"A Galinha degolada", Horacio Quiroga

01.03.2019

 

Horácio Quiroga (1878 – 1937) é considerado um dos mestres do conto latino-americano. Viveu uma vida forrada de tragédias e atribulações, incluindo suicídios de gente próxima, que teve fim com seu próprio suicídio aos 58 anos de idade.

 

"A Galinha Degolada" pode ser considerado o mais cruel conto do autor, e foi publicado no livro (de título bastante sugestivo) Contos de Amor, de Loucura e de Morte.

 

 

A GALINHA DEGOLADA

 

                O dia inteiro passavam sentados num banco do quintal os quatro filhos idiotas do casal Mazzini-Ferraz. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos, e viravam a cabeça com a boca aberta.

                O quintal era de terra, fechado a oeste por um muro de tijolos. O banco ficava paralelo a ele, a uma distância de cinco metros, e ali eles permaneciam imóveis, com os olhos fixos nos tijolos. Quando o sol se ocultava atrás do muro, os idiotas faziam a festa. A princípio, a luz ofuscante chamava sua atenção; depois, aos poucos, seus olhos iam ficando animados e, por fim, riam estrepitosamente, congestionados pela mesma hilaridade ansiosa, olhando o sol com alegria bestial, como se fosse comida.

                Em outras ocasiões, alinhados no banco, zumbiam durante horas a fio, imitando o bonde elétrico. Os ruídos fortes sacudiam também sua inércia, e então corriam, mordendo a língua e mugindo, ao redor do quintal. Mas quase sempre se encontravam apagados na sombria letargia de idiotismo, e ficavam o dia todo sentados em seu banco, com as pernas penduradas e quietas, empapando as calças com uma saliva viscosa.

                O mais velho tinha doze anos e o menor, oito. Em seu aspecto sujo e desleixado se notava a falta absoluta de um mínimo de cuidado maternal.

                Todavia, esses quatro idiotas foram algum dia o encanto de seus pais. Aos três meses de casados, Mazzini e Berta orientaram seu estreito amor de marido e mulher e mulher e marido para um futuro muito mais vital: um filho. Que felicidade poderia ser maior para dois apaixonados que essa honrada consagração do carinho, libertado já do vil egoísmo de um mútuo amor sem fim algum e, o que é pior para o próprio amor, sem esperanças possíveis de renovação?

                Assim sentiram Mazzini e Berta e, quando o filho chegou, aos quatorze meses de casamento, pensaram que sua felicidade estava completa. A criatura cresceu, bela e radiante, até chegar a um ano e meio. Porém, no vigésimo mês, a criança foi sacudida uma noite por convulsões terríveis e, na manhã seguinte, já não reconhecia seus pais. O médico examinou o menino com essa atenção profissional que visivelmente procura a causa do mal nas doenças dos pais.

                Passados alguns dias, os membros paralisados recobraram os movimentos, mas a inteligência, a alma, e até o instinto, haviam desaparecido completamente; tinha ficado profundamente idiota, babão, molengão, morto para sempre sobre os joelhos de sua mãe.

                -- Filho, meu filho querido! – chorava ela sobre a espantosa ruína de seu primogênito.

                O pai, arrasado, acompanhou o médico até a saída.

                -- Posso dizer ao senhor que acho que se trata de um caso perdido. Poderá melhorar, educar-se em tudo o que seu idiotismo permitir, mas nada além disso.

                -- Sim... sim... – assentia Mazzini. – Mas, me diga: o senhor pensa que é hereditário, que...?

                -- Quanto à herança paterna, já lhe disse o que pensei quando vi seu filho. Em relação à mãe, ela tem um pulmão que não sopra bem. Não vejo nada além disso, mas tem um sopro um pouco áspero. É necessário que seja bem examinada.

                Com a alma destroçada pelo remorso, Mazzini redobrou seu amor pelo filho, o pequeno idiota que pagava pelos excessos do avô. Teve também que consolar Berta, apoiá-la sem trégua, profundamente ferida por aquele fracasso de sua jovem maternidade.

