Entre malandros e desprovidos: João Antônio

08.02.2019

 
Três malandros correm a madrugada de São Paulo, bebendo, jogando sinuca e tentando arranjar uns trocados. Um soldado pobre e faminto se vira como pode no quartel. O moleque sem casa, engraxate, faz um corre para o adulto criminoso. Um sujeito reformado tem sua recaída com bar, sinuca e cachaça. Leões-de-chácara contam histórias de treta e porrada. O trabalhador lascado rumina sobre a vida enquanto se lasca ainda mais na véspera do natal. A vida de Joãzinho da Babilônia. A vida de Paulinho Perna Torta.

 

Esse é o mundo retratado nos contos de João Antônio: um mundo costurado pelas experiências, anseios e temores de um pessoal que roda a madrugada, bebe em lugares mau-frequentados, consegue um troquinho com muito esforço e algum golpe de sorte, perde tudo o que tem num sopro de azar e precisa se virar sempre à margem. Primeiro em São Paulo, e depois no Rio de Janeiro, João Antônio trabalhou a vida toda numa espécie de cartografia dos marginalizados, percorrendo a Lapa, a Barra Funda e os redutos de má fama do Rio, e descreveu a vida de leões-de-chácara, jogadores, traficantes, malandros e enrolados de toda estirpe.

 

 

Nascido em São Paulo, no dia 27 de janeiro de 1937, lançou seu primeiro livro, Malagueta, Perus e Bacanaço, quando contava 26 anos, em 1963. Vinha de uma família de pequenos comerciantes, gente sem propriedades, e colecionou trabalhos mal remunerados antes de emplacar a obra com que não apenas ganhou o Prêmio Fábio Prado e o Prêmio Prefeitura Municipal de São Paulo, mas também  o fez acumular dois Jabutis – de melhor livro de contos e revelação de autor, feito inédito para um autor iniciante. Mas o livro só foi terminado com descomunal esforço: em 1960 ocorreu um incêndio na casa de João, e os originais foram destruídos junto com todos os pertences da família. João Antônio teve de reescrevê-los todos, puxados pela memória, numa cabine da Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Sobre o incêndio, João disse:

 

“Naquela casa, naquele meu quarto, eu trazia guardadas as coisas que me acompanhavam desde os cinco anos de idade. Eu não escrevia em outro lugar que não fosse o meu quarto porque fora dele eu não sabia escrever. A vida foi me dando porradas, me dando, até que aprendi a escrever em qualquer canto. Sem precisar de casa ou de quarto. Qualquer boteco é lugar para escrever quando se carrega a gana de transmitir. Gana é um fato sério que dá convicção.”

 

 

Foi após esse livro que João passou a exercer a outra atividade que lhe rendeu grande reconhecimento: o jornalismo. Começou trabalhando no Jornal do Brasil, foi um dos fundadores da revista Realidade, onde publicou o primeiro conto-reportagem do país. Passou ainda pela revista Manchete e pelo Pasquim. Foi um dos criadores do Novo Jornalismo no Brasil. Sobre o trabalho jornalístico dentro do contexto da ditadura, falou numa entrevista de 1975 para a revista Crítica:

“Bom, a censura tem servido de muitas coisas no Brasil. Atrapalhou o caminho de algumas publicações, criou problemas para outras, cria até hoje. Evidentemente que a censura é um estado anormal de coisas da ordem ideológica, política. Nós já a conhecemos desde 64. Depois, em 68, com o AI-5, engrossou e tomou um aspecto mais forte. Mas a censura também não pode significar, como vem significando, em quase todas as editorias de jornais, um álibi para preguiçosos, omissos e picaretas de toda espécie. Você sente a presença do dedinho da omissão, do dedo nefasto da omissão, até da garra da omissão. (...) Você sente que estão usando a censura como álibi para a mediocridade, a falta de limpeza de caráter profissional e a falta de questionamento.”

 

Ainda na mesma entrevista, sobre a censura e a própria literatura, João Antônio pontuou:

 

“Eu acredito que esses critérios de censura são sempre critérios muito burros. Censura é uma burrice. É muito difícil estabelecer qual o critério de justiça da censura. Eu acredito que sobre o livro a censura tenha agido com menos violência do que sobre os jornais. Basta olhar o número de tiragem de cada um. Então o livro é de certa forma tido e havido como um elemento menos perigoso. Mas o grande problema para o escritor é que ele, tanto ou mais que o jornalista, é um indivíduo que não pode pensar em censura na hora de produzir. Se existe um recado a dar é esse. O sujeito tem que transmitir sua mensagem, seja qual for, sem olhos na censura, porque a censura é a castração de qualquer tipo de criação.”

