Poesia e morte de Georg Trakl

11.01.2019

 

Georg Trakl nasceu na cidade austríaca de Salzburg, no ano de 1887, onde viveu até os 21 anos. Foi um estudante medíocre: teve problemas com latim, grego e matemática a ponto de ser reprovado um ano e largar a escola sem o diploma do secundário. Sua mãe, viciada em drogas, nunca foi próxima de seus seis filhos, relegando a educação de Georg a uma governanta francesa, através da qual ele travou contato desde pequeno com a língua e a literatura francesas. Seu pai, comerciante de ferramentas de origem húngara, faleceu precocemente no ano de 1909. A situação financeira da família, antes bastante próspera, decaiu muito com tal golpe, assim como a condição emocional de sua mãe. Antes disso, porém, sua vida já não era nada idílica.

                 Boêmio, Trakl gastava seu tempo com álcool, prostitutas e drogas. Viciou-se ainda na adolescência, conseguindo as substâncias com um amigo filho de farmacêutico. Gastava todo o dinheiro que recebia da família com ópio e cocaína, dentre outros entorpecentes. Mais tarde, quando se tornasse também farmacêutico, lançaria mão de seu ofício para alimentar o vício.

                A maior polêmica envolvendo sua vida, porém, foi certamente o amor nutrido por sua irmã mais nova, Grete, a outra artista da família, que veio a se tornar uma pianista de renome. Não se sabe se platônica, visto que as cartas do casal de irmãos foram todas perdidas, a paixão de Trakl por Grete deu à luz belos poemas como o que se segue:

 

À IRMÃ

 

Para onde vais será outono e tarde,

Veado azul que sob árvores soa,

Solitário lago na tarde.

Baixo o voo dos pássaros soa,

Sobre teus olhos a melodia dos arcos,

Teu sorriso soa.

 

Das tuas pálpebras Deus fez arcos.

Estrelas procuram à noite, filha de sexta-feira santa,

Na tua fronte, os arcos.

 

 

                Ou ainda o seguinte:

 

À NOITE

 

O azul de meus olhos apagou-se nesta noite,

O ouro vermelho de meu coração. Ah, tão quieta ardia a luz!

Teu manto azul envolveu o desfalecente;

Tua boca vermelha confirmou a loucura do amigo.

 

 

                É bastante significativa a inexistência de poemas francamente amorosos na curta bibliografia de Trakl, visto que seria inadmissível a publicação de versos dedicados à Grete. Também é preciso notar que quase não existem outras referências femininas na produção de Georg. Mas, principalmente, devemos lembrar que Grete se suicidou em 1917, três anos depois da morte do irmão.

 

 

                Georg começou a publicar seus poemas em Viena, para onde foi realizar os estudos em Farmácia e onde travou contato com outros artistas e poetas. Tendo se formado, pouco após a morte do pai, alistou-se no exército, onde serviu por um ano. Após um curto período de volta a Salzburg, Trakl se alista novamente, e vai servir num hospital em Innsbruck.

                Recebeu reconhecimento, mesmo antes da fama (que viria com força total apenas após sua morte), de figuras do naipe de Wittgenstein e Rilke. Ficou célebre a frase de Wittgenstein sobre o poeta: “Não entendo a poesia de Trakl, mas me deslumbra, e não há nada que me dê melhor ideia de gênio”. Tamanha era a admiração do filósofo que, de forma anônima, ele doou 20 mil coroas a Georg, o que permitiu que ele vivesse alguns anos sem se preocupar com os frequentes problemas financeiros que perduraram por quase toda sua vida.

                Com o início da Primeira Guerra Mundial, Trakl foi servir no Exército Austro-Húngaro como oficial médico no front oriental. O cotidiano brutal da guerra afetou tremendamente sua já frágil condição emocional. O poeta sofre diversas e avassaladoras crises de depressão e a gota d’água veio com a Batalha de Grodek.

