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde e digo: está lindo,
mas não sei ser engraçada.
“A crueldade é seu diadema…”
O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia das vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
Olhos desencontrados: e se eu te disser, te adoro,
e te raptar não sei como dessa aflição de março,
bem que aproveitando maus bocados para sair do
esconderijo num relance?
Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?
Beware: esta compaixão é
é paixão.

 

 

Travelling

 

Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e um regador,
Elizabeth reconfirma, “Perder
É mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”, dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. “É perigoso”,
ria a Carolina perita no papel kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas as três bebi um pouco
sem notar
como quem procura um fio.
Nunca mais te disse
uma palavra, repito, preciso alto,
tarde da noite,
enquanto desalinho
sem luxo
sede
agulhadas
os pareceres que ouvi num dia interminável:

sem parecer mais com a luz ofuscante desse mesmo dia interminável

 

 

Ciúmes

 

Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma

Tão distraídamente

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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