5 Poemas de Murilo Mendes

08.03.2019

 


Murilo Mendes (1901 – 1975), foi um poeta e prosador brasileiro nascido em Juiz de Fora, MG. Lançou seu primeiro livro, Poemas, em 1930, bastante influenciado pelo Movimento Modernista. Tornou-se um expoente do surrealismo na literatura brasileira, deixando entrever traços cubistas em livros como As Metamorfoses e Mundo Enigma. Ainda flertou com a estética vanguardista em Convergência, obra claramente influenciada pelo Concretismo.

 

 

CAVALOS

 

Pela grande campina deserta passam os cavalos a galope.

Aonde vão eles?

Vão buscar a cabeça do Delfim rolando na escadaria.

Os cavalos nervosos sacodem no ar longas crinas azuis.

Um segura nos dentes a branca atriz morta que retirou das águas,

Outros levam mensagens do vento aos exploradores desaparecidos,

Ou carregam trigo para as populações abandonadas pelos chefes.

Os finos cavalos azuis relincham para os aviões

E batem a terra dura com os cascos reluzentes.

São os restos de uma antiga raça companheira do homem

Que os vão substituir pelos cavalos mecânicos

E atirá-los ao abismo da história.

Os impacientes cavalos azuis fecham a curva do horizonte,

Despertando clarins na manhã.

 

 

CANÇÃO DO EXÍLIO

 

Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam gaturamos de Veneza.

Os poetas da minha terra

são pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo a prestações.

A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

Nossas frutas mais gostosas

Mas custam cem mil réis a dúzia.

 

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!

 

 

ESTUDO Nº 6

 

Tua cabeça é uma dália gigante que se esfolha nos meus braços.

Nas tuas unhas se escondem algas vermelhas,

E da árvore de tuas pestanas

Nascem luzes atraídas pelas abelhas.

 

Caminharei esta manhã para teus seios:

Virei ciumento do orvalho da madrugada,

Do tecelão que tece o fio para teu vestido.

Virei, tendo aplacado uma a uma as estrelas,

E, depois de rolarmos pela escadaria de tapetes submarinos,

Voltamos, deixando madréporas e conchas,

Obedecendo aos sinais precursores da morte,

Para a grande pedra que as idades balançam à beira-nuvem.

 

 

EXPLOSÕES

 

A ode explode. O bode explode.

O Etna explode. O erre explode.

A minha explode. A mitra explode.

Tudo agora e amanhã explode.

Exceto a Bomba: o homem não pode.

O homem não pode. O homem não pode. O homem não pode.

 

*

 

O homem pode:

Soltar a vida. Fuzilar a Bomba. Reinventar a ode.

 

 

LA NIÑA DE LOS PEINES

 

Sua voz:

Esta é a própria flecha da alma

Vertical na sua origem,

Forçada a se transformar em curvas,

Abrindo a lamentação

Que nasce no deserto anterior

E provoca à sua passagem o eco andaluz.

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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