A Arte de Bernie Wrightson

30.01.2019

 

O ano é 1966. No mês de junho, na recém lançada revista Creep nº 09, é publicado o desenho por um “diabólico membro do fã clube Creepy”, Berni Wrightson, como título de Ghoulish Gathering. No texto, consta o endereço do jovem desenhista, coisa comum em publicações da época, quando o correio ainda era a melhor maneira de se contatar gente distante com gostos em comum. A obra possui assinatura datada de 1965, quando Berni possuía 17 anos.

 

 

Saltamos para o ano retrasado. No dia 19 de maio de 2017, Liz Wrightson, esposa de Bernie, publica um triste texto de despedida no site oficial do artista. Bernie havia morrido em decorrência de um tumor no cérebro que, nos meses anteriores, limitara muitíssimo sua coordenação, percepção e movimentos, forçando-o a se aposentar. Bernie tinha 68 anos quando faleceu.

 

Entre os dois acontecimentos, deu-se a longa carreira de um dos mais reconhecidos artistas dos quadrinhos de todos os tempos.

 

 

Bernie Wrightson nasceu em 27 de outubro de 1948, em Dundalk, Maryland. Teve uma infância bastante comum, lendo revistas em quadrinhos, principalmente da Entretaining Comics, a EC Comics, especializada em horror, ficção científica, ficção militar e de crime. O tipo de publicação produzido pela editora, algo como um sucessor espiritual das revistas pulp de antes, era, na época, muito popular entre os jovens leitores. Bernie, como muitos garotos de sua época, devorava essas histórias e, influenciado por elas, começou a desenhar. Sua formação artística, aliás, sempre teve um pé no autodidatismo: foi assistindo John Gnagy na TV (apresentador do You Are an Artist, na NBC), lendo quatrinhos e através de um curso por correspondência da Famous Artists School que Bernie aprendeu a ilustrar. Suas maiores influências foram Frank Frazetta, Graham Ingels, Al Williamson e Howard Pyle, dentre outros – artistas que, em sua maioria, fizeram nome ilustrando histórias em quadrinhos.

 

No ano do lançamento da Creep nº 09, Bernie Wrightson inicia sua carreira profissional como ilustrador no jornal The Baltmore Sun. Sua passagem para os quadrinhos é rápida: após conhecer o lendrário Frank Frazetta numa convenção, em 1967, Bernie decide produzir as próprias histórias. Com esse material, Wrightson foi até a DC Comics, em 1968, onde conseguiu, com Dick Giordano, um contrato como freelancer. Ou seja, apenas dois anos após o início de sua carreira, Bernie Wrightson trabalhava para uma das maiores editoras de quadrinhos dos Estados Unidos. Era um sonho que se realizava.

 

 

 

Bernie produziu sua primeira história como profissional, “The Man Who Murdered Himself”, em 1968. Era uma história de terror, gênero do qual o artista nunca se desvencilhou. Outras histórias se seguiram, pela DC Comics e por sua maior rival, a Marvel. Chega a ser engraçado saber que, na segunda editora, Bernie chegou a ser encorajado a simplificar seu traço intrincado, uma de suas marcas registradas.

 

Foi na DC Comics, porém, que Bernie trabalhou em sua, talvez, mais famosa criação. No ano de 1971, Len Wein, o roteirista, contou para Wrightson, numa conversa, que havia acabado de escrever uma história da qual ele poderia gostar. Len havia acertado o palpite. Em suas palavras, a resposta de Bernie foi “Eu preciso desenhar isso”. No mesmo ano, na revista House of Secrets, saía a primeira história do Monstro do Pântano. No ano seguinte, o Monstro passou a ter sua própria série, e Wrightson desenhou suas dez primeiras edições.

 

Na mesma época, e pela mesma editora, Bernie publicou o Badtime Stories, uma antologia completamente autoral, com cada história desenhada numa técnica diferente, incluindo seu já célebre estilo de caneta e tinta e pincel. Em 1972 ele também criou, junto do escritor Marv Wolfman, a personagem Destino, que mais tarde seria usada por Neil Gaiman como parte de seus Eternos.

