"Outro Conto Russo" - Roberto Bolaño

16.03.2019

 

Roberto Bolaño (1953 – 2003) é considerado um dos maiores autores latino-americanos contemporâneos. Foi romancista, contista, ensaísta e poeta. Morou no México durante a adolescência e voltou ao Chile, seu país natal, pouco antes do golpe sobre Salvador Allende. Exilado, viveu na Espanha e começou a publicar seus trabalhos com quarenta anos de idade.

 

 

 

OUTRO CONTO RUSSO

Para Anselmo Sanjuán

 

                Em certa ocasião, depois de conversar com um amigo acerca da identidade singular da arte, Amalfitano lhe contou uma história que por sua vez tinham lhe contado em Barcelona. A história era sobre um sorche da Divisão Azul espanhola que combateu na Segunda Guerra Mundial, na frente russa, precisamente no Grupo dos Exércitos do Norte, numa zona próxima de Novgorod.

                O sorche era um sevilhano baixote, magro como um palito e de olhos azuis que, por essas coisas da vida (não era um Dionisio Ridruejo nem mesmo um Tomás Salvador, e quando tinha que cumprimentar à romana, cumprimentava, mas também não era propriamente um fascista ou falangista), foi parar na Rússia. Lá, sem que se soubesse quem começou, alguém disse ao sorche venha aqui ou sorche faça isto ou aquilo, e ficou na cabeça do sevilhano a palavra sorche, mas na parte escura da cabeça, e com o passar do tempo, naquele lugar tão grande e desolador e os sustos diários, se transformou na palavra chantre. Não sei como aconteceu, suponhamos que tenha sido ativado um mecanismo infantil, uma recordação feliz que esperava sua oportunidade para voltar.

                De modo que o andaluz pensava sobre si nos mesmos termos e obrigações de um chantre, embora conscientemente não tivesse a menor ideia do significado dessa palavra que designa o encarregado do coro em algumas catedrais. Mas de alguma maneira, e isso é notável, à força de se imaginar chantre se transformou em chantre. Durante o terrível natal de 1941 ele se encarregou do coro que cantava villancicos enquanto os russos massacravam os homens do Regimento 250. Em sua memória aqueles dias estão cheios de barulho (barulhos secos, constantes) e de uma alegria subterrânea e um pouco fora de foco. Cantavam, mas era como se as vozes chegassem depois ou até antes, e os lábios, as gargantas, os olhos dos cantores muitas vezes se esgueiravam por uma espécie de fissura de silêncio, numa viagem brevíssima mas igualmente estranha.

                Quanto ao mais, o sevilhano se comportou como um valente, com resignação, embora seu humor tenha ido se azedando com o passar do tempo.

                Não demorou a experimentar sua cota de sangue. Uma tarde, num momento de descuido, foi ferido e permaneceu duas semanas internado no hospital militar de Riga, aos cuidados de robustas e sorridentes enfermeiras do Reich incrédulas ante a cor de seus olhos e de algumas feíssimas enfermeiras espanholas voluntárias, provavelmente irmãs, cunhadas ou primas distantes de José Antonio.

                Quando lhe deram alta aconteceu algo que, para o sevilhano, teria graves consequências: em vez de receber um bilhete com o destino correto, deram-lhe outro que o levou aos quartéis de um batalhão das SS destacado a uns trezentos quilômetros do seu regimento. Ali, rodeado por alemães, austríacos, letões, lituanos, dinamarqueses, noruegueses e suecos, todos muito mais altos e fortes que ele, tentou desfazer o equívoco utilizando um alemão rudimentar, mas os SS não lhe deram bola e enquanto esclareciam o caso puseram-lhe uma vassoura na mão e mandaram-no varrer o quartel, e com um balde d’água e um pano de chão, lavar a comprida e enorme instalação de madeira onde retinham, interrogavam e torturavam toda classe de prisioneiros.

