Soylent Green e o mundo do ano que vem

25.01.2019

 

Guerra Fria: um período no qual ninguém sabia ao certo quanto duraria essa bolinha espacial que chamamos de lar. Um tempo no qual tudo que era feito para dar medo tinha que ter pelo menos alguns miligramas de plutônio na composição, tempo no qual até os heróis surgiam da radiação. Aquela época na qual, dizem, se algum presidente acordasse de ressaca e mal-humorado o bastante, teríamos bombas atômicas chovendo em número suficiente para extinguir toda a vida da Terra um número X de vezes (e acredito que qualquer coisa acima de 1, nesse caso, já seja desperdício de apocalipse).

 

No meio de tanta história de hecatombe nuclear, de monstro gigante (que iam de insetos até – e perdoem-me o “monstro” nesse caso – Allison Hayes), de metáforas mal disfarçadas para comunistas no papel dos antagonistas e até mesmo vários vilões descaradamente stalinistas, eis que surgiu Soylent Green.

 

Lançado em 1973, dirigido por Richard Fleisher e baseado no livro de Harry Harrison, o filme faz um tipo interessante de alerta, que nada (ou muito pouco) tem a ver com a polarização reinante no mundo da época (e que hoje tenta renascer como farsa). Um alerta que, muito ao contrário de quase tudo o que se produziu durante a histeria nuclear, continua atual. Isso mesmo, atual até depois da URSS ir para o beleléu e pararmos de procurar cogumelos nucleares pela janela toda manhã. Soylent Green trata de perigos que, pelo contrário, estão bem mais presentes e são mais palpáveis agora do que há mais de três décadas atrás: o crescimento populacional, o esgotamento de nossos recursos naturais e o aumento  do abismo que existe entre ricos e pobres (uma preocupação atualíssima), entre as grandes corporações e o cidadão comum.

 

 

A premissa: no ano que vem, o de 2020 (por isso o idiótico título brasileiro, “No mundo de 2020”), não há mais quase nenhuma comida. A maior parte da água do mundo está contaminada e a população humana atinge números absurdos. As áreas rurais, nas mãos de grandes corporações, acabaram se tornando completamente inacessíveis para o cidadão comum. Massas humanas se aglomeram em grandes cidades, o clima é sempre quente, não há moradia para todos, e o preço da água e de bens alimentícios como frutas e verduras é imoral, transformando uma simples maçã, uma garrafa de bebida ou um banho quente em artigos de luxo, disponíveis apenas para aqueles que são ricos o bastante para desembolsar uma fortuna. Carne bovina, então, é coisa lendária.

 

Nesse mundo, uma empresa domina o mercado: a Soylent, produzindo uma espécie de ração barata o bastante para ser consumida para o povo. Soylent Yellow, Soylent Red e a cobiçada Soylent Green são a única coisa que a maioria das pessoas come.

 

 

Num mundo distópico assim, (ao qual nosso próprio mundo se assemelha cada vez mais), é contada a história do policial Robert Thorn, interpretado por Charlton Heston. Thorn, durante a investigação do assassinato de um riquíssimo empresário da Soylent Corporation, acaba adquirindo informações perigosas que o levarão a uma descoberta estarrecedora e é melhor parar por aqui. Por mais que o filme seja antigo, é sempre bom acreditar que ainda exista quem se espante com o desfecho da história.

 

O interessante aqui é lembrar como um mundo “pós-apocalítico” quase nunca é pós-apocalítico para todo mundo. A distopia está lá para quem é deixado de lado, para aqueles que são esmagados por quem pode mais. Como transmissor dessa mensagem, Soylent Green é ótimo. Só a título de exemplo, a sequência na qual os veículos do controle de distúrbios civis (verdadeiras escavadeiras de gente) varrem uma multidão de descontentes deixa clara a inexistência de direitos individuais, e até mesmo a impossibilidade de existência da própria individualidade, num mundo lotado o bastante para que seja impossível manter a ilusão de que cada vida importa. Não importa, não qualquer vida, e isso é jogado na cara do espectador.

 

Uma mulher atraente, nessa realidade, leva a vida como acompanhante, brinquedo sexual e objeto de ostentação de quem tem dinheiro o bastante para bancar esses luxos. Os mais pobres dormem onde podem, seja amontoados num lance de escadas ou em barraquinhas que pululam em todas as esquinas de uma Nova York com mais de quarenta milhões de habitantes. O poder continua sendo concentrado, e cada vez mais, pelos tradicionais donos da bola, e os excluídos só veem ser diminuído o pouco que lhes restava de dignidade. Detetive, uma espécie de herói pulp, menos charmoso que o Rick Deckard, de Blade Runner, mas ainda muito durão e vivido, Thorn testemunha tudo enquanto transita entre aglomerados miseráveis e coberturas bilionárias.

 

 

Numa época em que o medo estadunidense era aquele dos foguetes comunistas, Soylent Green deixou de lado essa guerra ideológica e focalizou no ente humano. Ou na sumária extinção desse ente, transformado pouco a pouco em rés. Em gado.

 

Mas, sendo assim, é melhor parar outra vez, para que os interessados acompanhem a narrativa até seu desfecho e para que tirem suas próprias conclusões.

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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