"No Quadrado de Joana", Maura Lopes Cançado

22.02.2019

 

Maura Lopes Cançado (27.01.1929 / 19.12.1993) foi uma escritora aclamada como revelação literária em seu tempo e, posteriormente, quase esquecida. Nascida em São Gonçalo do Abaeté, MG, escreveu apenas dois livros: Hospício é Deus (1965), um romance auto-biográfico, e O Sofredor do Ver (1968), de contos. Sua vida e obra foram marcados por suas repetidas internações em hospícios. Foi interditado pela Justiça após matar outra interna numa clínica psiquiátrica no ano de 1974.
 

O conto que segue, “No Quadrado de Joana, apresenta a doença psiquiátrica vista de dentro, pelo fluxo da consciência endurecida, rígida, de uma paciente psiquiátrica no pátio de uma clínica.

 

 

NO QUADRADO DE JOANA

 

Para Carlos Lemos

 

               

                Marcha completando o pátio, o fim da linha sendo justamente princípio da outra, sem descontinuidade, quebrando-se para o ângulo reto. Não cede um milímetro na posição do corpo, justo, ereto. Porque Joana julga-se absolutamente certa na nova ordem. Assim, anda de frente, ombro direito junto à parede. Teima em não flexionar as pernas, um passo, outro e mais, as solas dos pés quentes através do solado gasto. Agora o rosto sente a quentura do muro, voltado inteiramente, quase roçante até o fim da linha; onde junta ombro esquerdo e marcha de costas, na retidão da parede. Finalmente acha-se na metade da quarta vez, todo o pátio contido no âmbito do olhar parado. Anda certo, de costas deslizantes como lâminas, na proteção do seu tempo: o muro. Repete sentindo a certeza da quarta vez. Mais e mais – porque cumpre um dever.

                Quantas vezes Joana marcha rigidamente de ângulo a ângulo?

                Ninguém sabe. Nem Joana.

                Vê-se parada imaginando o quadrado das horas. Isto vem justamente aliviá-la da sensação incômoda de que um corpo redondo ilumina o pátio. Retesa-se, ajustando-se no espaço certo – fora de perigo. Perfeitamente integrada. Em forma. Uma pausa completa.

                Como na pedra.

                Joana imóvel, quadriculada no pano do vestido, marcando um tempo ainda imarcado porque novo. Um novo tempo: nascido duro, sofredor.

                O quadrado das horas.

                No meio do pátio, imóvel obedecendo a ordem. Não sabe por que, a palavra meio salta-lhe morna, insinuante como ameaça remota. Um orifício no muro: meio de fuga. Para onde e por quê? Deve ter ouvido isto. Ela não se desviaria tanto da lógica, mesmo pensando num momento de descuido, e a lógica está no quadro. Precisa pensar certo. Joana não pode deixar-se trair. Entanto não conhece régua que lhe permita certificar-se da justeza, da retidão das palavras. Há, no verbo precisar, uma denúncia de falta que vagamente percebe, isto é a ameaça. Não poderia admitir, contrariando sua posição na vida, como o verbo poder, naquele tempo, fere sua época.

                Época de Joana.

                Não lhe foi dada ainda uma linguagem adequada e não consegue pensar sem palavras. Sente-se incompleta, sem os instrumentos necessários. Não pensa, em posição de sentido, é a ordem por enquanto. E Joana enquadra-se no momento.

                Plana-lisa-justa.

                Um marco novo no tempo. Cumprindo um dever, fortalecida e distanciada das curvas, o pensamento quadrado no ar, quase sólido, e o olhar, reto como lâmina, sofrendo o impacto, voltando e enquadrando-se nos olhos impossíveis.

                Joana está certa no plano vertical.

                Só ela compreende a grande significação disto. Imóvel, poupando o corpo, principalmente o rosto, que sente duro na parte inferior sustentando o quadro. Não deve mutilar-se na lisura da curva. Não deve perder a forma.

                Mas a impertinência do seu nome é uma realidade, e Joana escuta-o, sentindo-se gelar nos ângulos, pontos vulneráveis. Procura a proteção do novo tempo e sem pensar, anda de costas dois passos, sofrendo as modulações da voz que, como num espelho, mostram-se refletidas no corpo de Joana. Como um espelho o corpo reflete sem aberturas.

                Na perfeição do quadro sente-se ainda sensível ao formigamento que a rodeia. A futilidade das coisas irrita até o muro de pedra. Joana acredita no que é e na certeza do seu tempo. Está só, no quadro ainda infecto de moscas e serpentes ondeadas. Dançam ao seu redor e Joana não tem palavras. No tempo quadrado vive-se sem elas na perfeição das coisas. Mas a dança dos sons é característica fútil de um subtempo e ela não deve perder-se. Joana teme a roda que ameaçou mostrar-se nos rostos redondos, fitando-a. Concentra-se nas linhas certas do seu próprio rosto e vê-se refletida no muro cinzento:

                Uma nova figura. Um destino.

                Nasceu inaugurando um tempo. É o marco da nova época. Entretanto um milímetro de desatenção pode levar-lhe os olhos a rotações incalculáveis, catastróficas. Pode até cair numa espiral e, em ascensão, transformar-se num ponto irritante como a cabeça de um alfinete. Luta para manter-se enquadrada na hora, o pensamento liso à espera da forma de expressão: uma nova linguagem.

