O Pós-Terror existe?

09.01.2019

 

 

 

Em 2017, o crítico Steve Rose, do The Guardian, cunhou o termo Post-Terror, Pós-Terror, para enquadrar uma onda de filmes independentes que começava a surgir à época, e que supostamente subvertiam o gênero do terror no cinema. Seriam películas pouco convencionais, que fazem pouco ou nenhum uso do jump-scare (aquela cena de susto quando a criatura ou o assassino surge num salto, por exemplo), carregam-se de metáforas e críticas sociais, desmontam clichês, etc. Há quem aponte outro traço, supostamente fundamental, na estrutura dessas obras: a sensação de incapacidade. O espectador se torna passivo, paralisado, submisso ao que é apresentado na tela, e segue o desenrolar da história consciente de que não há escapatória.

               Mais que um subgênero, o Pós-Terror tornou-se uma espécie de revolução no saturado novo formato do terror. Aclamados pela crítica ao mesmo tempo em que são recebidos de forma bastante dividida pelo público, estão filmes como Get Out! (2017), The Witch (2016), It Follows (2014), etc.

                Mas até onde essa renovação de todo um gênero é real? Quais de suas características são efetivamente novas ao terror?

 

 

                Seria interessante, para isso, pensar no terror como tradição, não simples gênero cinematográfico caricato e vazio de conteúdo, porque essa já seria uma caracterização por demais simplista. Na literatura, por exemplo, vários autores já teorizaram o que seria o terror. Nomes como Poe, Lovecraft e, mais recentemente, Stephen King, além de produzirem obras fundamentais dentro do gênero, debruçaram-se sobre sua gênese. Em sua grande maioria, os autores apontam o apelo ao estranho, àquilo que não está em seu lugar, ao medo do desconhecido, como uma das bases na literatura de terror.

                 Dadas as limitações da mídia escrita, não há como inserir o jump-scare, aparentemente um dos maiores símbolos do cinema de terror, ao texto literário. Mas podemos encontrar um paralelo a ele: aquilo que King chama de repulsa. Seria o efeito menos refinado, mais explícito, causado pela contemplação de cenas ou seres repugnantes. Baseado numa reação quase que puramente física (a náusea, a ânsia de vômito), o efeito da repulsa parece estar no mesmo patamar que o pulo de susto automático, reflexivo, que acomete o telespectador num slasher movie qualquer.

                Tendo em vista essa semelhança, podemos indagar: qual obra significativa do terror literário se baseia no repugnante? A resposta é: não muitas. Há, claro, um nicho, que tem Clive Baker como um de seus maiores expoentes, que busca explorar o grotesco explícito. Mas em Poe, Lovecraft, King, Ramsey Campbell, Arthur Machen, James, Chambers, Bierce, dentre tantos outros, o esforço maior parece se concentrar na criação de uma atmosfera de terror. Antes de apelar ao repugnante, estes autores preferem trabalhar numa teia de sensações e insinuações que se somam para dar o efeito terrível no qual culmina a narrativa.
                Mesmo no cinema, os exemplos se acumulam: Rosemary’s Baby (1968), The Omen (1976), Psycho (1960), The Wicker Man (1973), na verdade o jump-scare parece se popularizar apenas após a onda de slasher movies da década de 1970. O efeito, aliás, muitas vezes é contraproducente, anestesiando o espectador para o clímax, onde se chega já sobrecarregado de sustos, e que passa quase batido.

Sobre o vazio intelectual e a falta de metáforas, críticas ou reflexão, é ainda mais fácil apanhar os contraexemplos. Na literatura temos Frankenstein, um marco para o terror e para a ficção científica, que critica e alerta para o avanço da ciência. A obra de Lovecraft é uma longa reflexão sobre o sem-sentido da existência e a natureza do medo e, para o bem ou para o mal, espelho do medo que o próprio Lovecraft, xenófobo até o osso, nutria sobre o que não conhecia. Seria preciso, no cinema, trazer algo além do Rosemary’s Baby e toda a referência ao medo que a grávida carrega durante toda sua gestação? Talvez a crítica desbragada de Romero ao mundo contemporâneo, apontando para alvos como o racismo que permite o desfecho de Night of the Living Dead (1968) ou o consumismo descontrolado em todo o Dawn of the Dead (1978), passado num shopping center. É comum que boas obras incitem discussões sobre temas variados, na medida em que alguma profundidade é necessária para que qualquer trabalho narrativo seja algo mais do que medíocre.

 

 

                Os clichês também não parecem ser um problema. Não há gênero que perdure sem alguma renovação. Quando Lovecraft surgiu com o horror cósmico, quando Poe inseriu o protagonista culpado, quando King apresentou o terror no dia-a-dia de gente comum, não foi para preservar clichés. Da mesma forma, The Exorcist (1973) renovou o cinema de terror quando lançado. Dario Argento e Mario Bava nunca se apegaram muito a clichés e motes. O público ocidental recebeu com bastante excitação a onda de terror japonês e coreano que bateu por aqui já faz algum tempo. O próprio cliché da last girl, a garota que sobrevive ao furor assassino do antagonista, está longe de ser uma regra: pululam finais tristes ou desesperançados tanto na literatura quanto no cinema. Gente maior, aliás, já vaticinou que uma obra com final feliz, no mundo de hoje, não tem lugar na arte séria. Não é algo que nossa realidade tolera.

                Finalmente temos a passividade. Sobre isso há apenas uma coisa a se dizer: ela sempre teve lugar, e de destaque, no terror. Poe lançou mão disso diversas vezes, como no conto Berenice, por exemplo, em que o protagonista acaba contemplando o resultado horrível das próprias ações, que ele mesmo foi incapaz de impedir ou até acompanhar. A Queda da Casa de Usher é outro exemplo de narrativa em que o protagonista é levado por circunstâncias fora de seu controle. Lovecraft, em Um Sussurro nas Trevas, nos mostra uma sucessão de acontecimentos que, mesmo que fruto de ações da personagem principal, claramente levam de forma irresistível para um desfecho horrendo, como se não houvesse alternativa. Não há como fugir, no cinema, do exemplo do Rosemary’s Baby, em que a protagonista pouco pode fazer além de seguir adiante com a gestação amaldiçoada. The Wicker Man é outro belo exemplo, onde forças e acontecimentos ocultados à pobre personagem principal fazem a história desembocar em sua desgraça.

 

 

                É preciso notar que os exemplos, contos ou filmes citados, são todos bastante conhecidos. São obras famosas em suas mídias, deixando de lado, propositalmente, outras mais obscuras. Com isso, podemos notar que todas características do Pós-Terror sempre estiveram por aí, assimiladas por autores e obras ditas de qualidade. Então por que essa impressão de que algo está sendo revolucionado com o Pós-Terror? Em primeiro lugar, é preciso notar que todos esses filmes têm origem fora do mainstream. São obras nascidas de forma mais ou menos independente, o que as poupa do ímpeto dos grandes estúdios de agradar o público na medida em que isso trouxer lucro. A diluição, então, não é um problema apenas do terror, mas do cinema pop: podemos ver isso em qualquer filme de heróis, comédia ou ação. As frequentes exibições teste, a tendência a apostar no medíocre que assegura o ganho certo, são um empecilho para a criação de obras de maior qualidade. Talvez o correto, então, não seja encarar o Pós-Terror como um movimento de renovação, uma revolução, mas apenas a descoberta, por parte da crítica, de um nicho que sempre esteve aí, acobertado por toneladas de filmes caros, bem divulgados e muito pouco imaginativos.

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

     POSTS recentes:     
Please reload

© 2016 por O Caos Cultural.