                Como é natural, o casal colocou todo seu amor na esperança de outro filho. Ele nasceu, e sua saúde e limpidez de riso reacenderam o futuro extinto. Mas, aos dezoito meses, as convulsões do primogênito se repetiram e, no dia seguinte, amanheceu idiota.

                Desta vez, os pais caíram num profundo desespero. Seu sangue, seu amor eram malditos! Sobretudo seu amor! Ele tinha vinte e oito e ela vinte e dois, e toda sua apaixonada ternura não conseguia criar um átomo sequer de vida normal. Já não pediam beleza e inteligência, como no primogênito; queriam apenas um filho, um filho como todos os outros!

                Do novo desastre brotaram novas chamas de dolorido amor, um louco desejo de redimir de uma vez por todas a santidade de sua ternura. Vieram gêmeos, e o processo dos dois mais velhos se repetiu rigorosamente.

                Apesar da enorme amargura, Mazzini e Berta guardavam grande compaixão por seus quatro filhos. Tiveram que tirar do limbo da mais profunda animalidade deles, não as almas, mas o próprio instinto abolido. Não sabiam deglutir, mudar de lugar, nem mesmo sentar-se. Finalmente aprenderam a caminhar, mas esbarravam em tudo porque não percebiam os obstáculos. Quando eram lavados, mugiam até que seus rostos ficavam avermelhados, injetados de sangue. Ficavam animados apenas para comer, quando viam cores brilhantes ou quando ouviam trovões. Então riam, ponto para fora a língua e rios de baba, radiantes de um frenesi bestial. Por outro lado, tinham uma certa faculdade imitativa, mas não foi possível conseguir nada além disso.

                Com os gêmeos, a aterradora descendência parecia concluída. Mas, três anos depois, desejaram de novo, ardentemente, um novo filho, confiando em que o longo tempo transcorrido tivesse aplacado a fatalidade.

                Não satisfaziam suas esperanças. E, nesse ardente anseio que se exasperava devido à ausência de frutos, foram ficando cada vez mais amargos. Até aquele momento, cada qual havia assumido a parte que lhe correspondia na miséria dos filhos; mas a desesperança de redenção diante dos quatro animais que tinham nascido deles fez surgir essa imperiosa necessidade de culpar o outro, que é patrimônio específico dos corações inferiores.

                Começaram com a troca de pronomes: seus filhos. E, como além do insulto havia a insídia, a atmosfera ficava carregada.

                -- Acho – disse uma noite Mazzini, que acabava de entrar e lavava as mãos – que você poderia manter os meninos mais limpos.

                Berta continuou lendo, como se não tivesse ouvido.

                -- É a primeira vez – respondeu em seguida – que vejo você preocupado com o estado dos seus filhos.

                Mazzini virou um pouco a cara para ela com um sorriso forçado:

                -- Dos nossos filhos, eu acho.

                -- Bom; dos nossos filhos. Está bem assim? – ela levantou os olhos. Desta vez, Mazzini se expressou claramente:

                -- Imagino que você não vai dizer que a culpa é minha, vai?

                -- Ah, não! – sorriu Berta, muito pálida – mas também não é minha, suponho... Era só o que me faltava...! – murmurou.

                -- O que você quer dizer?

                -- Que se alguém tem culpa, esse alguém não sou eu, entendeu? É isso o que eu queria dizer.

                Seu marido a olhou durante um momento, com um brutal desejo de insultá-la.

                -- Vamos parar com isso! – articulou, secando finalmente as mãos.

                -- Como quiser; mas se você quer dizer...

                -- Berta!

                -- Como quiser!

                Este foi o primeiro choque e depois vieram outros. Mas, nas inevitáveis reconciliações, suas almas se uniam com dobrado arrebatamento e anseio por outro filho.

                Assim, nasceu uma menina. Viveram dois anos com a angústia à flor da pele, esperando sempre um novo desastre. Mas nada aconteceu e os pais puseram nela toda sua complacência, que a pequena levava aos limites extremos do mimo e da má-criação.