                Em setembro de 1914, em um celeiro, Trakl atendeu a sobreviventes da batalha. Foram 90 feridos graves, soldados austríacos, entregues a seu cuidado. O desespero e a dor lhe são descaradamente apresentados. Um dos feridos se mata diante de Georg, com um tiro. No lado de fora, desertores são enforcados. Trakl quase não tem acesso a remédios, não é médico formado, e não pode fazer muito por aquelas pessoas. É impedido de se suicidar, também com um tiro, por um companheiro. A tentativa seguinte seria bem-sucedida.

                Georg Trakl ainda passou certo tempo internado em um hospital militar da Cracóvia. Sua depressão se asseverou. Buscando ajuda, Trakl escreve para um amigo, Julius von Ficker, editor da revista expressionista Der Brenner, e para o próprio Wittgenstein, que viaja ao hospital para prestar-lhe algum auxílio. O filósofo, infelizmente, chega tarde: três dias após o enterro do poeta, que havia se suicidado com uma overdose de cocaína. Trakl morre no dia 3 de novembro de 1914, com vinte e sete anos, dias após escrever um de seus poemas mais conhecidos:

 

GRODEK

 

À tarde soam as florestas outonais

De armas mortíferas, as planícies douradas

E lagos azuis, por cima o sol

Mais sombrio rola; a noite envolve

Guerreiros em agonia, o lamento selvagem

De suas bocas dilaceradas.

Mas silenciosas reúnem-se no fundo dos prados

Nuvens vermelhas, onde habita um deus irado,

O sangue vertido, frieza lunar;

Todos os caminhos desembocam em negra putrefação.

Sob ramos dourados da noite e das estrelas

Oscila a sombra da irmã pelo mudo bosque.

Para saudar os espíritos dos heróis, as cabeças que sangram;

E baixinho soam nos juncos as flautas escuras do outono.

Oh, tão orgulhoso luto! Altares de bronze!

Hoje uma dor violenta alimenta a chama ardente do espírito:

Os netos que ainda não nasceram.  

 

                Georg Trakl deixa um legado de apenas dois livros: Poemas, de 1913, e Sebastião no Sonho, lançado um ano após a morte do poeta, em 1915. Expoente do Expressionismo, Trakl acabou por se tornar um dos maiores poetas em língua alemã e o maior de sua geração, principalmente devido aos poemas que produziu durante seus dois últimos anos de vida. Com seus pares do movimento expressionista, divide o apreço aos poetas românticos, como Novalis, a crítica ao materialismo do mundo moderno, o reconhecimento da necessidade de se renovar esse mundo e a fuga ao onírico, além, claro, da presença constante da angústia e do  desespero humanos.

Seus poemas, fortemente marcados por aliterações, de verso branco e bastante herméticos, possuem numerosas referências a cores, principalmente azul e vermelho, ao silêncio e ao entardecer. É interessante notar o desenvolvimento dessas características durante a vida do poeta: a cor azul vai adquirindo notas cada vez menos luminosas e frias, em contraste com o vermelho, que representa tanto o impulso erótico quanto o da morte; o silêncio é apropriado pelos mortos em seus últimos poemas. É óbvio o movimento na temática do poeta, partindo do abstrato e filosófico, num primeiro momento, e indo desembocar no horror do mundo real, aquele que Trakl conheceu no front.

Seguem mais dois poemas de Georg Trakl:

 

AMÉM

 

Decomposição deslizando pelo quarto podre;

Sombras no papel de parede amarelo; em escuros espelhos se

Curva a tristeza ebúrnea de nossas mãos.

Pérolas marrons correm pelos dedos falecidos.

No silêncio

Abrem-se azuis os olhos-papoula de um anjo.

 

Azul é também a tarde;

O momento de nossa morte, a sombra de Azrael,

Que escurece um jardinzinho marrom.

 

 

LAMENTO

 

Sono e morte, as tenebrosas águias

Rodeiam noite adentro essa cabeça:

A imagem dourada do Homem

Engolida pela onda fria

Da eternidade. Em medonhos recifes

Despedaça-se o corpo purpúreo

E a voz escura lamenta

Sobre o mar.

Irmã de tempestuosa melancolia

Vê, um barco aflito afunda

Sob estrelas,

Sob o rosto calado da noite.

 

(todos os poemas aqui apresentados são de tradução de Claudia Cavalcanti)

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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