• Marcelo Pierotti

Nine Inch Nails - Bad Witch



Já faz um bom tempo desde que Trent Reznor decidiu abandonar o mundo das grandes gravadoras e guiar seu Nine Inch Nails pela trilha da independência. Isso foi, para ser exato, em novembro de 2007, logo após o lançamento de Year Zero Remixed, álbum resultante do grandiloquente (em muito mais de um sentido e talvez não no mais óbvio) Year Zero. Ele se despediu do mainstream após um projeto conceitual construído sobre fragmentos de um universo distópico, forrado de críticas sociais e políticas, que envolvia um alternate reality game absurdamente intricado com shows secretos, arquivos de música em pendrives ocultos, uma rede de sites interconectados, números de telefones com mensagens automáticas, – enfim – uma daquelas obras megalomaníacas que botam um artista lá no topo quando dão certo. E acontece que deu. Nine Inch Nails se aposentou do mainstream nos píncaros, estourando, após uma carreira exemplar cheia de discos incensados (como os clássicos The Fragile e The Downward Spiral), tanto pela crítica quanto pelo público, além de shows polêmicos e lendários.


Disso até o álbum que acaba de sair, já se vão 11 anos. Desde o nascimento da banda, então, passaram-se três décadas. Muita gente achou que o Nine Inch Nails perderia a relevância junto da visibilidade que só se tem quando há um gigante da mídia cobrindo sua retaguarda. A possibilidade da banda (que, na verdade, era só Trent Reznor) se entregar à apatia com a idade, como fizeram tantas outras antes, também era uma ameaça real. Mas com o decorrer da carreira independente fomos descobrindo que o perigo não era tão grande assim. Houve um hiato – que teve um fim claríssimo; houve projetos cabeçudos que não alcançaram lá muita gente – mas isso é meio que o contrário de apatia; e Trent Reznor continuou trabalhando o tempo todo – em projetos paralelos como o How to Destroy Angels e toda a sua produção de trilhas sonoras para o cinema. A parceria com Atticus Ross deu frutos dos mais variados, criou raízes fortes, e descambou na nomeação de Atticus como o primeiro membro permanente do Nine Inch Nails além do próprio criador. O lançamento de Hesitation Marks, e sua recepção positiva, em 2013 foi a confirmação final de que não havia o que temer.



Tudo isso dito o mais ligeiramente possível, Bad Witch foi lançado no final de junho do ano passado. O álbum segue dois outros EPs: Not the Actual Events (2016) e Add Violence (2017). O plano era, a princípio, criar uma trilogia, toda amarrada conceitualmente. Logo, Bad Witch deveria ser considerado a última parte de uma série de EPs. Trent Reznor, porém, mudou de ideia. Descontente com a forma que a trilogia adquiria, com uma estrutura forçada, e enfrentando dificuldades criativas, ele decidiu mudar o tom e trabalhar em algo diferente e arriscado. Então, apesar da expectativa criada e da curta duração (apenas 30 minutos), Bad Witch foi alçado ao status de álbum de estúdio, o nono na história do Nine Inch Nails, e faz bonito.

Logo de cara, na faixa de abertura, dá para entender a que o disco vem. "Shit Mirror" é a cara da banda. É violenta e agressiva, é o que nos vem à mente quando pensamos em Nine Inch Nails. Mas não é uma obra anacrônica. Desde o título, bastante provocativo (e uma referência clara ao fenômeno Black Mirror), já é possível notar que a banda não parou no tempo: ela amadureceu. Não há, como foi dito lá atrás, apatia no universo criativo de Trent Reznor.


Daí para adiante, vemos uma retomada de antigos motes, todos entrelaçados com experimentação e surpresas. "Ahead of Ourselves" brinca com o próprio andamento da música, retomando a pegada industrial para embalar uma letra que, cheia de sarcasmo, brada:


Obsolete, insignificant Antiquated, irrelevant Celebration of ignorance Why try change when you know you can’t?


We got ahead of ourselves”, segue repetindo o sujeito que já figurou na lista de pessoas mais influentes da revista Time. Pelo visto ainda há espaço para auto superação.


Segue-se "Play the Goddamned Part", uma longa faixa instrumental composta de escalas sufocantes típicas de Reznor, vertiginosas, e a primeira aparição de um saxofone na discografia do Nine Inch Nails. Pode-se considerar essa uma das escolhas arriscadas do álbum, apesar de nada inédita no mundo da música. Bandas como X-Ray Spex, Malaria!, The Flesh Eaters e Cop Shoot Cop (esta, inclusive, filhote do Nine Inch Nails) já produziram muito com o instrumento. Mas, num universo menor, dentro do cosmos do próprio grupo, é surpreendente o bastante e, o mais importante, funciona.


"God Brake Down the Door", a faixa seguinte, apresenta uma letra repetitiva, acompanhada de um instrumental rápido, em contraste ao vocal arrastado, bem modulado, que chega a desencavar algumas reminiscências de David Bowie. Ela está lá para incitar certo estado de espírito e é efetiva. Não é preciso apelar às guitarras de outrora para agredir.


Bowie, aliás, está infiltrado em todo o disco. Ele, que já foi parceiro de Reznor em "I’m Afraid of Americans", e que, inclusive, já comparou o impacto daquele com o de Velvet Underground, vira e mexe volta dos mortos. Após a também instrumental "I’m not from This Word" (combustível de pesadelos, como já foi dito mais de uma vez), o camaleão ressurge em toda sua glória no vocal de "Over and Out". Nada mais justo para uma das maiores influências de Trent Reznor. Essa faixa de fechamento, aliás, chega a flertar de leve com aquilo que todo mundo acaba chamando de trip hop. Há um espaço para respirar após toda a opressão. Esperar por qualquer registro de alegria ou esperança seria demais (ainda estamos falando de Nine Inch Nails), mas há um quê de cool no andamento. A voz de Reznor soa mais melodiosa. Bowie flutua ao redor. E assim o disco chega ao fim.


Bad Witch certamente não irá alcançar o sucesso comercial de The Downward Spiral. Mas é um disco de qualidade inegável e se não figurou em listas de melhores do ano, isso certamente tem mais a ver com a atual indústria fonográfica e com a própria escolha de Trent Reznor em seguir trabalhando de forma independente. De qualquer modo, falamos aqui de uma obra criada após 30 anos de carreira, e ela demonstra que ainda existe espaço para experimentações. Nesse sentido, é um disco como, por exemplo, The Slip, que sempre acaba deixado de lado nos discursos de “que disco ouvir dessa banda” (até por sua esquisitice – só batida, talvez, por Ghosts I-IV), mas melhor. Uma audição que vale toda a pena, tipo de trabalho que causar alguma reação no ouvinte. Uma reação visceral, muito provavelmente.


Bad Witch no Metacritic


RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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