O Gênio Místico de Xul Solar

06.03.2019

 

Xul Solar, nascido Oscar Agustín Shulz Solari, nasceu em Buenos Aires no dia 14 de dezembro de  1887. Seus pais foram o engenheiro alemão Emilio Shulz Riga e a representante de seguros italiana Agustina Solari. Figura inquieta, desde muito jovem mostrou interesse em arte, música e literatura, chegando a estudar violino e piano. Matriculou-se em arquitetura na Universidade de Buenos Aires em 1906, mas largou o curso dois anos depois. De qualquer modo, a arquitetura iria marcá-lo profundamente, principalmente em suas pinturas.

 

 

Teve em vários empregos, atuando burocraticamente no cárcere e na prefeitura de Buenos Aires. Com as economias acumuladas durante esse tempo deu início a uma sonhada série de viagens. Foi para Hong Kong em 1912 e seguiu para países europeus, a começar pela Inglaterra, passando pela França e pela Itália, onde viveu com a mãe, recebendo auxílio da família. Em Milão, conheceu o pintor argentino Emilio Pettoruti, a quem mostrou seus desenhos. Em Berlim, na Alemanha, conheceu o Dadaísmo, e recebeu grande influência de Paul Klee. Em 1916 passou a usar o nome Xul Solar, com o qual assinaria suas obras. Os 12 anos que passou na Europa foram muito importantes, possibilitando o contato com diversos artistas e correntes de vanguarda – como o futurismo, o cubismo, o fauvismo, o expressionismo e o surrealismo. Foi no meio dessa estada, em 1920, na cidade de Milão, que Xul Solar fez sua primeira exposição, junto do escultor Arturo Martini. Também expôs em Paris, no Musée Galliéra, em 1924, com outros artistas latino-americanos.

 

 

Deixou a Europa em 1924, retornando para a pátria natal. Tornou-se colaborador da Revista Martín Fierro, que se opunha ao conservadorismo na cultura argentina. Dentre os martinfierristas, travou contato com gente do calibre de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Oliverio Girondo. Borges, que se tornaria um grande amigo, chegou a dizer de Xul Solar:

 

“(...) é um dos acontecimentos mais singulares de nossa época, suas pinturas são documentos do mundo ultraterreno, do mundo metafísico em que os deuses tomam as formas da imaginação que os sonha.”

 

 

Em 1929 apresentou uma exposição individual na Associação Amigos da Arte. Participou ainda de várias outras mostras ao lado de outros importantes artistas da América Latina. Com a década de 1930, expressou seus interesses místicos e astrológicos em desenhos arquitetônicos fantásticos, dentre os quais suas cidades abissais, estranhas, que se tornaram célebres. Na década seguinte, fez várias conferências sobre astrologia e outros temas correlatos. Ilustrou Un Modelo para la Muerte, de B. Suárez Lynch, famoso pseudônimo inventado por Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares para criarem suas obras a quatro mãos.  No ano de 1954, mudou-se para uma casa no Delta, onde construiu um ateliê projetado por ele mesmo. Lá trabalhou até o fim de sua vida, em 09 de Abril de 1963.

 

 

Possuidor de um vasto universo de interesses, Xul Solar se aprofundou em filosofia, ciências ocultas e nos sistemas de crenças de diversas culturas, e refletiu todos esses temas em sua pintura. É considerado o pintor que melhor trabalhou o surrealismo na América Latina, apesar de sua obra ser tratada por grande parte dos críticos como fantástica. De qualquer modo, ela é marcada por quase toda a vanguarda europeia, transparecendo um fortíssimo simbolismo íntimo. Suas cores fortes, figuras oníricas, construções gigantescas, serpentes, símbolos místicos e textos criam um universo distante e misterioso, talvez anterior a aparição dos deuses, como já disse Fernando Demaría.

 

 

Muito conhecidas são suas telas representando grandes cidades áridas e labirínticas. Suprimida a natureza, as pessoas perdidas dentre as construções, o que resta é uma sensação de desolação e solidão, até de esvaziamento espiritual. Um exemplo disso pode ser visto em Muros y Escaleras, de 1944.

 

 

Mas não foi apenas nas artes plásticas que Xul Solar deixou sua excêntrica marca. Como se quisesse abraçar o universo, o artista também atuou como escritor, músico, astrólogo, esotérico, inventor e linguista. Conhecedor de pelo menos vinte línguas, dominava dez e criou outras duas: a panlengua (idioma monossilábico universal, criada sobre bases numéricas e astrológicas) e o neocriollo. Criou também o pan-xadrez , um jogo de tabuleiro com 30 peças com as quais o jogador poderia criar palavras em panlengua, combinar cores, criar acordes musicais, resolver equações matemáticas e ler seu destino como no horóscopo.  Escreveu o San Signos, em neocriollo, com 64 textos baseados nos hexagramas do I Ching. Também inventou instrumentos musicais.

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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