 

Tirando o trabalho jornalístico, João Antônio pouco produziu entre o resto da década de 1960 e a primeira metade da década de 70, e apenas alguns poucos contos vieram à luz em revistas e coletâneas. Em 1967, casa-se com Marília Mendonça Andrade e tem seu único filho, Daniel Pedro.

 

No fim dos anos 1960, então, operou-se em João aquela metamorfose drástica já muito conhecida. Morando no Rio, João se decide por uma mudança radical: deixa o emprego, vende o carro, quebra todos os cartões de crédito e termina o casamento. Passa a ser visto quase sempre de bermudas e sandálias. Há quem aponte uma influência de sua própria obra nessa transformação, como se João se aproximasse ainda mais de suas personagens e seus temas. João seria, assim, uma espécie de Dom Quixote criador, tão enfiado no submundo que passa a se ver como parte do que retratava. Parece-me demasiado simplista e romântico. O certo é que o autor simplificava sua vida, desbastava, e, daí para frente, iria se dedicar inteiramente à literatura.

 

Em 1975, João lança seu segundo livro de contos: Leão-de-Chácara. A demora, totalizando 12 anos, entre o primeiro e o segundo livros possui uma série de motivos apresentados cada qual numa ocasião pelo próprio autor: a situação editorial no Brasil, complicada para jovens escritores; a mudança para o Rio de Janeiro; o trabalho como jornalista; o internamento num sanatório. Um desses motivos, de qualquer modo, se vê espelhado na obra. Todos os contos de Leão-de-Chácara, tirando o "Paulinho Perna Torta", se passam no submundo do Rio, sempre orbitando o mundo dos bares e dos leões-de-chácara que dão nome ao volume. João Antônio cresce em escopo e, de certa forma, deixa de ser um autor regional, preso à marginalidade paulistana. Além disso, parece apaixonar-se pela atmosfera do Rio.

 

 

Já foi muito contada uma anedota sobre Faulkner e sua vinda ao brasil, principalmente quando se  fala sobre João Antônio. Diz-se que o autor americano, questionado sobre qual a melhor profissão para um autor brasileiro, que não pode viver da literatura, respondeu sem pestanejar: “garçom de bordel”. Pode não ter sido a escolha profissional de João, mas fazia parte de seu universo. O autor estava inserido no mundo que retratava, conversando com garçons, bebendo com malandros e convivendo com leões-de-chácara e outras figuras marginalizadas.

 

Mas não foi apenas sua temática que o alçou a uma das maiores figuras do conto nacional. Sua linguagem, chamada pelo Jaguar de “joãoantonês”, salta aos olhos na mais corriqueira leitura. Sobre ela, uma emulação do linguajar do sujeito sem voz do qual ele sempre tratou, Antonio Candido já disse muito mais do que eu poderia almejar. Segundo o crítico, João Antônio não escreve como se fala, mas antes elabora “uma voz narrativa manipulando da maneira mais fiel possível a comunicação oral”. Ele aceita os caprichos da conversa, as hesitações, repetições e violações do “bom gosto”. Com ares de quem copia um discurso jogado ao pé da rua, João faz passar assonâncias, jogos de ritmo, aliterações e outras artimanhas, o que dá testemunho de sua técnica apurada.
 

O autor escreveu mais de 15 livros durante a vida. Viajou pelo Brasil em 1978 e, com bolsas de estudo, pela Europa em 1985. Morou na Alemanha, também devido a uma bolsa, de 1987 até 1989.  Morreu em 30 de outubro de 1996, em seu apartamento de Copacabana. Como vivia sozinho, seu corpo só foi encontrado quinze dias após seu falecimento. No apartamento também foram encontrados muitíssimos livros, muitas primeiras edições, várias com dedicatórias escritas por gente como, dentre outros, Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado, Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade. Esses livros, assim como as mobílias, foram cedidos por seu filho ao Departamento de Literatura da UNESP , em Franca.

 

O conto "Malagueta, Perus e Bacanaço" virou filme em 1976, com o título O Jogo da Vida.

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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