                Fugindo às palavras pensa em números certos: 44, 77. Desenha-os mentalmente no muro para sua sobrevivência, até estremecer no número 60. Ah!, o número sessenta se aproxima qual cobrinha traiçoeira: o círculo, as curvas. Uma áspide. Também os números têm nome. Sessenta soa perigoso, ondulante.

                Figuras sinuosas passeiam no âmbito de sua visão quadrada. Não procura vê-las. Impõe-se impertinentes formando uma quase culpa para Joana que nasceu sem lembranças. Estas chegariam incompletas e isso é outro mundo.

                A pedra não repele os flocos fúteis de neve. Apenas pedra é pedra.

                Mas pessoas são como moscas, tentando atrair atenção, fazendo dançar e correndo o risco de quebrar-se nas curvas, caindo esfaceladas, sem significação. Joana ignora propositadamente a curva de uma folha banal perto de seus pés. Esqueceu as flores, espera sons rápidos, geométricos, para se fazer entender. Vagamente tem noção das figuras incomodativas, ondeadas de banalidades que tentam atrair-lhe atenção. Não cede um milímetro para não desmoronar-se. Deve sobreviver.

                Alarmada sente o suor correr-lhe pela testa em linha reta. Uma intermitência, o ponto trazendo-lhe o caos. Não. Não admite bagas de suor. Haverá, sim, uma linha reta até o solo, subindo imediatamente evaporada. Uma pocinha seria seu afogamento. Foge do círculo. Mas a linha é formada por pontos. Não no seu tempo: raciocina rápido, quadrando o pensamento. À Joana não é também permitido sentir-se alarmada. O alarma começa de um ponto, significativo ou consciencioso, atingindo num crescendo o grau de alerta ou alarma? Alarma pode surgir como numa tela de cinema, de repente?

                Joana não sabe. Há!, como faltam instrumentos.
                Muitas danças numa banalidade sônica. Entretanto escutou, quase se contorcendo. Não pode responder que não possui ainda meios de expressão. Que fazer para explicar que se acha enquadrada num novo e perfeito tempo? Não pode sequer dar meia-volta. Deve poupar-se conservando a forma. Não há como fugir. Ainda assim, para sua sobrevivência, será necessário explicar o que só a ela é permitido compreender. Puseram-na quadrada, certa, objetiva, no tempo novo, forte, mas ameaçado até por flores. Sim, Joana será vencida na curva de uma pétala. A palavra beleza, levada a sério, pode desconjuntá-la. E nuances, mesmo de cores, ou principalmente de cores, seriam sua perdição.

                Tenta ainda ignorar os sons inúteis. Mais um pouco e fica livre de pensamentos, na hora quarta do novo tempo. É aí que Joana inveja a estátua, imóvel há muitos anos. Não sabe que estátua e perdeu a contagem dos anos. Também com a nova ordem não há concessão. A realidade é o quadrado do pátio ainda cheio de moscas e serpentes ondeadas. A realidade é o perigo de ser levada para a cama.

                A realidade é a pedra.

                Joana pode pendurar a hora na parede e acrescentar a realidade a isto. Foi feita certa, no tempo certo do mundo novo. Qualquer desvio lhe é proibido. Haverá a nova língua que a dança dos sons talvez esteja impedindo de se formar.

                Joana é grande e teme um laço de fita cor-de-rosa. Não deve ferir-se nas curvas ou deixar-se mutilar. Está sozinha no novo tempo. Só ela o conhece e às suas regras. Não deseja nem pode sair dele. Também, nunca poderá deitar-se, o que significa cair escombrada num monte. Tenta observar regras absolutamente certas mas não compreendidas. Joana está só. Qualquer inclinação será o encontro da curva e Joana não passará deste plano para o horizontal sem vergar-se, perdendo-se. Decididamente não lhe é permitido deitar-se. Antevê-se amassada e, junto a outros ingredientes, aproveitada numa construção. Será seu destino se for para a cama. Sentir os membros distantes, dentes opacos, pé no terceiro andar, e a boca no ângulo direito da porta principal. Os olhos sim, estes verão as noites, enquadrados no azulejo frente à janela do banheiro. Na melhor das hipóteses Joana ficará no arranha-céu, sem a marcha, que ainda lhe é permitida. E nem haverá esperança da nova linguagem, tendo a boca fixa. Joana não pode, não deve deixar-se perder.

                -- Joana.

                Movem-se ao seu redor. Sente que querem força-la. Joana, sem virar, marcha de costas dois passos, para sentir-se hirta, ainda antes da queda.

 

                Não sabe onde estão os olhos teimosos, olhando. Sabe-se desmoronada, sem salvação, ferida de morte.
                Mais que isto, ruída.

                Joana ruiu.

                Os olhos enfrentam rostos impacientes. Paira no ar uma palavra nova:

Catatônica

                Joana gostaria de medi-la:

CA-TA-TÔ-NI-CA

                Pensa desesperada: será o início da nova língua, agora que estou desmoronada?

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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