Vida de Goya e as Pinturas Negras

20.03.2019

 

VIDA DE GOYA

Francisco José de Goya y Lucientes nasceu em Fuendetodos, Espanha, em 30 de março de 1746. Pintor e gravurista, um dos artistas mais influentes do mundo, inseriu-se no contexto do Neoclassicismo e do Romantismo e o transcendeu, sendo um dos maiores anunciadores da arte contemporânea.

 

 

Iniciou sua carreira aos 13 anos, como aprendiz de Don José Luzan y Marttinez, fazendo cópias de obras consagradas, como era costume na época. Aos dezessete anos, mudou-se para Madrid, e estudou com Anton Raphael Mengs. Desentendendo-se com seu mestre, foi muito aquém do satisfatório em seus exames. Tentou entrar para a Academia de Belas Artes em 1763 e 1766, mas não conseguiu. Depois disso, viajou para a Itália, a fim de estudar os mestres. Debruçou-se sobre a obra de Guido Reni e Rafael, dentre outros. Conheceu Piranesi, de quem recebeu muita influência, durante sua estada em Roma. Em 1771, recebeu menção honrosa no concurso da Academia de Belas Artes de Parma, e conquistou sua primeira encomenda: o afresco na Igreja Nossa Senhora do Pilar, em Saragoça. A esse, seguiram-se ainda outros trabalhos encomendados para monastérios e palácios.

 

 

Casou-se com Josefa Bayeu e, de volta a Madrid, produziu diversos desenhos para tapeçarias retratando, em sua maioria, cenas folclóricas e paisagens. A partir de 1774, iniciou uma fase bastante produtiva pintando retratos – muitos dos quais icônicos, principalmente dentre aqueles de mulheres e crianças. Foi aproximadamente nessa época que começou a ser reconhecido e procurado por membros da corte por seus dotes artísticos.

 

 

Em 1792, Goya caiu doente. Muito se especula sobre a natureza da enfermidade, que já foi descrita como Síndrome de Susac, envenenamento por chumbo ou sífilis. De qualquer modo, Goya passou meses confinado a uma cama, sofre alucinações e dores de cabeça e perdeu quase completamente a capacidade de andar. Mesmo após a lenta recuperação, o pintor perdeu totalmente sua audição. Muitos veem a doença como um divisor de águas em sua vida e obra. O desaparecimento paulatino da alegria em suas criações, o escurecimento das cores, e um aumento da expressão em sua forma de pintar estariam atrelados à perda da própria vivacidade como indivíduo. Seus retratos passaram a expor as fraquezas dos retratados.

 

 

Seguindo essa carreira rumo ao obscuro, sua série “Los Desastres de la Guerra”, assim como as obras “El Segundo de Mayo de 1808” e “El Tercero de Mayo de 1808” mostraram os horrores das Guerras Napoleônicas em toda sua injustiça e falta de sentido. Exilado em sua Quinta del Sordo, Goya atacava a insanidade humana, mostrando uma guerra sem heróis ou grandiosidade, repleta apenas de dor e crueldade.   

 

 

Na verdade, os temas de loucura e crueldade, junto da bruxaria e fantasia, já se imprimiam em seu trabalho, pelo menos, desde a década de 1780. O conhecidíssimo “El Aquelarre”, retratando uma reunião de bruxas ao redor de uma fogueira, na companhia de um bode – o próprio demônio, e cercadas de crianças e bebês mortos, data de 1798. Sua série de pinturas sobre o Crime de Castillo, mostrando María Vicenta aguardando a execução após assassinar o marido com o auxílio de seu primo e amante é da mesma época.

 

 

Amargurado e enclausurado em sua Quinta, Goya criou as Pinturas Negras entre os anos 1820 e 1824, após o que se mudou para Bordéus, na França. Foi lá que o artista morreu, em 15 de abril de 1828, com 82 anos de idade.

 

Os temas e formatos abordados por Goya foram vastíssimos: o artista criou pinturas em tela, murais, gravuras em tecidos, águas fortes, aguadas, óleos tratando de paisagens, cenas mitológicas, religião, imaginário, guerras, homens e mulheres, deuses, demônios, feiticeiros e bruxas. O tom de suas obras variava da comédia à tragédia. Mesmo em seus retratos de nobres, havia algo de patético ou grotesco, como um lançar de olhos que capturava com honestidade seus modelos, sem disfarçar velhice, angústias ou tristeza sobre a tela.

