A Arte Fantasmagórica de Alfred Kubin

16.01.2019

 

 

Nascido no dia 10 de abril de 1877, em Leitmeriz, no Império Austro-Húngaro, Alfred Kubin (batizado Alfred Leopold Isidor Kubin) parece ter imprimido morbidez em sua arte na mesma medida em que a vivenciou pessoalmente. Descrito como instável emocionalmente durante a infância, afirmou mais de uma vez em cartas para amigos e parentes que levava a vida como uma série de traumas e infelicidades, o que desembocou numa tentativa malograda de suicídio sobre o túmulo da própria mãe em 1896. Em 1897, durante o curto período em que serviu no Exército Austríaco, sofreu uma série de colapsos nervosos. Kubin ainda nem havia chegado aos 20 anos de idade. Não é de se espantar, portanto, o clima fantasmagórico – de pesadelo – que permeia suas pinturas.

 

 

Em busca de formação, começou a estudar em 1898 numa academia comandada pelo pintor Ludwig Schmitt-Reuttle. Já havia sido aprendiz do fotógrafo Alois Beer, de 1892 a 1896, mas deixou claro que, com ele, não aprendeu quase nada. De qualquer modo, não levou a termo os estudos com Schitt-Reuttle e, em 1899, mudou-se para Munique, onde deu início aos estudos na Academia de Munique.

Lá, conheceu o trabalho de vários autores que influenciaram seu estilo por toda a vida, como Edvard Munch e Max Klinger. Sobre Klinger, Kubin chegou a dizer: “Antes de deixar as gravuras de lado, jurei que dedicaria minha vida à criação de trabalhos como o dele”, tão profundamente tocado se sentiu. Foi sob influência de Klinger que adotou a técnica de aguatinta (similar à da água-forte na produção, mas com mais “zonas tonais” no resultado), também usada por Goya, outra grande fonte de inspiração. Já nessas primeiras obras, é clara a temática que varia entre macabro e fantástico, muitas vezes mesclando as duas coisas. De qualquer modo, a década de 1900 não viu nascer muitas pinturas suas. Mas um trabalho maior, na época, tocou tanto a literatura quanto as artes visuais.

 

 

Além de ilustrar obras de grandes escritores como E. T. A. Hoffmann, Edgar Allan Poe, Dostoieviski, Gógol, Balzac, e parte da bíblia, para edições traduzidas para o alemão, Kubin lança seu primeiro livro em 1909. Die Andere Seite (O Outro Lado), foi escrito e ilustrado por Kubin, durante a fase de crise em sua produção artística que tornou aquela década tão árida. O romance é uma história de fantasia que toma lugar numa bizarra terra opressiva. Mantendo-se fiel a seu estilo nas artes visuais, Kubin imprime uma atmosfera claustrofóbica, embebida de absurdo, na narrativa, bem aos moldes de Kafka. Franz Kafka, aliás, chegou a expressar bastante admiração pelo livro.

 

 

Kubin fazia parte da Neue Kunstlervereinigung (Nova Associação de Artistas de Munique), e tornou-se, em 1911, participante convidado do Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), grupo importante no meio Expressionista, nascido daquela associação, e composto de russos e alemães, que contava com nomes da grandeza de Kandinsky, Paul Klee e August Macke. Com eles, expôs na Galerie Der Sturm, em Berlim, em 1913. Foi seu último contato com grupos de arte de vanguarda mas, mesmo reconhecidamente solitário, não deixou de travar contato com outros artistas. Um exemplo foi a correspondência que manteve com Osvaldo Goeldi, iniciada após uma exposição na Galeria Wyss, em Berna, e que durou por toda a vida.

 

 

Kubin havia se mudado para um pequeno castelo que datava do Séc. XII, bem a seu gosto, em Zwickledt, na Alta Áustria, em 1906. Lá viveu solitariamente até sua morte, em 20 de agosto de 1959, aos 82 anos. Durante a Segunda Guerra Mundial, seu trabalho foi considerado “arte degenerada” pela Alemanha nazista, mas isso não o impediu de continuar produzindo. Recebeu vários prêmios, incluindo o Cidade de Viena para as Artes Visuais, em 1950, e a Medalha Austríaca para Ciência e Arte, em 1957. Também na literatura seu trabalho não foi interrompido, e Kubin escreveu outros livros durante praticamente toda sua vida.

 

 

Sua pintura, facilmente reconhecida pelas distorções lineares, linhas tensas irregulares, cheias de ondulações e cruzamentos ásperos, trazem à luz um sombrio mundo fantástico, repleto de visões fantasmagóricas. Apesar de alguma semelhança com o trabalho de outros artistas do Blauer Reiter, o “brilho satânico” que permeia suas descrições mórbidas de criaturas sobrenaturais e violência sexual tornam sua produção única. Kubin foi grande influência, não só para pintores posteriores, principalmente surrealistas, com destaque a Salvador Dali, mas também no cinema, onde marcou o trabalho de Murnau, o que pode ser visto explicitamente em cenas do Fausto ou em Nosferatu.  

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

     POSTS recentes:     
Please reload

© 2016 por O Caos Cultural.