                Sem se resignar de todo, mas cumprindo conscientemente com sua nova tarefa, o sevilhano viu passar o tempo em seu novo quartel, comendo muito melhor que antes e sem se expor a novos perigos, já que o batalhão das SS estava posicionado na retaguarda em luta contra aqueles a quem chamavam bandidos. Então, no lado escuro da sua cabeça voltou a se tornar legível a palavra sorche. Sou um sorche, disse consigo, um recruta bisonho, e devo aceitar meu destino. A palavra chantre pouco a pouco desapareceu, embora algumas tardes, sob um céu sem limites que o enchia de saudades sevilhanas, ainda ecoasse por ali, perdida sabe-se lá onde. Uma vez ouviu uns soldados alemães cantando e se lembrou dela, ouviu cantar de novo um menino detrás de umas moitas e voltou a recordá-la, dessa vez de forma mais precisa, mas quando contornou os arbustos o menino não estava mais lá.

                Um bom dia aconteceu o que tinha que acontecer. O quartel do batalhão da SS foi atacado e tomado por um regimento de cavalaria russo, segundo alguns, por um grupo de guerrilheiros, segundo outros. O combate foi curto e logo pendeu a desfavor dos alemães. Ao cabo de uma hora os russos encontraram o sevilhano escondido no edifício comprido, vestindo o uniforme de auxiliar da SS e rodeado pelas não tão pretéritas infâmias ali cometidas. Como se diz, com a mão na massa. Não demorou a ser amarrado numa cadeira que os SS usavam nos interrogatórios, essas cadeiras com correias nas pernas e no encosto, e a tudo o que os russos perguntavam ele respondia em espanhol que não entendia e que ali só cumpria ordens. Também tentou dizer em alemão, mas nessa língua só conhecia quatro palavras e os russos nenhuma. Estes, depois de uma rápida sessão de tapas e pontapés, foram buscar um que sabia alemão e que interrogava prisioneiros em outra cela do edifício comprido. Antes de eles voltarem o sevilhano ouviu disparos, soube que estavam matando alguns SS e perdeu as esperanças que ainda tinha de escapar são e salvo; apesar disso, quando os disparos cessaram voltou a se aferrar à vida com todo o seu ser. O que sabia alemão perguntou o que ele fazia ali, qual era sua função e sua patente. O sevilhano, em alemão, tentou explicar, mas em vão. Os russos então abriram sua boca e com as tenazes que os alemães destinavam a outras partes da anatomia humana começaram a puxar e apertar sua língua. A dor que sentiu o fez lacrimejar e disse, ou antes gritou, a palavra coño. Com as tenazes dentro da boca o xingamento espanhol se transformou e saiu ao espaço convertido na ululante palavra kunst.

                O russo que sabia alemão fitou-o espantado. O sevilhano gritava kunst, kunst, e chorava de dor. A palavra kunst, em alemão, significa arte, e o soldado bilíngue assim a entendeu e disse que aquele filho da puta era artista ou algo parecido. Os que torturavam o sevilhano retiraram a tenaz com um pedacinho de língua e esperaram, momentaneamente hipnotizados pela descoberta. A palavra arte. O que amansa as feras. E assim, como feras amansadas, os russos deram um tempo e esperaram algum sinal enquanto o sorche sangrava pela boca e engolia seu sangue misturado com grandes doses de saliva e engasgava. A palavra coño, metamorfoseada na palavra arte, tinha lhe salvado a vida. Quando saiu do edifício comprido o sol estava se escondendo, mas feriu seus olhos como se fosse meio-dia.

                Levaram-no com o escasso resto de prisioneiros e pouco depois outro russo que sabia espanhol pôde ouvir sua história e o sevilhano foi parar num campo de prisioneiros na Sibéria, enquanto seus acidentais companheiros de iniquidade eram passados pelas armas. Permaneceu na Sibéria até já bem avançada a década de 1950. Em 1957 instalou-se em Barcelona. Às vezes abria a boca e contava suas pequenas batalhas com muito bom humor. Outras abria a boca e mostrava a quem quisesse ver o pedaço de língua que lhe faltava. Mal era perceptível. O sevilhano, quando lhe diziam isso, explicava que a língua, com os anos, havia crescido. Amalfitano não o conheceu pessoalmente, mas quando lhe contaram a história o sevilhano ainda morava num quarto de porteiro em Barcelona.

 

(tradução de Eduardo Brandão)

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

     POSTS recentes:     
Please reload

© 2016 por O Caos Cultural.