Diante da Lei: entre o Homem e seus Direitos

20.06.2018

Até onde a lei e a justiça se fazem realmente abertas a todos? Quais são os entraves que se colocam diante de nosso acesso aos nossos direitos? Seríamos realmente detentores desses direitos, independente de nossa classe? Independente de privilégios?

 

Sob essa perspectiva trabalha Franz Kafka no conto "Diante da Lei", de 1919, expondo as barreiras que se firmam entre o homem do povo e seus direitos, em uma luta tão coletiva quanto individual, que se esgota, por vezes, com a desistência e a alienação alimentada por anos e anos de fracasso.

 

 

DIANTE DA LEI

 

Há um guardião diante da Lei. Um homem do campo vem até esse guardião pedindo para ser admitido na Lei. O guardião lhe responde que naquele dia não pode permitir sua entrada. O homem reflete e pergunta se depois poderá entrar.

- É possível - diz o guardião -, mas não agora.

Como a porta da Lei continua aberta e o guardião está ao lado dela, o homem se agacha para espiar. O guardião ri e diz:

- Preste bem atenção: sou muito forte. E sou o guardião mais subalterno. Lá dentro não há uma sala que não esteja vigiada por um guardião, cada um mais forte que o anterior. O terceiro tem uma aparência que eu mesmo não consigo suportar.

O homem não previra esses entraves. Pensa que a Lei deve ser acessível, mas ao observar o guardião com sua capa de pele, seu grande nariz agudo e sua longa e esfiapada barba de tártaro, resolve que é melhor esperar. O guardião lhe dá um banco e o deixa senter-se junto à porta. Ali ele passa os dias e os anos. tenta muitas vezes ser admitido e cansa o guardião com suas petições. O guardião enrabula com ele diálogos limitados e o interroga sobre seu lar e outros assuntos, mas de forma impessoal, como se fosse um senhor importante, e sempre sempre acaba repetindo que ele ainda não pode entrar. O homem, que se munira de muitas coisas para sua viagem, vai se despojando de todas para subornar o guardião. Ele não as recusa, mas declara:

- Aceito para que você não pense que não tentou tudo.

Em todos esses anos o homem não deixou de olhá-lo. Esquece os outros e pensa que este é o único entrave que o separa da Lei. Nos primeiros tempos amaldiçoa, aos gritos, seu destino perverso; com a velhice, a maldição se transforma em queixume. O homem se torna infantil, e com sua vigília de anos passou a reconhecer as pulgas da capa de pele, acaba lhe pedindo que o socorram e que intercedam junto ao guardião. Por fim seus olhos se turvam e não sabe se são eles que o enganam ou se o mundo escureceu. Mal se percebe na sombra uma claridade que flui imortalmente da porta da Lei. Já não lhe restou muito o que viver. Em sua agonia as lembranças formam uma única pergunta, que ainda não fez ao guardião. Como não consegue se levantar, tem de chamá-lo por meio de sinais. O guardião se agacha bastante, pois a diferença de estaturas aumentou muitíssimo.

- Que quer agora? - diz o guardião. - Você é insaciável.

- Todos buscam a Lei - diz o homem. - Será possível que em todos esses anos que fiquei esperando ninguém tenha tentado entrar além de mim?

- O guardião percebe que o homem está se acabando e tem que gritar para que ele o ouça:

- Ninguém quis entrar por aqui porque esta porta estava destinada somenta a você. Agora vou fechá-la.

 

Franz Kafka

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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