Machado de Assis: Embranquecimento e Racismo Institucional

08.07.2018

 

Em junho de 2018 veio a público o achado do pesquisador paraense Felipe Rissato, nada mais nada menos que a provável última foto do autor Machado de Assis, em 1908, com 68 anos. A imagem pertence a uma publicação argentina, a revista “Caras y Caretas” que trazia uma sessão de fotos de grandes figuras públicas brasileiras, e dentre eles o presidente da Academia Brasileiro de Letras.

 

 Machado de Assis na publicação de "Caras y Caretas", 1908

 

"Esta passa a ser a sua última fotografia feita em vida. Enquanto que a imagem que ocupava essa posição era a do escritor sendo acometido pelo ataque epilético, na qual não é possível sequer ver seu rosto. Ademais, temos Machado de corpo inteiro e sozinho, algo que até então só havia sido observado em dois retratos de sua primeira sessão fotográfica, feita aos 25 anos (1864) no estúdio de Insley Pacheco, e mesmo assim, sentado. Mais tarde, acreditava-se que as lentes somente teriam capturado Machado de corpo inteiro rodeado por amigos."

Rissato

 

Acredita-se que tal foto tenha sido o último registro do Bruxo de Cosme Velho pois este faleceu em setembro do mesmo ano.

 

Porém, para além da curiosidade de sua última aparição, salta-nos aos olhos, novamente, toda a polêmica sobre o processo de embranquecimento que o autor sofrera, não apenas em seu pós-mortem, como também ao longo da vida, pela elite com a qual convivia.

 

É evidente, em comparação entre fotos, os traços negros que Machado possuía em sua última foto, traços que não se acentuavam nas imagens até então conhecidas. A ideia se fortalece após a leitura de “Machado de Assis desconhecido”, publicado em 1950 por Raimundo Magalhães Jr, que credita o embranquecimento do escritor aos retratos da época, como os de Insley Pacheco, que retocou fotografias em que Machado adquire traços mestiço, ou mesmo brancos. Documentos póstumos reforçam a tentativa de se embranquece-lo, uma vez que em sua Certidão de Óbito sua etnia é marcada pelo escrivão como caucasiana. Importante lembrarmos, também, que não, Machado de Assis nunca se declarou negro em seus diversos escritos, porém também nunca fez ao contrário. Nunca se declarou branco em momento algum.

 

Fotos do autor

 

Parece uma ideia absurda pensarmos o esforço do embranquecimento de nossos intelectuais, figuras públicas, poetas, etc, como uma suposta forma de legitimação de seu trabalho, os aproximando da elite e negando proximidades com os alvos do racismo institucional de nosso país.

 

Parece absurdo, e extremamente preocupante se ignorado, mas o que pensar quando percebemos que este processo permanece de maneira ativa até hoje? Peças publicitárias da TocaLivros ou mesmo da Caixa Econômica, por exemplo, apresentaram um escritor embranquecido, a Caixa Econômica, inclusive, sendo alvo de protestos, o que culminou com um pedido de desculpas do então presidente da instituição, Jorge Hereda, e na divulgação de um novo comercial, dessa vez com um ator negro.

 

Comerciais da Caixa Econômica

Mas, infelizmente, o racismo institucionalizado, o racismo discreto e extremamente violento do Brasil, ultrapassa as esferas de discussão étnica de nossas figuras públicas. Comentários racistas de um grande influenciador de jovens, expostos ao longo de um mundial de futebol cujo lema de sua edição era “diga não ao racismo” demonstra que ainda temos muito o que aprender. E para que essa mudança aconteça é necessário, primeiramente, que deixemos de ignorar a existência de nossos problemas, para que possamos combater o ódio e trabalhar a educação, a pluralidade e a aceitação.

 

Aceitar a cor de um ícone como Machado de Assis é um passo em direção a aceitação do Brasil, de quem somos e o do que podemos nos tornar.

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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