• Marcelo Pierotti

Mão Morta - Na Vanguarda da Agressão



Em outubro de 1984, em Berlim, o jovem Joaquim Pinto vai a um show da banda americana Swans. Após a apresentação, Joaquim consegue trocar algumas palavras com Harry Crosby, baixista da banda, que comenta “você tem cara de baixista”. De volta a Portugal, Joaquim compra um baixo elétrico e forma, em novembro, o Mão Morta. Essa primeiríssima formação da banda ainda conta com Miguel Pedro na guitarra e o lendário Adolfo Luxúria Canibal no vocal. Desses, apenas Miguel e Adolfo se mantiveram na formação durante todos os mais de 34 anos de atuação do grupo.


Essa anedota sobre a gênese do Mão Morta já dá algumas pistas sobre o estilo da banda. Surgida no começo da década de 1980, seguia o post-punk vigente, com um som pesado, bastante experimental e muitas vezes flertando com o industrial, e as performances de Adolfo Luxúria Canibal, sempre carismático, que lembravam bastante o próprio Michael Gira, do Swans, no palco, confrontador e polêmico . Outra influência ficou patente nas palavras de alguns críticos que notavam a clara inspiração do Nick Cave de início de carreira. De qualquer modo, surgido na cidade de Braga, norte de Portugal, o Mão Morta começou a destilar suas críticas à moral e política portuguesas – sempre visando o choque e a confrontação – num dos maiores polos da ultra-direita conservadora lusitana, conhecida, aliás, como Cidade dos Arcebispos.



O primeiro show aconteceu já em 12 de janeiro de 1985. Dois meses depois, Zé dos Eclipses se juntava à banda na guitarra e Miguel Pedro passava para a bateria. Em novembro o Mão Morta ficaria em quarto lugar no concurso de Nova Música Rock, do Porto, e ao final do ano já eram considerados por muitos a melhor banda de Portugal.


O primeiro álbum, entretanto, demora a sair. Já em 1987, cada vez mais famoso e alcançando um certo posto mítico dentre os fãs, o Mão Morta é eleito pela Rádio Universidade Tejo como a melhor banda nacional sem registro em vinil. Como prêmio, recebem tempo de estúdio para a gravação de duas músicas. Essas, com mais outras quatro gravadas posteriormente, formariam, finalmente, o primeiro álbum da banda, lançado apenas em cassete em 1988. Nesse mesmo ano, a banda abre um show para Nick Cave, é contemplada em várias nomeações pelos leitores da revista Blitz antes mesmo de ter o primeiro álbum lançado, abre apresentação para o Wire, e se apresenta em diversas outras ocasiões.



Em 1989, ano em que gravaram bastante, mas se apresentaram em poucos shows, ocorre o infame caso das facadas desferidas por Adolfo Luxúria Canibal contra a própria perna, num concerto no Rock Rendez-Vous. Sobre o acontecido, Adolfo disse meses mais tarde:


“Quando me cortei num concerto dos Mão Morta, fui longe demais, era uma faca nova mais afiada do que eu pensava. O ambiente na sala estava pesadíssimo, havia necessidade de aplacar um bocado as coisas e eu pensei que o sangue poderia acalmá-los... o sangue assusta. Afinal o sangue acabou por ser demais, e aí é que eu vi que tinha feito asneira.”


O segundo álbum da banda, Corações Felpudos, foi lançado em 1990, pouco após a saída de Joaquim Pinto, dando lugar a Pedro José Moura. As influências originais pareciam estar mais distantes e o álbum soava mais melódico. Dentre os sucessos do disco pode ser mencionada a "Desmaia, Irmã, Desmaia". No mesmo ano, o Mão Morta abre para os Young Gods.



O terceiro álbum chegou logo: menos de um ano após o anterior, sai O.D., Rainha do Rock & Crawl. Neste último registro da banda com Zé dos Eclipses, o som da banda voltava a soar agressivo, e as guitarras distorcidas retomavam seu lugar de destaque. É desse disco o clássico "Quero Morder-te as Mãos".



Foi com o Mutantes S.21 que o Mão Morta atingiu o sucesso total. Lançado em 1992, o álbum era uma espécie de roteiro de viagem por nove cidades europeias, e a faixa "Budapeste" virou um sucesso absoluto. O álbum foi reeditado um ano depois, o hit Amsterdam ganhou um clipe e a banda se apresentou em vários concertos, dentre os quais aquele no Teatro Circo, em Braga, onde a sala em que ocorreu o show acabou totalmente destruída. Sobre isso, disse Adolfo:


“Os Mãos Morta não têm culpa nenhuma da destruição do Teatro Circo, ninguém tem culpa, são coisas que acontecem e o Presidente da Câmara mostrou-se perfeitamente compreensivo... aliás disse que preferia ter o Teatro Circo destruído, mas depois de uma enchente do que ter o Teatro Circo eternamente vazio.”



Daí para adiante, o Mão Morta gravou em coletâneas e homenagens a outros artistas, assinou um contrato com a BMG que resultou no disco Vênus em Chamas, lançou a compilação Mão Morta Revisitada (de músicas antigas regravadas) e abriu shows para outras grandes bandas internacionais como o The Fall.

Em 1997, é lançada a peça musical Müller no Hotel Hessischer Hof, que resulta no álbum de mesmo nome. O projeto, onde a banda musicou poemas do poeta alemão Heiner Müller, traz à tona outra faceta do grupo – a das apresentações conceituais carregadas de teatralidade, amparadas pela gigantesca presença de palco de Adolfo Luxúria Canibal e cenografia muitíssimo trabalhada.



Muitos outros discos e anos se seguem e, contrariando todas as expectativas, o Mão Morta continua sendo um nome fundamental dentro do rock português, empurrando na marra o amargo de suas letras e o experimentalismo bruto de suas composições ouvidos adentro do público. Mirando com sucesso a liberdade de criação, a banda conseguiu se comprometer o mínimo possível com o mercado, possibilitando a criação de álbuns variados e temáticos, flertando com diversos estilos, como deathrock, noise e avant-garde. Assim foram lançados, por exemplo, Já Há Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável (baseado nas teorias da Internacional Situacionista), em 1998, e Nus (baseado no Uivo de Ginsberg), em 2004.



Em 2007 é lançado o espetáculo Maldoror, baseado na obra do Conde de Lautréamont, pseudônimo do poeta Isidore Ducasse. O sucesso entre crítica e público é avassalador, rendendo um vídeo e um álbum duplo, além de uma longa turnê.



A banda continua em atividade e se reinventando, tendo lançado o polêmico Pelo Meu Relógio São Horas de Matar em 2014, e se apresentando em 2016 num espetáculo em comemoração ao centésimo aniversário do Teatro Circo (o que leva a crer que realmente não ficaram mágoas pela destruição de décadas atrás). Também se apresentam em colaboração com o Remix Ensemble, dirigidos pelo maestro Pedro Neves, com uma releitura contemporânea de 14 músicas de seu repertório.


RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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