As novas cores de Rimbaud

11.04.2019

 

Há, por vezes, jovens geniais que parecem vir à Terra com um único motivo: causar inveja aos demais habitantes locais. Isaac Newton, Wolfgang Amadeus Mozart, Maria Gaetana Agnesi, dentre outras personalidades que – ainda crianças – já mantinham uma produção sólida e preciosíssima, seja no campo da arte, ciência, política, etc. Porém, ao longo dos anos, um nome em especial se fez mais presente em minha vida, povoando e inspirando o imaginário deste que vos escreve (e fala): Arthur Rimbaud.

 

Nascido no dia 20 de outubro de 1854, em Charleville, França, fora um jovem provençal, inquieto e genial, que aos 15 anos já colecionava alguns prêmios literários e versos em latim. Aos 16 já migrava para Paris, onde se uniria a nata intelectual francesa e amadureceria ainda mais sua literatura, criando, ainda adolescente, suas principais obras que viriam a ser tidas como clássicos da literatura mundial.

 

Poeta, nômade, radical, moderno e necessário, Rimbaud buscou em seu trânsito pela Europa recém industrializada novas linguagens, paisagens e significados, construindo uma poesia em prosa que dava continuidade à inovação iniciada por Charles Baudelaire alguns anos antes. Assistia o crescimento das metrópoles e da indústria, o avanço da ciência, a derrota da França na guerra Franco-Prussiana, a ascensão e o fracasso da Comuna de Páris. Seu mundo mudava, e sua escrita refletia, numa ação consciente, as formas e cores desse novo mundo.

 

"Como eu descia pelos rios impassíveis,

senti-me libertar de meus rebocadores.

Tomaram-nos por alvo os índios irascíveis

e pregaram-nos nus aos postes multicores.

 

Já não me preocupava a carga que eu trazia,

fosse o trigo flamengo ou o algodão inglês.

Quando dos homens se acabou a gritaria,

pelos rios voguei, liberto de uma vez.

 

Ante o irado ranger das marés, me lancei,

mais surdo que infantis cabeças, no outro inverno,

fugindo! E para trás penínsulas deixei

que jamais viram tão glorioso desgoverno."

(Trecho de "O barco Bêbado)

 

Porém, sua vida literária foi tão rápida quanto a escalada de sua importância como poeta, durando apenas quatro anos (dos 16 aos 20 anos de idade), momento em que o ainda jovem Arthur resolve abandonar a pena. Partiu para o norte do continente africano onde alistou-se no exército, teve seu tempo de mercador, foi capataz de uma pedreira e até mesmo traficou armas. Por fim, a vida de nômade cobrou seu preço e Rimbaud foi acometido por uma sinovite – doença inflamatória articular - no joelho direito, inflamação esta que subsequentemente tornou-se um carcinoma, resultando em uma amputação e, infelizmente, na metástase que o levou a óbito em 1891, aos 37 anos.

 

Conheci o “jovem Shakespeare” (como era chamado por alguns na época) aos 18 anos, tornando-me íntimo de sua obra pouco tempo depois, ao ganhar um livro - sem dedicatória – de uma antiga namorada. “Iluminuras”, como se intitula a obra com a qual fui presenteado, é uma espécie de testamento poético do jovem francês, repleto de “pensamentos cantados” e “alquimias verbais” que, como indica seu título, pintam cenas do mundo que o abraçava. O fascínio foi imediato.

 

A atração pelo poeta rebelde se transformou em companheirismo criativo. De leituras constantes e declamações esporádicas. Ainda me pego observando o rosto do rapaz de olhos temulentos e cabelos desgrenhados nas poucas fotos de péssima qualidade que sobreviveram por todos esses anos, e tenho certeza de que muito mais se mantém vivo: a raíz de sua influência literária, a força de sua história tão peculiar e, logicamente, sua obra, que cria força a cada nova leitura.

 

Hoje, uso este espaço para homenagear Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, e convidá-los a conhecer melhor sua obra.

 

Abaixo, tomo a liberdade de fazer uma breve leitura de um de seus poemas, “Démocratie”, que parece soar absolutamente contemporâneo em sua temática, seja pelo seu teor universal, ou pelos tempos sombrios que vivemos.

 

As Novas Cores de Rimbaud (Démocratie)

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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