Mão Morta - Na Vanguarda da Agressão

20.02.2019

 

Em outubro de 1984, em Berlim, o jovem Joaquim Pinto vai a um show da banda americana Swans. Após a apresentação, Joaquim consegue trocar algumas palavras com Harry Crosby, baixista da banda, que comenta “você tem cara de baixista”. De volta a Portugal, Joaquim compra um baixo elétrico e forma, em novembro, o Mão Morta. Essa primeiríssima formação da banda ainda conta com Miguel Pedro na guitarra e o lendário Adolfo Luxúria Canibal no vocal. Desses, apenas Miguel e Adolfo se mantiveram na formação durante todos os mais de 34 anos de atuação do grupo.

 

Essa anedota sobre a gênese do Mão Morta já dá algumas pistas sobre o estilo da banda. Surgida no começo da década de 1980, seguia o post-punk vigente, com um som pesado, bastante experimental e muitas vezes flertando com o industrial, e as performances de Adolfo Luxúria Canibal, sempre carismático, que lembravam bastante o próprio Michael Gira, do Swans, no palco, confrontador e polêmico . Outra influência ficou patente nas palavras de alguns críticos que notavam a clara inspiração do Nick Cave de início de carreira. De qualquer modo, surgido na cidade de Braga, norte de Portugal, o Mão Morta começou a destilar suas críticas à moral e política portuguesas – sempre visando o choque e a confrontação – num dos maiores polos da ultra-direita conservadora lusitana, conhecida, aliás, como Cidade dos Arcebispos.

 

 

O primeiro show aconteceu já em 12 de janeiro de 1985. Dois meses depois, Zé dos Eclipses se juntava à banda na guitarra e Miguel Pedro passava para a bateria. Em novembro o Mão Morta ficaria em quarto lugar no concurso de Nova Música Rock, do Porto, e ao final do ano já eram considerados por muitos a melhor banda de Portugal.

 

O primeiro álbum, entretanto, demora a sair. Já em 1987, cada vez mais famoso e alcançando um certo posto mítico dentre os fãs, o Mão Morta é eleito pela Rádio Universidade Tejo como a melhor banda nacional sem registro em vinil. Como prêmio, recebem tempo de estúdio para a gravação de duas músicas. Essas, com mais outras quatro gravadas posteriormente, formariam, finalmente, o primeiro álbum da banda, lançado apenas em cassete em 1988. Nesse mesmo ano, a banda abre um show para Nick Cave, é contemplada em várias nomeações pelos leitores da revista Blitz antes mesmo de ter o primeiro álbum lançado, abre apresentação para o Wire, e se apresenta em diversas outras ocasiões.

 

 

Em 1989, ano em que gravaram bastante, mas se apresentaram em poucos shows, ocorre o infame caso das facadas desferidas por Adolfo Luxúria Canibal contra a própria perna, num concerto no Rock Rendez-Vous. Sobre o acontecido, Adolfo disse meses mais tarde:

 

“Quando me cortei num concerto dos Mão Morta, fui longe demais, era uma faca nova mais afiada do que eu pensava. O ambiente na sala estava pesadíssimo, havia necessidade de aplacar um bocado as coisas e eu pensei que o sangue poderia acalmá-los... o sangue assusta. Afinal o sangue acabou por ser demais, e aí é que eu vi que tinha feito asneira.”

 

O segundo álbum da banda, Corações Felpudos, foi lançado em 1990, pouco após a saída de Joaquim Pinto, dando lugar a Pedro José Moura. As influências originais pareciam estar mais distantes e o álbum soava mais melódico. Dentre os sucessos do disco pode ser mencionada a "Desmaia, Irmã, Desmaia". No mesmo ano, o Mão Morta abre para os Young Gods.

 

 

O terceiro álbum chegou logo: menos de um ano após o anterior, sai O.D., Rainha do Rock & Crawl. Neste último registro da banda com Zé dos Eclipses, o som da banda voltava a soar agressivo, e as guitarras distorcidas retomavam seu lugar de destaque. É desse disco o clássico "Quero Morder-te as Mãos".

 

 

Foi com o Mutantes S.21 que o Mão Morta atingiu o sucesso total. Lançado em 1992, o álbum era uma espécie de roteiro de viagem por nove cidades europeias, e a faixa "Budapeste" virou um sucesso absoluto. O álbum foi reeditado um ano depois, o hit Amsterdam ganhou um clipe e a banda se apresentou em vários concertos, dentre os quais aquele no Teatro Circo, em Braga, onde a sala em que ocorreu o show acabou totalmente destruída. Sobre isso, disse Adolfo:

 

“Os Mãos Morta não têm culpa nenhuma da destruição do Teatro Circo, ninguém tem culpa, são coisas que acontecem e o Presidente da Câmara mostrou-se perfeitamente compreensivo... aliás disse que preferia ter o Teatro Circo destruído, mas depois de uma enchente do que ter o Teatro Circo eternamente vazio.”  

 

 

Daí para adiante, o Mão Morta gravou em coletâneas e homenagens a outros artistas, assinou um contrato com a BMG que resultou no disco Vênus em Chamas, lançou a compilação Mão Morta Revisitada (de músicas antigas regravadas) e abriu shows para outras grandes bandas internacionais como o The Fall.
 

Em 1997, é lançada a peça musical Müller no Hotel Hessischer Hof, que resulta no álbum de mesmo nome. O projeto, onde a banda musicou poemas do poeta alemão Heiner Müller, traz à tona outra faceta do grupo – a das apresentações conceituais carregadas de teatralidade, amparadas pela gigantesca presença de palco de Adolfo Luxúria Canibal e cenografia muitíssimo trabalhada.

 

 

Muitos outros discos e anos se seguem e, contrariando todas as expectativas, o Mão Morta continua sendo um nome fundamental dentro do rock português, empurrando na marra o amargo de suas letras e o experimentalismo bruto de suas composições ouvidos adentro do público. Mirando com sucesso a liberdade de criação, a banda conseguiu se comprometer o mínimo possível com o mercado, possibilitando a criação de álbuns variados e temáticos, flertando com diversos estilos, como deathrock, noise e avant-garde. Assim foram lançados, por exemplo, Já Há Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável (baseado nas teorias da Internacional Situacionista), em 1998, e Nus (baseado no Uivo de Ginsberg), em 2004.

 

 

Em 2007 é lançado o espetáculo Maldoror, baseado na obra do Conde de Lautréamont, pseudônimo do poeta Isidore Ducasse. O sucesso entre crítica e público é avassalador, rendendo um vídeo e um álbum duplo, além de uma longa turnê.

 

 


A banda continua em atividade e se reinventando, tendo lançado o polêmico Pelo Meu Relógio São Horas de Matar em 2014, e se apresentando em 2016 num espetáculo em comemoração ao centésimo aniversário do Teatro Circo (o que leva a crer que realmente não ficaram mágoas pela destruição de décadas atrás). Também se apresentam em colaboração com o Remix Ensemble, dirigidos pelo maestro Pedro Neves, com uma releitura contemporânea de 14 músicas de seu repertório.

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

     POSTS recentes:     
Please reload

© 2016 por O Caos Cultural.