Se Ele Gritar, Deixe-o Ir: Chester Himes

06.02.2019

 

Chester tinha em torno de 12 anos. Desde bem antes já parecia, assim como seus irmãos, levar jeito para os estudos, e as chances de seguir uma futura carreira acadêmica não eram pequenas. Seu pai, Joseph Sandy Himes, era professor e acabava de conseguir um emprego no Branch Normal College, no Delta do Arkansas, e sua mãe, Stella Bomar Himes, lecionou no Seminário de Scotia antes de se casar. A família de classe média tinha intimidade com livros e com o estudo. Diferente de seus irmãos, porém, Chester não era uma criança dócil. Foi por isso que, naquele dia, como acontecia vez ou outra, foi posto de castigo por sua mãe: às vezes ele fazia alguma malcriação. Proibido de participar da demonstração que faria na escola com seu irmão Joseph, Chester teve de assistir tudo da platéia. Sentado dentre os espectadores, Chester Himes deve ter presenciado bem de perto o momento em que tudo deu errado. A apresentação era sobre pólvora e a substância química explodiu no rosto de Joseph.

 

A família seguiu às pressas ao hospital mais próximo, mas teve o atendimento negado. Eram os anos das leis de Jim Crow, aquele era um hospital para brancos, e a família Himes era negra. Joseph acabou ficando cego. Esse evento marcou profundamente Chester Himes de duas formar: primeiro, com o choque de ver seu irmão ser ferido daquela forma violenta e, segundo, ao fazê-lo conhecer o racismo institucionalizado de seu país. Sobre esse evento, uma vez ele disse: “Aquele momento da minha vida me feriu tanto quanto todos os outros somados”. A violência e a desigualdade racial permeariam a vida e a obra de Chester dali por diante.

 

 

Chester Himes nasceu em Jackson City, no Missouri, no ano de 1909. Mudou-se com seus pais algumas vezes antes do acidente e, depois, acabaram se estabelecendo em Clevelando, Ohio. Nessa cidade, Chester se graduou pela East High Scool e, após cair no poço de um elevador enquanto trabalhava, entrou para a Ohio State University, em Columbus, recebendo um auxílio por invalidez. Chester foi expulso da universidade em seu segundo ano de graduação, por conta de uma peça que pregou.

 

Seus irmãos, como antes já davam mostras, acabaram seguindo a carreira acadêmica. Joseph, por exemplo, veio a se tornar um respeitado sociólogo.  Chester, por sua vez, perdia a chance de seguir esse caminho. Não há como não enxergarmos expulsão de Chester, e os fatos que a motivaram, como expressão clara do racismo, e isso também ficou óbvo para ele. Mas a coisa não pararia por aí.

 

Fora da universidade, Himes voltou para Cleveland e tentou levar a vida como podia. Envolveu-se com a ilegalidade, atuou como apostador profissional e, trabalhando como mensageiro num hotel, ganhou algum dinheiro conseguindo cientes para prostitutas e vendendo bebida ilícita. Em 1929, Chester foi preso por assalto a mão armada. Ele tinha 19 anos. Após confessar o crime, foi sentenciado a até 25 anos na Ohio State Penitenciary. Lá, Chester começou a escrever. Foi, a princípio, um esforço para se manter em segurança. Escrever e publicar era um modo de conseguir o respeito dos guardas e de outros prisioneiros, além de evitar a violência.

 

Na penitenciária, em 1930, Chester testemunhou o terrível incêndio no domingo de páscoa, que matou mais de 300 prisioneiros. Himes escreveu sobre a tragédia para a Cleveland News e, 1934, seu conto “To What Red Hell”, sobre o incêndio, foi publicado na Esquire Magazine. Enquanto preso, Chester escreveu, com sua velha máquina de Remington, contos que foram publicados na Pittsburgh Courier, Bronzeman, Atlanta Daily World e Abbott’s Monthly Magazine, dentre outras revistas.