 

 

Bernie ainda trabalhou para a editora Warren, que publicara seu primeiro desenho conhecido oito anos antes, naquela edição da Creep com que começamos nosso texto. Lá, ele produziu várias histórias de terror em preto e branco.  Em trabalhos autorais e adaptações literárias, Bernie Wrightson cobriu diversas técnicas, passando por caneta e tinta e pintura com pincel, juntos ou separadamente, marcadores em tons de cinza, ilustrações aquareladas, duotone, etc. Somando-se a isso suas capas coloridas, temos uma noção de como aquele garoto que aprendeu a ilustrar por programas na TV e cursos por correspondência evoluiu. Bernie não tinha medo de expandir seus horizontes e não importava o que inventasse fazer, acabava dando à luz uma obra de cair o queixo.

 

 

Em 1975 ele já era um nome consolidado na indústria e, com outros artistas (incluindo Barry Windsor-Smith), Bernie fundou o The Studio em Manhattan. Lá, o grupo buscava produzir com maior liberdade, sem se prender à lógica do mercado de quadrinhos. Apesar de ainda trabalhar eventualmente com arte sequencial, foi nessa época que Bernie Wrightson começou a produzir cada vez mais trabalhos como pôsteres, calendários ilustrados e prints em geral. Também foi em 1975 que ele começou o conjunto de ilustrações que levariam sete anos para ser terminadas e se tornaram um de seus trabalhos mais icônicos: a versão ilustrada de Frankenstein, de Mary Shelley, lançado em 1983 pela Marvel Comics. Sobre a obra, Wrightson disse:

 

“Sempre tive uma queda pelo Frankenstein, e este foi um trabalho de amor. Não foi um contrato, não foi um trabalho. Fiz as ilustrações entre negócios pagos, quando eu tinha o bastante para me virar com as contas e compras e tudo mais. Eu tirava três dias aqui, uma semana ali, para trabalhar no Frankenstein. Levou cerca de sete anos.”

 

Seu estilo realista, apurado, absurdamente detalhado e cheio de texturas, jogos de iluminação e volumes, pode ser testemunhado em sua toda grandiosidade nessas ilustrações. Em 2012 foi lançada pela IDW Publishing uma espécie de continuação da obra, cooperação entre Wrightson e o autor Steve Niles, intitulada “Frankenstein Alive, Alive!”. Por esse trabalho, Bernie Wrightson ganhou seu primeiro prêmio da National Cartoonists Society, em 2013.

 

 

A partir dos anos 1980, Bernie Wrightson colaborou com uma infinidade de autores. Ilustrou uma história escrita por Bruce Jones para a Heavy Metal; fez a arte para a adaptação em quadrinhos do Creepshowfilme com roteiro de Stephen King que homenageava justamente as revistas que o próprio Bernie lia em sua infância e ajudou a popularizar por quase toda sua carreira; fez a arte para ainda várias outras obras do autor americano de horror; trabalhou com George R. R. Martin e com Jim Starlin; criou arte conceitual para filmes como Ghostbusters, The Mist, Galaxy Quest, Serenity, dentre outros; foi responsável pela capa de álbuns de diversas bandas; e a lista não para por aí.

 

 

Bernie Wrightson, que começou a carreira assinando como Berni, com medo de ser confundido com um famoso atleta olímpico, acabou por se tornar um gigante dentro e fora do mundo do terror. Seu traço personalíssimo é facilmente reconhecido e, além de levar adiante uma tradição, ajudou a moldar todo um gênero. Ele soube como ninguém imprimir no papel a atmosfera do grotesco. Sua carreira seguiu como a vida de sonhos de um garotinho nerd com alguma humildade e, talvez por causa dessa origem, há algo de eternamente saudoso em suas ilustrações, uma coisa da criança que, apesar do medo, não sai da frente da televisão durante o filme B que passa de madrugada.

 

 

Nada melhor, então, para fecharmos este texto, do que um vídeo de antes do câncer começar a golpear o lendário Bernie Wrightson. Um vídeo onde podemos presenciar sua arte sendo feita, na figura de um de seus terríveis ghouls, e sua conversa amigável, também muito lembrada por tantos dentre a multidão que ele influenciou que puderam conhece-lo pessoalmente.

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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