A Constante Coisificação do Indivíduo

27.08.2018

 

 

Quanto há de humano em nosso cotidiano? O quanto nos sobrou de individual em nossas ações e relações com o mundo e com os outros? Quem, verdadeiramente, rege as vontades e tendências sociais?

 

Em alemão Verdinglichung significa, literalmente, “transformar uma ideia em uma coisa”, conceito esse utilizado pelo marxismo (desenvolvido por Lukacs e trabalhado pelos integrantes da Escola de Frankfurt) como uma forma particular de alienação, característica do modo de produção capitalista, implicando na Reificação, ou Coisificação, das relações sociais, de modo que a sua natureza é expressa através de relações entre objetos de troca.

 

Adorno, em seu texto Técnica, corpo e coisificação: notas de trabalho sobre o tema da técnica, comenta o processo de coisificação como surgido a medida que a técnica aproxima os homens das máquinas, os dominando culturalmente e anulando suas idiossincracias.

 

Porém, não é apenas no que diz respeito a dominação da técnica e do trabalho sobre o homem que a coisificação se apresenta. Em Educação após Auschwitz, Adorno exemplifica o processo de coisificação e coletivização do homem através do esporte e das técnicas presentes neles. Isso porque ao desenvolver-se como um atleta, aquele indivíduo projeta seu corpo como uma máquina, mirando uma perfeição e singularidade coletiva: um corpo perfeito, aquele que alcançará o sucesso, deve ser de um jeito específico. Theodor Adorno chama o acontecimento de “embrutecimento” ou “desumanização”, um braço da coisificação em que o entre perde sua criticidade e individualidade, seu corpo é moldado a conquistar seus objetivos, ou seja, a vitória, e todas as subjetividades e idiossincrasias são anuladas e definidas como fraquezas. Passamos a seguir um coletivo sem questionamento.

 

Pensemos, agora, no que vemos ao abrir uma rede social de imagens, como o Instagram. Milhares e milhares de seguidores se amontoam para curtir e comentar fotos de celebridades digitais que não possuem sua fama apoiada em nenhum talento que não seja o de se parecer com alguém perfeito, e em sua construção de perfeição, observa-se também o coletivismo. Todos, sem excessões, são iguais!

 

Os mesmos bronzeados, os mesmos corpos, as mesmas roupas, as mesmas poses em frente ao espelho, tudo absolutamente mimetizado até a exaustão, não deixando passar nem mesmo o discurso, que ecoa da mesma forma, no mesmo tom e com os mesmos principios antes citados por Adorno: “o sucesso mora no esforço”, “não deixe ninguém te dizer que é impossível”, “para quem disse dúvidou de mim”.

 

O sucesso está na construção de um corpo perfeito, numa imagem pouco individualizada. Já não há espaço para o pessoal. O corpo torna-se, portanto, um objeto objeto de troca. Sou perfeito e bem sucedido, posso trocar essa aparência pela participação em um seleto grupo de status.

 

Porém, a coisificação pela imagem não se dá apenas na construção dos corpos, mas também na escolha das roupas e acessórios. A ideia é perfeitamente expressa pelo poema “Eu, Etiqueta” de Carlos Drummond de Andrade.

 

EU, ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome 
que não é meu de batismo ou de cartório, 
um nome... estranho. 
Meu blusão traz lembrete de bebida 
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro 
que não fumo, até hoje não fumei. 
Minhas meias falam de produto 
que nunca experimentei 
mas são comunicados a meus pés. 
Meu tênis é proclama colorido 
de alguma coisa não provada 
por este provador de longa idade. 
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, 
minha gravata e cinto e escova e pente, 
meu copo, minha xícara, 
minha toalha de banho e sabonete, 
meu isso, meu aquilo, 
desde a cabeça ao bico dos sapatos, 
são mensagens, 
letras falantes, 
gritos visuais, 
ordens de uso, abuso, reincidência, 
costume, hábito, premência, 
indispensabilidade, 
e fazem de mim homem-anúncio itinerante, 
escravo da matéria anunciada. 
Estou, estou na moda. 
É duro andar na moda, ainda que a moda 
seja negar minha identidade, 
trocá-la por mil, açambarcando 
todas as marcas registradas, 
todos os logotipos do mercado. 
Com que inocência demito-me de ser 
eu que antes era e me sabia 
tão diverso de outros, tão mim mesmo, 
ser pensante, sentinte e solidário 
com outros seres diversos e conscientes 
de sua humana, invencível condição. 
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro, 
em língua nacional ou em qualquer língua 
(qualquer, principalmente). 
E nisto me comparo, tiro glória 
de minha anulação. 
Não sou - vê lá - anúncio contratado. 
Eu é que mimosamente pago 
para anunciar, para vender 
em bares festas praias pérgulas piscinas, 
e bem à vista exibo esta etiqueta 
global no corpo que desiste 
de ser veste e sandália de uma essência 
tão viva, independente, 
que moda ou suborno algum a compromete. 
Onde terei jogado fora 
meu gosto e capacidade de escolher, 
minhas idiossincrasias tão pessoais, 
tão minhas que no rosto se espelhavam 
e cada gesto, cada olhar 
cada vinco da roupa 
sou gravado de forma universal, 
saio da estamparia, não de casa, 
da vitrine me tiram, recolocam, 
objeto pulsante mas objeto 
que se oferece como signo de outros 
objetos estáticos, tarifados. 
Por me ostentar assim, tão orgulhoso 
de ser não eu, mas artigo industrial, 
peço que meu nome retifiquem. 
Já não me convém o título de homem. 
Meu nome novo é coisa. 
Eu sou a coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade ANDRADE, C. D. Obra poética, Volumes 4-6. Lisboa: Publicações Europa-América, 1989.

 

Há alguns meses, um vídeo surgido na internet causou um imenso questionamento. Intitulado “Quanto custa o Outfit”, apresentava jovens que contavam, orgulhosamente, o valor de cada uma de suas peças de roupa. O tom de superioridade e a superficialidade do ato enfureceu muitos internautas que passaram a criticar violentamente os jovens. Dentre os tópicos de crítica estavam a da banalização do dinheiro, da escolha estética das roupas, a soberba daqueles ou mesmo a idade de alguns jovens que ali apareciam.

 Garota comenta o custo de suas marcas no vídeo "Quanto custa o Outfit"

 

Em nenhum momento a reificação foi citada.

 

Todos vestiam-se iguais. As mesmas peças de roupas e as mesmas marcas se repetiam. A forma como eram utilizadas, o tom de conquista em ostentá-las. Tudo!

 

Eram cópias de cópias. Em momento algum se pode distinguir, dentre aqueles consumidores, aspectos individuais. Eram objetos moldados pelo mercado.

 

E por que isso não foi identificado com facilidade pelos críticos? Pois a coisificação do homem tornou-se naturalizada. Somos alienados pela técnica, pelo trabalho, pela imagem, pelo mercado. Gastamos nosso tempo em atividades e trabalhos que auxiliarão no projeto de coisificar nossos próprios corpos e personalidades, para que, mais tarde, possamos trocá-los por uma ilusória ideia de felicidade e sucesso.

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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