Robert Crumb Contra Todos

18.01.2019

 

 

Robert Crumb é o contrário do contrário do contrário. E não apenas três vezes, é o contrário, o avesso, por vezes suficientes, tanto quantas necessárias, para se tornar eternamente underground, independente de qual for o espírito da década em questão. E Crumb já deixou para trás sete décadas, desde seu nascimento em 30 de agosto de 1943.

 

 

Vindo do seio de uma típica família católica norte-americana de sangue escocês, sua infância tanto pode ter contribuído para sua arte quanto poderia ter sido apenas fonte para neuroses (não que Crumb seja livre disso, muitíssimo pelo contrário, mas já chegaremos lá), talvez rendendo só alguns trocados para um analista. Seu pai, Charles V. Crumb, foi militar, autor de um livro com o significativo título de Training People Effectively (Treinando pessoas efetivamente), e também foi artista a seu próprio modo, tendo atuado como ilustrador de combate para a Marinha dos EUA por 20 anos. Sua mãe se chamava Beatrice, era dona de casa, e afogava sua frustração em remédios para emagrecimento e outras drogas legais a base de anfetaminas. Como inúmeras crianças, Crumb e seus irmãos passaram a infância testemunhando as brigas dos pais, que viviam um relacionamento infeliz, algo mais comum do que gostaríamos de confessar. Pelo menos dois de seus irmãos, Charles Junior e Maxon, acabaram por desenvolver doenças mentais.

 

Crumb começou a desenhar ainda muito cedo, criando histórias em quadrinhos com seus irmãos. Com 15 anos, publicou com eles três edições de Foo, uma imitação do estilo da Mad, de forma totalmente independente. As revistas foram vendidas de porta a porta. Foi nessa idade, também, que teve início a obsessão de Crumb por jazz, blues e música de raiz norte-americana que vai perdurar por toda sua vida. Crumb se torna um colecionador fanático de discos e isso vai se tornar lugar-comum em sua obra.

 

 

 

Saído da casa dos pais, Robert Crumb conseguiu seu primeiro emprego desenhando cartões comemorativos e de saudação. O artista, como era de se esperar, não consegue se satisfazer com esse trabalho, e tenta vender histórias para revistas de quadrinhos. Não tem muito sucesso e, tirando algumas histórias publicadas por Harvey Kurtzman na revista Help!, não publica nada. Nessa época, em 1964, Crumb se casa com sua primeira esposa, Dana Morgan, com quem vai viajar para a Europa em estado de privação quase completa. Dana chega a roubar comida, enquanto Crumb contribui com a Help! E ainda produz cartões para a American Greetings.

 

Em 1965, Crumb lança Fritz The Cat na revista Help!. Criado ainda durante sua adolescência, Fritz nasceu como uma espécie de homenagem ao trabalho de Walt Disney. A inocência que marcava suas histórias nessa época, porém, foi absolutamente perdida no trabalho que Crumb passou a escrever na década de 60. Fritz se torna um símbolo da contra-cultura e dos quadrinhos underground, apesar de sua vida toda ter se passado em revistas de fora desse meio, saindo também na Cavalier. Sua única aparição numa publicação undergroud seria, ironicamente, sua última história: Fritz The Cat “Superstar”, de 1972, onde o criador, já cansado da famosa criatura, decide dar a Fritz uma morte violenta e sem sentido.

 

 

A marca de Fritz, de qualquer modo, ficou entranhada na cultura norte-americana. Sua crítica feroz aos valores da época, à classe média, ao anticomunismo, à violência policial, ao racismo patológico, ao machismo, se misturava a uma crítica tão violenta quanto à própria contra-cultura, com seus guerrilheiros de fachada, universitários e boêmios elitistas, artistas falsários, os “militantes” machistas da revolução sexual (que hoje ganham um inesperado herdeiro no “esquerdomacho”), Crumb não perdoou ninguém.

