Tempos Difíceis de Skip James

01.02.2019

 

Nas décadas de 1920 e 1930 ocorreu um interessante fenômeno no mercado musical dos EUA: com a popularização da vitrola dentre as populações mais pobres do país, incluindo a comunidade negra, começaram a pulular gravações de blues por todos os lados. Normalmente produzidos na correria, muitas vezes com gravadores portáteis em quartos de hotel, esses discos eram baratos e cobriam um nicho que por muito tempo havia sido ignorado, seja por puro preconceito ou por simples desinteresse.

 

 

Foi nesse contexto que Nehemiah Curtis James, mais conhecido como Skip James, teve seu debut na indústria da música. No início de 1931, James foi até Jackson, no Mississippi, para conhecer H. C. Speir, um caçador de talentos e dono de loja de discos, hoje reconhecido como visionário da música. Speir costumava descobrir novos músicos de blues (há quem diga que ele foi o responsável pelo reconhecimento da maioria dos grandes nomes do Delta), com quem gravava discos demos que eram enviados para grandes gravadoras que, por sua vez, podiam ou não se interessar, contratando o músico e produzindo um álbum mais profissional. O trabalho de Skip despertou o interesse da Paramount e, naquele mesmo ano, ele viajou até Grafton, Wisconsin, onde foi gravado seu primeiro disco.

 

Diz a história que, após terminada a gravação, o representante da Paramount, bastante satisfeito, cumprimentou Skip e afirmou algo como “Obrigado, logo iremos te procurar novamente”. Infelizmente, a Grande Depressão bateu com força na época em que o disco de James foi lançado. Como consequência, as vendas foram muito baixas. Skip viveu as três décadas seguintes no mais completo anonimato, sem gravar qualquer música e tocando muitíssimo esporadicamente. É interessante a anedota sobre sua redescoberta, em 1964, quando os pesquisadores John Fahey, Bill Barth e Henry Vestine finalmente o localizaram. James estava internado em um hospital em Tunica, Mississippi e, quando um dos três fanáticos por blues se apresentou dizendo “Estávamos te procurando”, obteve a seguinte resposta: “Vocês devem ser mesmo muito burros para só conseguirem me achar agora”. A visita não era em nome da Paramount, ao contrário do que o músico acreditou a princípio, e não se sabe nem o quanto dessa história é real, mas não há dúvidas de que a narrativa emula muito bem a personalidade de Skip James.

 

 

Como costuma acontecer com muitos nomes do blues do início do Século XX, é complicado separar o que é verdade ou não na biografia de James. Sabe-se que ele nasceu em Bentonia, Mississippi, em 9 de junho de 1902. Ainda muito criança, mostrou-se atraído pela música. Ouvia músicos tocando em bailes da região onde vivia e, depois, passava dias cantando essas canções. Conta-se que sua mãe, da qual se desconhece o nome, notou essa paixão e presenteou o menino com um violão barato. Algum tempo depois, na adolescência, Skip começou a tocar também um órgão que havia na casa de sua tia. A mãe, tentando encorajá-lo, esforçou-se para arrecadar o bastante para que o rapaz tivesse algumas aulas de piano. Skip James, porém, possuía uma espécie de dom natural para a música, e logo estava além do que podia ser ensinado em sua comunidade: sua formação com o instrumento continuou de forma autodidata. Seu estilo dedilhado no violão foi desenvolvido por ele mesmo, após o dia em que Henry Stuckey o ensinou a afinar o instrumento em Mi-menor. Tudo isso o levou a criar um estilo único tanto no violão quanto no piano.

 

Com 17 anos, em torno de 1919, Skip James deixou Bentonia. Nos anos que se seguiram, viajando de cidade em cidade, ele fez de tudo um pouco: foi lenhador, trabalhador agrícola e ministro religioso. Também atuou em atividades ilegais como apostador, cafetão e traficante de bebidas. A origem de seu apelido traz à tona essa dualidade, enquanto o próprio Skip afirmava ter ganhado a alcunha por causa de suas habilidades de dança, há quem dissesse que o verdadeiro motivo seria sua capacidade de dar no pé quando as autoridades surgiam.

