Álvares de Azevedo: Poeta dos Opostos (Análise)

23.07.2018

 

 

Se pensarmos em um autor sem meios termos, com certeza este seria Álvares de Azevedo. Possuidor de obras tão marcantes como Macário, Noite na Taverna e Lira dos Vinte anos, o jovem poeta paulistano parece projetar uma imagem  de desmesura poética fantástica, quer por culpa do próprio autor, quer por culpa da crítica ou pelas expectativas de nosso próprio imaginário.

 

Seguindo a linha dos extremos, é difícil encontrarmos um leitor que ature Álvares de Azevedo, alguns o amam, outros não o suportam, e pela soma desses fatores tão opostos, podemos sentir a força de sua obra. E não é só no âmbito das críticas que se destaca essa bipolaridade (se é que podemos chamá-la assim), na verdade o mais importante, ao menos para estas próximas linhas que se seguem (afinal, este é o foco do trabalho que temos em mão), é como se dá os opostos inseridos dentro da obra de Álvares de Azevedo. Opostos estes chamados "binomias".

   

Para a exposição destas binomias, usarei o poema A Lagartixa, do Livro "A Lira dos Vinte Anos", poema este presente na segunda das três partes das quais é composto o livro. Porém, antes de iniciarmos uma contextualização maior do assunto, gostaria de salientar, e desta forma comprovar, o objeto de estudo que pretendo expor com esta análise, me utilizando das palavras do próprio autor em seu prefácio:

 

"A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia. duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces."

 

Devemos, primeiro, compreender a obra de Álvares de Azevedo. A totalidade de seu trabalho (tanto poemas quanto prosas) representa uma diversidade de "facetas" do autor. O fantástico e o gótico, que são tão abundantes em suas prosas, o inocente (mesmo que propositalmente inocente) e íntimo, da primeira e segunda parte da Lira dos Vinte anos, e o que nos interessa mais no presente momento: “a alegria saudável, graciosa x a dosagem exata de humor", de que é formada a segunda parte da Lira.

 

A importância deste humor em uma obra romântica é muito bem grifada por Marlene de Castro Correia que no livro Poesia Sempre diz: "[...] o humor confere à poesia de Álvares de Azevedo uma feição ímpar no Romantismo brasileiro e dele advém parte de seu poder de sedução sobre a sensualidade moderna".  Antonio Candido vai mais fundo em seu livro "Formação da Literatura Brasileira" e diz: "As seis poesias da série Spleen e Charutos formam um conjunto excepcional [...] podendo algumas ser consideradas pequenas obras primas no gênero, como "Solidão" e " A Lagartixa".

 

Nos utilizando um pouco mais das palavras  de Marlene de Castro, podemos entender a formação deste gênero humorístico da poesia de Álvares de Azevedo na utilização do prosaico, do espaço comum ao homem, do cotidiano, etc. É uma poesia simples, do pequeno, e que por este motivo cria uma atmosfera excepcional em torno de si e uma compreensão muito maior por parte de quem a lê. Mas não podemos dizer que esta obra era desprovida de intenções maiores ou "solta" em meio ao universo literário, muito pelo contrário, o autor mantém sempre uma conversação direta com tópos românticos.

 

Portanto, com esta breve contextualização da obra, acredito ser possível analisarmos diretamente o poema escolhido:

 

A Lagartixa

 

A lagartixa ao sol ardente vive

E fazendo verão o corpo espicha:

O clarão de teus olhos me dá vida,

Tu és o sol e eu sou a lagartixa.

 

Amo-te como o vinho e como o sono,

Tu és meu copo e amoroso leito...

Mas teu néctar jamais se esgota,

Travesseiro não há como teu peito.

 

Posso agora viver para coroas

Não preciso no prado colher flores;

Engrinaldo melhor a minha fronte

Nas rosas mais gentis dos teus amores.

 

Vale todo um harém a minha bela,

Em fazer-me ditoso ela capricha;

Vivo ao sol de seus olhos namorados,

Como ao sol de verão a lagartixa.

 

Logo ao iniciarmos a leitura do poema somos tomados por certo desconcerto causado por termos tão estranhos à poesia romântica, como por exemplo a Lagartixa. É deste estranhamento que, ao continuarmos lendo, percebemos uma crescente entonação de humor gracioso, mesclado a alguns temas comuns dos autores da época.

 

Com uma análise bem superficial, na primeira estrofe identificamos um tópos romântico muito utilizado: a exaltação da mulher amada. Mas todo o crescimento emocional proposto neste tema é rompido no último verso quando o poeta diz  "Tu és o sol eu sou a lagartixa". A comparação traçada é cômica quando se constrói por meios tão provincianos. O amor não eleva o homem, ele lhe faz aparentar a condição de um pequeno réptil.

 

A partir daí nos parece que o poeta começa a desfazer o objeto humorístico quando constrói outras temáticas românticas, como o culto ao ócio  em : "Amo-te como o vinho e como o sono,/Tu és meu copo e amoroso leito..." e "Travesseiro não há como teu peito". Ou no engrandecimento das características da mulher: "Nas rosas mais gentis dos teus amores". Porém, a última estrofe desconstrói novamente o objeto romantico: "Vivo ao sol dos seus olhos namorados;/como ao sol de verão a lagartixa."

 

Uma leitura mais atenta possibilita traçar uma grande variedade de binomias nestas quatro estrofes, desta forma trabalhando a aproximação de opostos.

 

A primeira grande binomia moldada por Álvares de Azevedo é a aproximação Homem x Animal, o poeta que ama e a lagartixa que ao sol faz verão, e desta binomia forma-se outra que seria o "calor do sentimento amoroso" x "o sangue frio do réptil", pois a escolha do objeto de comparação é bem específico para o autor.

 

Seguindo esta linha, há também a oposição da "grandiosidade do amor romântico" X "a mesquinhez da lagartixa". Podemos até traçar mais uma oposição entre o próprio sol e sua importância para ambas as criaturas: para a lagartixa seria um provedor biologicamente necessário no que diz respeito à obtenção de energia, já para o poeta vem carregado de preguiça,como se o calor deste seu amor lhe tirasse a energia e o encharcasse de sono e preguiça.

 

Mas não é apenas nos termos que se constrói a binomia, a produção da temática poética, por si só, aproxima opostos. A mescla de objetos comuns ao romantismo tradicional e da atmosfera graciosa e humorada da poesia incube-se do efeito.

 

Portanto, temos um grande exemplo deste fenômeno da poesia de Álvares de Azevedo no poema A Lagartixa, onde o leitor se depara com extremos opostos tão figurativos quanto morais, tão provincianos quanto altamente críticos e. desta forma, o poeta cria, como diria  Antonio Candido, "pequenas obras primas" que dialogam com todo um cenário literário. Nada menos esperado vindo de um poeta sem meios termos.

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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