Navegação Profunda - Joseph Conrad

15.02.2019

 

De menino adoentado e aluno medíocre a nome incontornável na literatura ocidental, passando pelas marinhas francesa e britânica, pela Europa, África, América e Ásia, a biografia de Joseph Conrad já seria digna de nota mesmo se não desembocasse em obras do calibre de Coração das Trevas e Lorde Jim.

 

Joseph, batizado Józef Teodor Konrad Korzeniowski, nasceu no dia 3 de dezembro de 1857, em Berdychiv, na Polônia dominada pelo Império Russo. Sua mãe se chamava Ewa Brobowska e seu pai, Apollo Korzeniowski, foi um escritor, tradutor de literatura francesa e ativista político. Os Korzeniowski envolveram-se profundamente nos esforços de independência da Polônia desde os tempos do avô de Józef, Teodor, que serviu sob as ordens do príncipe Józef Poniatowski durante a campanha russa de Napoleão. A tradição se manteve com seu pai que, além de lutar pela independência, também se engajava em temas como a reforma agrária e o fim da servidão. Devido ao ativismo de Apollo, a família se mudou constantemente, até se estabelecer em Varsóvia, onde Korzenioski se juntou à resistência contra o Império Russo. Suas atividades revolucionárias o levaram à prisão em 1861 e, no ano seguinte, toda a família foi exilada em Vologda, noroeste a Rússia. Lá ficaram até 1863, quando a sentença de Apollo foi comutada, e então foram transferidos para Chernihiv, na Ucrânia.

 

A primeira grande perda do jovem Józef no seio familiar ocorreu em 18 de abril de 1865, dia em que sua mãe, Ewa, morreu de tuberculose. A educação do garoto ficou a cargo de Apollo, e foi nessa época que Conrad conheceu algumas de suas maiores influências: Shakespeare, a poesia romântica polonesa e Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, primeiro contato dele com o mundo náutico.

 

Pai e filho retornaram para a Polônia em 1867. Viveram em várias pequenas cidades e vilarejos até chegarem à Cracóvia, em fevereiro de 1869. Apollo morreu apenas três meses depois, no dia 21 de maio, também vitimado pela Tuberculose. Foi a segunda grande perda e, com onze anos de idade, Joseph Conrad se tornava órfão.

 

Tadeusz Brobowski, o tio materno, foi quem se tornou tutor do garoto. Mais constante que os pais de Conrad, Tadeusz tratou de oferecer educação formal ao sobrinho. Mesmo assim – com aulas e tutoria – Joseph apresentava resultados bastante insatisfatórios como estudante, mostrando algum jeito apenas com Geografia. Além disso, possuía uma saúde frágil e debilitada, coisa que os médicos logo concluíram ter origem nervosa, tratável com ar fresco e exercícios físicos.

 

Aos 13 anos, Joseph já dizia querer se tornar um marinheiro e, entediado com os estudos, que nunca prenderam sua atenção, lançou-se ao mar ainda adolescente, com 16 anos de idade. Foi em outubro de 1874 que Brobowski enviou o sobrinho para Marselha, na França, onde Joseph deu início à carreira na marinha mercante. O trabalho com navios franceses continuou por quatro anos. Ao fim desse período, após uma tentativa de suicídio, Conrad se juntou à marinha inglesa, navegando sob a Insígnia Vermelha. Serviu em diversos navios, e ocupou posições como aprendiz, comissário, marinheiro de 1ª classe e imediato, antes de se tornar capitão. Durante sua longa carreira, Conrad passou mais de 8 anos em alto mar. Viajou para a costa da Índia, para o Congo (onde serviu como capitão de um vapor no Rio Congo, experiência que serviu de inspiração para Coração das Trevas), à Tailândia, ao Caribe e à Austrália.

 

 

Conrad tinha 36 anos quando deixou a marinha, em 1894. Os motivos citados pelo autor foram a saúde fraca e a indisponibilidade de navios, mas sua vontade de fazer literatura teve papel importante nessa decisão. De volta à Inglaterra, casou-se com Jessie George em 1895. No mesmo ano, publicou seu primeiro romance, Almayer’s Folly, e adotou a versão anglicizada de seu nome, com a qual ficaria mundialmente famoso. A história não foi muito bem recebida e é considerada hoje o trabalho mais fraco do autor. De qualquer modo, junto de seu segundo livro, An Outcast of the Islands, de 1896, a obra fundou sua fama de autor de terras distantes e exóticas. Conrad nunca aceitou esse rótulo, tratando-o como uma leitura bastante distorcida de seu trabalho.

 

 

No ano de 1899, Conrad lança Coração das Trevas. Possivelmente sua obra mais conhecida, conta a história de Charles Marlow, agente contratado para resgatar o comprador de marfim Kurtz nas florestas do Congo. Através do horror testemunhado por Marlow em sua missão, Conrad tece uma amarga e dura crítica ao colonialismo inglês, mote presente em grande parte de sua obra.  A novela foi a inspiração para o filme Apocalypse Now!, de Francis Ford Coppola.

 

Grande parte de suas histórias foram publicadas em revistas e jornais da época, desde publicações de vanguarda até jornais femininos e revistas de contos mais populares. Apesar disso, o sucesso financeiro custou a chegar, e Conrad viveu por muito tempo numa situação bastante delicada, equilibrando-se com os ganhos e as dívidas e pedindo frequentemente adiantamentos para revistas. O reconhecimento comercial, na verdade, veio apenas com a publicação de Chance, em 1913 – ironicamente um marco na deterioração de sua narrativa. À época, Conrad já era um autor bastante respeitado pela crítica.

 

 

Joseph Conrad, que aprendeu o inglês com apenas 21 anos e só publicou seu primeiro livro com 38, é considerado hoje, junto de nomes como James Joyce, um dos maiores autores de ficção do Século XX. Um modernista precoce, sua técnica narrativa, muito calcada no realismo francês, junto da sensibilidade que sua origem estrangeira injetou na literatura de língua inglesa, revelou-se um grande estudioso da alma humana. Suas narrativas, quase sempre protagonizadas por tipos anti-heróicos, cheias de críticas à visão colonialista inglesa, são de uma profundidade psicológica rara e influenciaram incontáveis autores em diversas mídias. Dentre suas obras mais importantes podem ser citadas Coração das Trevas; A Linha de Sombra, texto auto-biográfico relatando a primeira experiência de um jovem como capitão de navio, numa viagem aniquiladora pela costa da Tailândia; Nostromo, sobre as peripécias de uma contra-revolução ao golpe aplicado na república imaginária de Costaguana, na América do Sul; e Lord Jim, que conta a história de um jovem marinheiro desonrado buscando redenção no entreposto remoto de Patusan.

 

 

Joseph Conrad morreu em 3 de agosto de 1924, em sua casa em Bishopsbourne, Inglaterra, provavelmente devido a um ataque cardíaco.

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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