 

AS PINTURAS NEGRAS

 

A série de quatorze obras sem título pintadas nos muros de sua casa na primeira metade da década de 1820 foi bem pouco conhecida até o fim do Século XIX, quando, entre 1874 e 1878, foram transpostos para telas. Catalogada por Antonio de Brugada em 1828, ela consiste nos quadros nomeados por Antonio: “Átropos” ou “Las Parcas”, “Dos Viejos” ou “Un Viejo y un Fraile”, “Dos Viejos Comiendo Sopa”, “Duelo a Garrotazos” ou “La Riña”, “El Aquelarre” (não se trata da obra de 1798), “Hombres Leyendo”, Judith y Holofernes”, “La Romaría de San Isidro”, “Dos Mujeres y un Hombre”, “Peregrinación a la Fuente de San Isidro” ou “Procesión del Santo Oficio”, “Perro Semihundido” ou “El Perro”, “Saturno Devorando a un Hijo”, “Una Manola: Doña Leocadia Zorrilla” e “Visión Fantástica” ou “Asmodea”.

 

Cobrindo as paredes de dois pisos, térreo e sobrado, da residência de Goya, as Pinturas Negras foram alvo de muito debate e análise. Desde a preexistência ou não dos fundos sobre os quais foram retratadas as figuras em algumas das obras até a verdadeira autoria delas (por poucos atribuída a Javier, filho de Goya, hipótese recusada por alguns dos maiores estudiosos do pintor), até a possibilidade de “Cabezas en un Paisaje” ser ou não a décima quinta Pintura Negra, retirada da casa antes do translado das outras pinturas, há bastante assunto para alimentar discussões.

 

De qualquer modo, quanto à análise, o consenso que há uma mistura de causas sociais e psicológicas para a realização das pinturas. Goya, já bastante velho e debilitado, consciente da própria decadência física, reflete sobre esses temas. Mas o próprio local onde foram criadas e expostas as peças traz mais confusão. Existe certa lógica a ser seguida na tradição da pintura em paredes de palácios e casas da alta burguesia. É possível que Goya tenha feito uma analogia (muito satírica e até grotesca) a essa lógica, como no caso da pintura da pintura de Saturno devorando seu filho na sala de refeições. É fato que as obras do térreo são mais escuras, possivelmente tratando da decadência do homem, vital ou sexual (de um ponto de vista freudiano), e as presentes no andar superior apresentam bastante contraste entre o riso e o pranto. São, enfim, várias as leituras possíveis de cada obra e do conjunto como um todo.

 

Talvez o que mais chame a atenção, de qualquer modo, nessa coleção, é o estilo. A composição aponta para o que só seria explorado em grande escala no futuro: a composição dos quadros, por exemplo, é descentralizada, isso é, as figuras não se concentram em sua parte central. Na Romaria de Santo Isidro, por exemplo, todos os romeiros se agrupam mais no lado esquerdo da composição. Nela também, podemos ver outro exemplo de unidade estilística: como em todas as outras Pinturas Negras, é retratada uma cena noturna ou sem luz. Essas obras também não foram pintadas para retratar o belo. O que vemos é o grotesco, o animalesco. Figuras estáticas, feias, embasbacadas, ou seja, desagradáveis. Valeriano Bozal chega a encarar o conjunto como uma Capela Sistina laica, onde a salvação e a beleza são substituídas pela lucidez e consciência da solidão, da velhice e da morte.

 

Interessante notar as coincidências entre o estilo de Goya nas Pinturas Negras e as características centrais do expressionismo na pintura. Sempre tão cheio de personalidade, tão fiel a seus temas e seu próprio estilo, Goya acabou por entrever o futuro da arte, principalmente nessa sua última grande série. “Goya, o Turbulento”, como ele já foi conhecido, foi a fundo no poço do feio e repugnante que se esconde dentro de qualquer ente humano. Disso, criou arte, e marcou para sempre a história da pintura. Como já disse Nigel Glendinning:

 

“Um modelo romântico para os românticos; um impressionista para os impressionistas, Goya mais tarde se transformou em um expressionista para os expressionistas e um precursor do surrealismo para os surrealistas.”

 

Segue-se a totalidade das Pinturas Negras:

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

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