Tom Waits - Um Outsider Mítico

14.03.2019

 

Tom Waits, mais do que um artista, é um mito. E não aos moldes clássicos, imutável, mas um   ícone que se reinventa, que se recria a cada nova obra. Nascido Thomas Alan Waits em 7 de dezembro de 1949, em Pomona, Califórnia, foi filho do meio, entre duas irmãs, de Jesse Frank e Alma Fern Waits, ambos professores escolares. Jesse, seu pai, era alcoólatra, e um tipo que Tom Waits classificou como “durão, sempre um outsider”. De qualquer modo, sua infância foi bastante normal, segundo o próprio artista, e ele aprendeu, já na escola, a tocar cornetim e violão, além do ukelele ensinado por Jesse. Nessa época, o garoto visitava os avós maternos durante as férias de verão, visitas em que ele também via o tio, possuidor de uma voz áspera e grave, que, segundo o cantor, o inspiraria posteriormente na forma de cantar.

 

 

 Há também uma história, citada pelo próprio Tom em entrevistas, afirmando que seu nascimento se deu dentro de um táxi em movimento, o que não parece ser verídico.  Tom Waits é um grande contador de anedotas e, mais do que verdadeiras, elas precisam entreter. Por isso é bastante comum que seus shows e entrevistas sejam pontilhadas por historietas, a maioria humorísticas e ácidas na qual a vida real se mistura com a invenção.

 

 

De qualquer modo, seu pai abandonou a família em 1959, quando Tom contava com 10 anos de idade. Alma se mudou para Chula Vista, San Diego, com os filhos, e Jesse eventualmente os visitava, levando as crianças para viagens até Tijuana.

 

Foi durante a adolescência que suas influências musicais começaram a aflorar, conforme crescia seu interesse por nomes como Leadbelly, Frank Sinatra, James Brown, Ray Charles, Roy Orbison e o fundamental Bob Dylan. Do lado das influências literárias, tão marcantes em suas letras narrativas, algumas delas simplesmente recitadas, o jovem Tom Waits encontrou terreno fértil lendo autores da Geração Beat, principalmente Jack Kerouac e Bukowski. Terminou seus estudos na Hilltop High School em 1968.

 

 

Antes de iniciar sua carreira artística, Tom conseguiu subempregos como funcionário de pizzaria e porteiro em casa noturna, que de certa forma também influenciaram suas letras, além de ter servido por três anos na Guarda Costeira. Também já afirmou ter trabalhado como guarda florestal, o que pode ou não ser verdade, como todo o resto de suas histórias. Mudou-se, em 1971, para Los Angeles e, dormindo em seu carro ou em hotéis baratos, viajando de uma casa noturna para outra, apresentando-se, acabou assinando com a gravadora Asylum em 1972.

 

 

Seu primeiro álbum, Closing Time, foi lançado em 1973, e já explicitava o estilo que marcaria sua primeira fase: a mistura de vaudeville, blues, jazz e pop; o acompanhamento de piano, guitarra e outras cordas; o estilão meio crooner de jazz; e as sempre presentes voz grave,  áspera, e letras obscuras com toques cômicos contando os amores e as dores de gente de subclasses urbanas (dentre uma e outra esquisitice ocasional). Com a Asylum, lançou outros discos como Nighthawks at the Diner e Small Change.

 

 

Fazendo aparições públicas performáticas em eventos e programas de entrevista, sempre com o terno, o chapéu, os sapatos velhos e o jeitão de quem bebeu a noite toda, de fala que variava do arrastado para o rápido, Tom Waits era uma figura excêntrica e começava a ficar famoso. Durante os anos 1980, ele decidiu adicionar ainda mais excentricidade à sua fórmula, usando arranjos mais ecléticos; instrumental amplo que incluia xilofones, metais, teclados e até coisas como uma cadeira sendo arrastada; visitando mais gêneros musicais, que iam do cabaré ao tango, passando por tantos outros estilos, Waits lançou Swordfishtrombones, em 1983, Rain Dogs, em 1985, e o conceitual Frank Wild Years, baseado em peça teatral de sua autoria, em 1987. Foi nessa década que Tom Waits acabou abraçado pela crítica e se tornou um ídolo cult.

 

 

As experimentações não pararam por aí. Os anos 1990 começaram com The Black Rider, uma colaboração entre Tom Waits, William Burroughs e o diretor Robert Wilson, onde se nota grande influência de Bertold Brecht. Tom ainda participou da faixa “Tommy the Cat”, da banda Primus, no álbum Sailing the Seas of Cheese. Foi a primeira colaboração entre ele e a banda -- que o acompanharia em muitos outros álbuns e shows como banda de apoio. Bone Machine, álbum de 1992, injetou percussão e muitas guitarras em seu som, deixando muito pouco espaço para metais ou pianos, e lhe valeu o Grammy de Melhor Álbum Alternativo. Em 1999 saiu Mule Variations, que também acabou angariando outro Grammy: desta vez o de Melhor Álbum Folk Contemporâneo.

 

 

Depois da virada do século, a carreira de Tom Waits seguiu inabalável: em 2002 foram lançados dois álbuns simultaneamente: Alice – com músicas de uma peça criada por Tom Waits na década anterior, baseada em Alice no País das Maravilhas – e Blood Money. Ambos possuíam em comum as revisitações ao tango e outros estilos e as letras cínicas e absurdamente pessimistas. Real Gone foi lançado em 2004, e Orphans, um disco triplo, em 2006. Seu último álbum, até o momento, foi Bad as Me, de 2011.

 

 

Isso, claro, não significa que o artista se aposentou. Além das inúmeras apresentações ao vivo, parceria com outros músicos e trilhas sonoras para o cinema, Tom Waits também desenvolveu uma interessante carreira como ator: Dawn By Law e Coffee and Cigarettes, de Jim Jarmusch; Ironweed, de Hector Babenco; Bram Stoker’s Dracula, de Francis Ford Coppola; The Imaginarium of Doctor Parnassus, de Terry Gilliam; e o recente The Ballad of Buster Scruggs, dos irmãos Coen; são alguns dos filmes em que é possível apreciar a atuação de Waits.

 

 

Sujeito evasivo, que pouco deixa entrever de sua vida pessoal, Tom Waits chegou às quase sete décadas de vida como um ícone artístico americano. Seu estilo inigualável, tanto musicalmente quanto nas letras, tornou-o uma referência contemporânea. O biógrafo Patrick Humphries chegou até mesmo a colocá-lo ao lado do pintor Edward Hopper como um dos dois maiores retratadores do isolamento americano. E certamente ainda virá muito pela frente. Afinal, tipos como Tom Waits são inesgotáveis.

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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