O Peso do Corpo - Lucian Freud

13.02.2019

 

O corpo nu sobre a tela saturada de tinta. As pincelada grossas, rústicas, lançam lupa sobre o que seriam pequenas marcas, rugas e assimetrias do modelo, e deixam à vista o que muitos chamam de feio ou grotesco, mas inevitavelmente humano. O corpo abandonado dorme sobre uma cama, um sofá ou posa com o olhar fixo no observador. Ao redor, o eterno estúdio fechado. Ou então, ao invés de um corpo, encaramos apenas o rosto do retratado, também pesado de pinceladas, tinta grossa e feições marcadas. Ou nem isso, talvez só enxerguemos a cabeça degolada de um galo.

 

Lucian Freud nasceu em Berlim, em 8 de dezembro de 1922. Era filho de Lucie e Ernst Ludwig Freud, e neto de Sigmund Freud. Sua família se mudou para o distrito de St. John’s Wood, em Londres, no ano de 1933. Os Freud, judeus, decidiram recomeçar a vida na Grã-Bretanha assim que Hitler subiu ao poder. Lucian naturalizou-se britânico em 1939.

 

 

Freud estudou na Central School of Art e na East Anglian School of Painting and Drawing, em Dedham. Lá, estudou de 1939 até 1942. Apesar de ser um aluno promissor, faltava bastante às aulas, sob o pretexto de se sentir solitário. Era considerado temperamental, além de possuir certas dificuldades com a língua inglesa.  Em 1941, Freud entrou para a marinha mercante britânica, onde serviu pelo breve período de um ano. Ainda frequentou o Goldsmith College, da London University, de 1942 até 1943.

 

 

Com 17 anos, em 1939, Lucian pintou um retrato de Cyril Connolly, editor da revista literária Horizon, que já notava o talento do garoto e antevia seu sucesso como artista. Em 1943, ilustrou o livro The Glass Tower, do poeta Nicholas Moore. No ano seguinte, com 21 anos de idade, teve sua primeira exposição individual, na Galeria Lefèvre. Viajou para Paris e Grécia durante o ano de 1946. Retornou para a Inglaterra e viu sua carreira dar um salto. Passou a lecionar na Slade School of Fine Arts, em Londres. Começou a década de 1950 recebendo o Prêmio do Conselho do Festival da Grã-Bretanha. Na época, visitava bastante Dublin, onde usava o estúdio de Patrick Swift. Casou-se com Kitty Garman em 1952.

 

Fez parte da Escola de Londres, mais um grupo de artistas figurativos em tempos de abstracionismo que uma escola de arte. No grupo também estava Francis Bacon, reconhecido pintor e grande amigo de Lucian.

 

 

No início de sua carreira, Lucian Freud produzia obras pequenas, com tintas bem diluídas e traços finos e suaves. Eram trabalhos influenciados pelo Expressionismo, e que flertavam com o Surrealismo (estilo do qual Lucian futuramente tentaria se desvencilhar a todo custo). A partir da metade dos anos 1950, seu trabalho sofreu uma metamorfose radical, com o uso dos pincéis mais rústicos e do traço pesado, grosso, que seriam suas marcas. A tela Woman Smiling pode ser considerada um marco dessa transformação que produziria trabalhos polêmicos, muitas vezes considerados chocantes ou afetados. O próprio Francis Bacon foi grande influência nessa mudança. Lucian nutria grande admiração por sua obra e ambos chegaram a pintar retratos um do outro mais de uma vez.

 

 

Figura reservada, Freud trabalhava com seus modelos sempre no estúdio – primeiro em Paddington, depois no Holland Park. Diferente de Bacon, não gostava de pintar a partir de fotos, preferindo ter o modelo diante de si, muitas vezes por várias horas, exigindo absoluta imobilidade. Sua busca foi a de retratar a realidade nua e crua, capturar o outro lado do humano. Por isso é frequente o corpo envelhecido ou obeso nas telas de Freud, assim como os olhares penetrantes, as expressões vincadas e marcadas, os defeitos e cicatrizes. Freud intensificava essas marcas procurando capturar o núcleo da humanidade bruta. Talvez por isso ele dizia preferir trabalhar com modelos amadores, que posavam para o artista porque queriam, não apenas esperando receber algum dinheiro pelo esforço. Lucian Freud, então, apesar de retratar algumas figuras célebres, como Kate Moss e a própria rainha da Inglaterra, preferia trabalhar com amigos e familiares, tendo retratado as esposas (o conhecido Girl With a Dog teve como modelo Kitty), sua mãe e filhas, por exemplo. Seu impasto espesso suscita questões como o envelhecimento, a inevitável carreira do tempo que atropela o humano, a experiência e a vivência individuais gravadas em cicatrizes e na própria configuração do corpo.

 

 

 Seus quadros demoravam até um ano para ficar prontos. Durante esse tempo, Lucian criava uma intimidade com seu modelo, que se tornava praticamente o centro de suas ações, para depois ser deixado de lado em benefício da próxima obra.

 

 

Dentre seus quadros mais famosos estão Benefits Supervisor Sleeping, uma obra de grandes proporções, retratando o corpo obeso de “Big Sue” Tilley dormindo em um sofá; Chicken on a Bamboo Table, retratando uma cabeça decepada de galo; Reflection, um auto-retrato; Nude With a Leg Up; etc.

 

 

 

Lucian Freud produziu até o dia de sua morte, em 20 de julho de 2011, deixando inacabado o trabalho Portrait of the Hound – retrato do fotógrafo e pintor David Dawson. Diz-se que teve mais de 40 filhos, apesar desse número ser claramente um exagero. De qualquer modo, foram identificadas quatorze crianças, duas das quais de seu primeiro casamento.

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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