 

A crítica virulenta de Crumb estará presente em toda sua carreira. Seja em Mr. Natural, o guru natureba que só quer ganhar uns trocados e se dar bem às custas de seus seguidores, Snoid e outras personagens nascidas de seus anos de LSD de meados da década de 1960, seja nas páginas da Weirdo, que Crumb produziu nos anos 1980 e que dividiu tanto os críticos.

 

 

O contrário do contrário do contrário. Talvez seja esse o motivo de Robert Crumb ter conquistado a façanha de ser ídolo hippie, punk e de tudo que foi movimento ou estética a tomar conta da cadeirinha da contra-cultura por algum tempo. Essa postura, é claro, também trouxe alguns problemas. Um exemplo bastante conhecido é o de Angelfood McSpade: personagem que ganhou bastante destaque em suas publicações na Zap Comics, em meados de 1970, Angelfood era um retrato satírico do estereótipo da mulher negra africana. A personagem era desenhada com os seios de fora, vestida apenas com uma pequena saia de folhas de palmeira, exageradamente bem-fornida. Hiper sexualizada, Angelfood era descrita como ninfomaníaca e, inocente, muitas vezes acabava sendo abusada ou estuprada. É lógico que isso não passaria batido, e Crumb foi acusado de sexismo e racismo. O autor rebateu dizendo que via a personagem como uma crítica ao próprio estereótipo racista e entendia que seu público compreendia sua intenção na criação da personagem. De todo modo, não foi a primeira obra ou o primeiro autor a pisar nessa tênue linha entre a crítica e a própria disseminação de preconceitos. Esse tema, aliás, daria por si só um texto bem longo.

 

 

Talvez o sucesso da eterna crítica de Crumb contra o mundo contemporâneo esteja no fato de que seu alvo não é apenas uma faceta desse mundo, mas sim tudo o que é “moderno” (e entenda-se aqui tudo o que surgiu e aconteceu pelo menos de 1940 em diante). Robert Crumb sofre de uma aguda nostalgia de outros tempos, dos Estados Unidos dos primórdios do blues e do jazz, da América rural. Ele enxerga no folk antigo um espelho da verdade, com toda a secura e dureza que essa música tem ao tratar da vida. A música moderna, ao contrário, é uma enganação. Barulhenta e rápida, superficial, ela vende uma mentira, esconde o que somos. Essa nostalgia acaba espelhada em seu traço, principalmente quando trata de seus artistas favoritos, seja nas capas de discos da Yazoo Records, seja nas histórias sobre esses músicos, como Charley Patton, onde Crumb imprime algo de Walker Evans no desenho.

 

 

Sendo contra tudo, então, Robert Crumb acaba sempre chamando a atenção de quem é contra alguma coisa.

 

Há ainda incontáveis outras nuances do artista que poderíamos citar. Suas neuroses sexuais, que Crumb expõe num misto de auto-humilhação e exibicionismo típico de grandes egocêntricos (e faço aqui uma menção a Henry Miller), com suas mulheres enormes, fortes e dominantes pululando em todo canto e acendendo a libido do autor desenhado como uma figura raquítica, frágil e à beira do descontrole.

 

 

Poderíamos falar por horas sobre uma de suas últimas obras publicadas, o livro do Gêneses bíblico, ilustrado com absoluta fidelidade ao texto das escrituras. Essa fidelidade, aliás já seria motivo de choque, dada a anti-religiosidade professada pelo autor e o tom subversivo de suas obras em geral. Sobre o livro, aliás, o próprio Crumb afirmou que o texto original já era tão estranho de seu próprio jeito, que não parecia necessário fazer qualquer sátira sobre ele. E, de fato, o que nos salta aos olhos nesse trabalho é o estranho, o violento e o sexual do próprio texto bíblico.

 

 

Enfim, Crumb é uma figura que não se esgota facilmente. De tão variada, adentrar sua obra é como mergulhar num mundo bizarro tão rico que provavelmente vai tomar o esforço de uma vida inteira para ser totalmente assimilado. Por isso, como desistência mesmo, a melhor forma de terminar o presente texto é exatamente como será feito daqui a poucas palavras: deixando-o incompleto.

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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