 

 

Diferente de muitos músicos, Skip não se interessou, a princípio, em construir uma carreira com sua música. Tocava por prazer e para entreter seus amigos, tendo se recusado a trabalhar com uma gravadora em pelo menos uma ocasião. Os motivos são desconhecidos, mas duas hipóteses parecem bastante prováveis: a primeira é a de que suas atividades ditas honestas já garantiam dinheiro suficiente; a segunda, por sua vez, é de que uma carreira como músico traria muita atenção indesejada, uma complicação desnecessária para suas atividades criminosas.

 

Ainda assim, Speir conseguiu persuadi-lo. Em seu encontro, foi preciso apenas que Skip tocasse um pouco da “Devil Got My Woman” para que fossem arranjados o contrato e a viagem para o Wisconsin. Lá, ele gravou mais faixas numa sessão do que qualquer outro bluesman que tenha trabalhado com a Paramount, a não ser Charley Patton. A gravação de 1931 registrou canções clássicas e fundamentais para o blues, como a já mencionada “Devil Got My Woman”, além de “Hard Time Killing Floor Blues”, “Little Cow and Calf is Gonna Die Blues” e “I’m So Glad”.

 

 

No período que se sucedeu à gravação, Skip James reencontrou seu pai, que não via desde a infância. Sob sua influência, foi para Dallas, onde se tornou Ministro Batista. Com a vida mudada, deixou o blues de lado, considerando-o “música do diabo”, e passou a tocar apenas spirituals. Foi só em 1943 que James voltou para Bentonia, onde pretendia retornar à carreira musical. Os tempos haviam mudado, o blues elétrico era moda, e seu estilo acústico, rural, ficou para trás.

 

 

Foi na época do revival do blues que Skip James foi encontrado no hospital de Tunica. James estava internado devido a um câncer no pênis. Com a ajuda dos aficionados por blues que o localizaram, Skip voltou à ativa. Junto de outros bluesmen redescobertos, como Son House, Skip James se apresentou no Newport Folk Festival. Apesar de continuar tocando e lançando novos álbuns até o fim de sua vida, James não conseguiu o mesmo sucesso que outros dos redescobertos. Os motivos para isso seriam vários: desde o estilo mórbido e muito triste da maioria de suas canções até uma espécie de negação em tocar o blues, como ele mesmo disse, com o coração após concluir que seria uma música maligna. Isso teria levado a uma diminuição da qualidade em seu estilo. Skip James passou seus últimos anos com problemas financeiros crônicos e morreu na Filadélfia, onde vivia com sua terceira esposa, no dia 3 de outubro de 1969, em decorrência do câncer.

 

 

A música de Skip James possui traços únicos. Suas letras, muitas vezes violentas e cruéis, espelham bem o mundo em que o artista viveu e sua própria atitude diante dele. Durante a juventude Skip andava armado, e já contou para o biógrafo Stephen Calt – com até  certo orgulho – que certa vez descarregou seu revólver num desafeto. Por isso não é de se espantar que algumas de suas canções tratem de assassinato, como “Crow Jane”, por exemplo. Há também uma forte presença da miséria, da pobreza, em suas letras, como em “Hard Time Killing Floor Blues” e do mal diabólico, que pode ser divisado nas entrelinhas de canções como “Devil Got My Woman”. Seu inconfundível registro vocal – um falsete sinistro – aliado ao estilo de fingerpicking no violão em ré menor, em nada parecido com o blues do delta, criava uma atmosfera sombria, profunda em sua música, o que, assim como o intrincado trabalho no piano, marcou e influenciou para sempre a história do blues.

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

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