                Se nos últimos tempos Berta cuidava sempre de seus filhos, ao nascer Bertita ela se esqueceu quase que completamente dos outros. Sua simples lembrança a aterrorizava, como se fosse alguma coisa atroz que tivesse sido obrigada a cometer. Com Mazzini, embora em menor grau, acontecia a mesma coisa.

                Mas nem por isso a paz chegou às suas almas. À menor indisposição de sua filha, expulsavam, com o terror de perde-la, os rancores de sua descendência podre. Haviam acumulado fel durante muito tempo para que o corpo não transbordasse e, ao menor contato, o veneno derramava. Haviam perdido o respeito desde a primeira discussão envenenada; e se existe algo que atrai o homem com cruel fruição é a humilhação que começa a impor a uma pessoa. Antes se continham pela mútua falta de sucesso; mas agora que o sucesso havia chegado, cada um o atribuía a si próprio e sentia mais intensamente a infâmia dos quatro monstros que o outro o forçara a criar.

                Com esses sentimentos, não houve afeto possível para os quatro filhos maiores. A empregada os vestia, os alimentava, os deitava, com visível brutalidade. Quase nunca os lavavam. Passavam praticamente o dia todo sentados diante do muro, abandonados de qualquer carícia remota. Assim, Bertita fez quatro anos, e essa noite, resultado das guloseimas que os pais não podiam negar, a criatura teve calafrios e febre. E o medo de vê-la morrer ou de ficar idiota reabriu a eterna ferida.

                Fazia três horas que não falavam, e o motivo foi, como quase sempre, os fortes passos de Mazzini.

                -- Meu deus! Você não pode caminhar sem fazer barulho? Quantas vezes?...

                -- Bom, me esqueci; chega! Não fiz de propósito.

                Ela sorriu com desdém:

                -- Não, não acredito muito em você!

                -- Nem eu, nunca teria acreditado muito em você... tisiquinha!

                -- O quê? O que você disse?...

                -- Nada!

                -- Sim, ouvi alguma coisa! Olhe aqui: não sei o que você disse, mas juro que prefiro qualquer coisa a ter um pai como o que você teve!

                Mazzini ficou pálido.

                -- Até que enfim! – murmurou com os dentes apertados – Finalmente, víbora, você disse o que queria!

                -- Sim, víbora, sim! Mas eu tive pais sadios, entendeu?, sadios! Meu pai não morreu de delírio! Eu teria tido filhos como todo mundo! Esses filhos são seus, os quatro!

                Mazzini explodiu:

                -- Víbora tísica! É isso o que eu disse, o que quero te dizer! Pergunte, pergunte ao médico de quem é a maior culpa da meningite dos seus filhos: meu pai ou seu pulmão furado, víbora!

                Continuaram com violência crescente, até que um gemido de Bertita selou instantaneamente suas bocas. À uma da manhã a leve indigestão havia desaparecido, e, como acontece fatalmente com todos os casais jovens que se amaram intensamente pelo menos uma vez, a reconciliação chegou, tão mais efusiva quanto foram agressivos os agravos.

                Amanheceu um dia esplêndido e, enquanto se levantava, Berta cuspiu sangue. As emoções e a má noite eram, sem dúvida, as grandes culpadas. Mazzini a reteve abraçada durante um longo tempo, e ela chorou desesperadamente, mas sem que nenhum dos dois se atrevesse a dizer uma só palavra.

                Às dez decidiram sair, depois de almoçar. Como tinham pouquíssimo tempo, ordenaram à empregada que matasse uma galinha.

                O dia radiante havia tirado os idiotas de seu banco. De modo que, enquanto a empregada degolava o animal na cozinha, dessangrando-o com parcimônia (Berta aprendera com sua mãe essa boa forma de conservar a frescura da carne), achou que sentia algo como uma respiração atrás dela. Voltou-se e viu os quatro idiotas, com os ombros grudados uns nos outros, olhando estupefatos a operação. Vermelho... vermelho...

                -- Senhora! As crianças estão aqui, na cozinha...