 

 

Em 1936, após cumprir 8 anos, Chester Himes foi libertado em condicional. Seu trabalho literário teve papel importante nesse processo. De volta a Cleveland, casou-se com Jean L. Johnson. Desempenhou vários subempregos e chegou a trabalhar para Langston Hughes, escritor que facilitou sua aproximação com o mundo literário. Mudou-se para Los Angeles, em 1941, onde trabalhou num estaleiro. Lá, diante de mais racismo, reuniu o material do que viria a ser If He Hollers, Let Him Go, seu primeiro romance. Também escreveu, na década de 1940, The Lonely Crusade, que também tratava do racismo nos anos da Segunda Guerra Mundial. Ainda escreveu Cast The First Stone, sobre a vida na prisão (que causou polêmica por sua descrição positiva de um relacionamento homossexual), e The Third Generation, que tratava da vida familiar. Os dois livros, no entanto, foram rejeitados pelas editoras. Chester ainda chegou a seguir uma curta carreira como roteirista em Hollywood, que terminou quando Jack L. Warner, da Warner Brothers, bateu o martelo dizendo “Eu não quero pretos nessa área”.

 

 

Na década de 1950, ignorado em sua pátria natal, profissionalmente imobilizado pelo racismo, Chester Himes decide imigrar após a morte de seus pais e o fim de seu casamento. Foi para a França, onde era muito popular como escritor. Em Paris, conviveu com outros expatriados, como Oliver Harrington, Richard Wright, James Baldwin e William Gardner Smith, artistas e escritores engajados com crítica social e contra o racismo. No fim da década, casou-se com Lesley Packard, jornalista do Herald Tribune. O casamento duraria até o fim de sua vida, apesar das várias dificuldades encaradas por serem um casal interracial na época, e Lesley seria quem cuidaria de Chester após um derrame em 1959.

 

Apesar das intensas atividades em Paris, e de continuar produzindo literatura, Himes ainda vivia em estado de pobreza. Isso viria a mudar apenas em 1957, durante encontro com Marcel Duhamel, que havia traduzido If He Hollers para o francês. Himes saiu desse encontro com um adiantamento de US $1.000,00 para escrever um romance policial ao gosto dos franceses, apaixonados por Dashiel Hammett e Raymond Chandler. Assim nasceu a série de livros que acabaria com os problemas financeiros de Chester Himes e o tornaria internacionalmente aclamado: as histórias de Coffin Ed (Ed Caixão) e Digger Jones (Jones Coveiro).

 

 

Passadas na Nova Iorque das décadas de 1950 e 60, no Harlem, as aventuras dos dois detetives de polícia afro-americanos foram um sucesso estrondoso. Chester, nos nove romances da série, apresenta histórias com implicações bem mais profundas que as enfrentadas pelo herói comum de uma narrativa hard-boiled da época. Os detetives, ainda que detentores de uma afiada consciência social, faziam (paradoxalmente) pesar a lei sobre os criminosos da comunidade com uma excessiva violência, inseridos que estavam na lógica do racismo institucionalizado que permeava a sociedade da época (e que se mantém ainda hoje, de forma nem sempre velada). Apesar disso, eram respeitados pelos moradores, o que se nota por seus apelidos e pelo tratamento que recebem no Harlem. Agindo como podem nesse ambiente de desigualdade social e preconceito, Coffin Ed e Digger Jones tentam cuidar de seus vizinhos, e sentem-se ultrajados com a injustiça reinante. Sobre o trabalho de Himes na série, Ishmael Reed disse: “Himes me ensinou a diferença entre um detetive negro e Sherlock Holmes”. Suas histórias possuíam um distinto tom fatalista e um timbre emocional mordaz, além do onipresente tom sarcástico.

 

 

O primeiro livro da série, For Love of Imabelle, venceu o Grand Prix como melhor romance de detetive em 1957, ano em que foi lançado. Cotton Comes to Harlem, de 1965, foi adaptado para o cinema em 1970. Os seguintes títulos da série chegaram a ser lançados no Brasil pela Editora L&PM: Um Jeito Tranquilo de Matar, A Maldição do Dinheiro, O Harlem é Escuro e A Louca Matança.

 

 

Chester Himes morreu em 12 de novembro de 1984, aos 75 anos. Vivia na cidade de Moraira, na Espanha, com sua esposa e deixou, além dos contos e romances, duas obras autobiográficas: The Quality of Hurt e My Life of Absurdity.

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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