Crowley, Pessoa e a Boca do Inferno

23.01.2019

 


É uma daquelas histórias que, à primeira vista, só teriam alguma chance de acontecer em narrativa esquisita de algum Villa-Matas ou Roberto Bolaño. Coisa com a qual o leitor se depara, com uma pulga atrás da orelha, botando um pé do entendimento na ficção para não ficar com cara de bobo após um primeiro, mais ilustrado, entender a piada e gargalhar. Mas, neste caso, aconteceu de verdade.

 

Antes de mais nada, vamos às personagens. Não que sejam desconhecidas, mas talvez os círculos em que são conhecidas (e muitas vezes, com razão, veneradas) não tendam a convergir com muita frequência. Comecemos por Fernando Pessoa, o grande poeta português. Ou os grandes poetas. Deu vida àquele desfile de heterônimos: Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, para ficarmos nos mais célebres. Foi, além disso, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, crítico literário, comentarista político, etc. Muito pouco conhecida é, porém, sua face mística e seu interesse por astrologia e ocultismo.

 

 

Do outro lado, temos Aleister Crowley. Ocultista, membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada, responsável pela criação da Thelema, co-fundador da Astrum Argentum, líder da Ordo Templi Orientis, autor do Livro da Lei, estudioso de tarot e da Cabala. Muito célebre pela máxima “Fazes o que tu queres”, o mago era um reconhecido hedonista e crítico social. Se auto intitulava A Grande Besta (mas também O Pequeno Raio de Sol – codinome que nunca foi tão lembrado) e foi declarado pela imprensa como O Homem mais Perverso do Mundo. É, certamente, a figura do ocultismo mais reconhecida fora desse círculo. Apesar disso, pouca gente, dentre os leigos, sabe que ele também foi um jogador premiado de xadrez, dramaturgo e poeta (e não pretendo fazer juízo algum de seus méritos nessa área).

 

O primeiro foi inserido por Harold Bloom em sua lista dos 26 melhores escritores da civilização ocidental, o segundo ficou em 73º lugar numa enquete da BBC sobre o maior britânico de todos os tempos. Podemos até apontar uma diferença de grandezas, mas acredito que a influência de Crowley na cultura pop, sendo referenciado por gente como Raul Seixas, Alan Moore, Bruce Dickinson, David Bowie e Marilyn Manson, deve equilibrar um pouco as coisas.

 

Enfim, essas duas figuras, um dia, se encontraram. De um lado, Fernando Pessoa, pacato e introspectivo, de quem Octavio Paz certa vez disse “nada na sua vida é surpreendente – nada, exceto os seus poemas”. Do outro, Aleister Crowley, escandaloso e inquieto, que viajou por grande parte do mundo e chegou a fundar uma comunidade na Sicília para botar em prática seus ideais.

 

Tudo começa com Pessoa lendo a autobiografia de Crowley. Conhecedor de astrologia, como já comentado, o poeta encontrou um erro no mapa astrológico do mago, que constava no livro. Corrigiu o erro, mudando a hora de nascimento de Crowley, e decidiu escrever-lhe uma carta tratando do fato. Crowley respondeu com outra carta, reconhecendo o erro, e assim teve início uma troca de correspondências. Pessoa enviou seus English Poems para Crowley. Crowley retribuiu, enviando seu poema “Io, Pan”, que o poeta português viria a traduzir no futuro. O poema era assinado por Mestre Therion, espécie de pseudônimo de Crowley, que também nutria certo gosto por isso de criar personas e nomes.

 

 

Mestre Therion, To Mega Therion, A Grande Besta – não chega a ser um pseudônimo efetivamente. Está mais para um arquétipo de virilidade e impulso criativo, como um estado de espírito.

 

De qualquer modo, o encontro é marcado e Crowley chega a Lisboa em 2 de setembro de 1930, na companhia da maga alemã Hanni L. Jaeger. Sobre a cidade, ele afirmou: “Deus tentou uma vez acordar Lisboa com um terremoto, mas percebeu que não valia a pena”. Núcleo ao redor do qual todo o universo de Fernando Pessoa girava, para Crowley, Lisboa não passava de uma cidadezinha provinciana. De qualquer forma, o casal ficou em Portugal por quase um mês, até a farsa bizarra que daria fim à visita.

 

No fim de setembro, ocorre o suposto suicídio do mago, que teria se jogado da Boca do Inferno – um despenhadeiro terminado em uma gruta, que dava direto para o mar. Chega à polícia portuguesa uma cigarreira e um bilhete, aparentemente encontrados no local. No bilhete se lê:

 

L.G.P.

Ano 14, Sol em Balança,

Não posso viver sem ti.

A outra Boca do Inferno

Apanhar-me-á – não será

Tão quente como a tua.

Hisos.

Tu Li Yu

 

Fernando Pessoa foi chamado para depor como amigo da vítima. Contou uma história intrincada sobre o desaparecimento de Hanni e a busca desesperada de Crowler pela mulher. Dava-se a entender que o suicídio seria motivado pelo abandono por parta da alemã. A investigação chega até a envolver membros do Intelligence Service londrino e, durante o mês de outubro, foi fonte de várias notícias nos jornais portugueses e ingleses. Descobriu-se, depois, que a jovem não era alemã, mas americana, e que havia deixado Portugal de navio em 20 de setembro. Pessoa chega a declarar para a imprensa que o suicida ainda vagava por aí, em forma de fantasma, inclusive frequentando a Tabacaria Inglesa. Mais tarde, o poeta acrescentou ter descoberto, através de um médium inglês, que Crowley havia sido assassinado em Lisboa, num local rochoso, próximo à água. O fato é que o mago reapareceu eventualmente, inaugurando uma exposição de pintura em Berlim, em outubro daquele ano. Se já era sua intenção cometer o falso suicídio ou se o ato real passou por sua cabeça, se o fez para partir sem pagar a conta do hotel ou simplesmente queria desaparecer por um tempo, isso nunca ficou muito claro. Pessoa continuou, para o resto da vida, afirmando a morte e a ressurreição do inglês. Inclusive dizendo em carta que Crowley, “depois de se suicidar, passou a residir na Alemanha”.

 

 

Diz-se que esse encontro marcou profundamente o poeta. Aleister Crowley, por sua vez, devia ser um pouco mais difícil de se impressionar. Dadas suas muitas diferenças, enormes ainda depois de conhecermos suas tantas similaridades, não é fato estranho que os dois nunca mais tenham se encontrado pessoalmente. De qualquer forma, ambos juntaram esforços para a publicação de uma novela policial sobre o caso da Boca do Inferno, que Pessoa, após 200 páginas de fragmentos, não chegou a completar. Assim termina a improvável história, com cada qual marcando o mundo a seu próprio modo, e seguindo em caminhos que se afastaram completamente, como costuma mesmo ocorrer na vida real. E em alguns contos de tipos como Villa-Matas e Bolaño, o que não facilita muito nossas vidas.

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A imagem de capa desta postagem é a única possível fotografia de Fernando Pessoa e Aleister Crowley juntos. Há, contudo, muita especulação sobre a veracidade ou autoria dessa imagem.

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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