                Berta chegou; não queria que entrassem ali jamais. E nem nessas horas de pleno perdão, esquecimento e felicidade reconquistada era possível evitar essa horrível visão! Porque, naturalmente, quanto mais intensos eram os arrebatos de amor ao seu marido e à filha, mais irritadiço era seu humor com os monstros.

                -- Faça com que saiam, Maria! Eles têm de sair! Para fora, agora!

                Os quatro pobres animais, sacudidos brutalmente empurrados, foram parar no seu banco.

                Depois de almoçar, todos saíram. A empregada foi para Buenos Aires e o casal foi passear pelas redondezas. Ao cair do sol, voltaram, mas Berta quis antes cumprimentar suas vizinhas da frente. Sua filha escapou em seguida para casa.

                Enquanto isso, os idiotas não tinham saído de seu banco durante todo o dia.

                O sol já havia transposto o muro, começava a se afundar, e eles continuavam olhando os tijolos, mais inertes do que nunca.

                De repente, alguma coisa se interpôs entre seus olhos e o muro. Sua irmã, cansada de cinco horas paternais, queria observar por conta própria. Parada ao pé do muro, olhava pensativa para o alto. Queria subir, não havia dúvida. Finalmente, decidiu-se por uma cadeira forrada, mas ainda faltava um pouco. Pegou, então, um caixote de querosene e seu instinto topográfico a fez colocar o móvel verticalmente, e, graças a isso, triunfou.

                Os quatro idiotas, o olhar indiferente, viram como sua irmã conseguia pacientemente dominar o equilíbrio e como, nas pontas dos pés, apoiava a garganta sobre o topo do muro, entre suas mãos esticadas. Viram como ela olhava para todos os lados e procurava apoio com o pé para subir mais.

                Mas o olhar dos idiotas havia se animado; uma mesma luz insistente estava fixa em suas pupilas. Não tiravam os olhos da irmã, enquanto uma crescente sensação de gula bestial ia alterando cada linha de seus rostos. Caminharam lentamente em direção ao muro. A pequena, que depois de firmar o pé ia montar a cavalo e cair para o outro lado, sentiu que alguém a agarrava por uma perna. Debaixo dela, os oito olhos cravados nos seus a assustaram.

                -- Solta! Me deixa! – gritou sacudindo aperna. Mas foi atraída.

                -- Mãe! Ai, mamãe! Mãe, pai! – chorou imperiosamente. Ainda tentou agarrar-se na borda, mas sentiu-se arrancada e caiu.

                -- Mãe, ai! Mamãe... – E já não pôde gritar mais. Um deles lhe apertou o pescoço, afastando os cachos de seus cabelos como se fossem penas, e os outros a arrastaram por uma perna até a cozinha, onde naquela manhã a galinha havia sido sangrada, bem agarrada, tirando-lhe a vida segundo a segundo.

                Mazzini, na casa da frente, pensou ter ouvido a voz de sua filha.

                -- Acho que está te chamando – disse ele a Berta.

                Prestaram atenção, inquietos, mas não ouviram mais nada. Ainda assim, um momento depois se despediram, e enquanto Berta ia guardar seu chapéu, Mazzini avançou pelo quintal:

                -- Bertita!

                Ninguém respondeu.

                -- Bertita! – chamou mais alto, com a voz já alterada.

                E o silêncio foi tão fúnebre para seu coração sempre apavorado que suas costas gelaram com um horrível pressentimento.

                -- Minha filha, minha filha! – correu desesperado até os fundos. Mas, ao passar diante da cozinha viu no chão um mar de sangue. Empurrou violentamente a porta entreaberta e soltou um grito de horror.

                Berta, que já havia se lançado correndo ao ouvir o angustiado chamado do pai, ouviu o grito e respondeu com outro. Mas, ao precipitar-se na cozinha, Mazzini, lívido como a morte, se interpôs, contendo-a:

                -- Não entre! Não entre!

                Berta chegou a ver o chão inundado de sangue. Só conseguiu levar os braços sobre a cabeça e afundar-se no peito de seu marido com um suspiro rouco.

 

(tradução de John O’Kuinghttons)

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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