As Referências e a Arte de "This is America"

15.05.2018

 

No inicio do mês de maio um vídeo apareceu ao público do Youtube e rapidamente explodiu, ultrapassando 100 milhões de visualizações em apenas 9 dias. This is America, de Childish Gambino, é um vídeoclipe de rap que tornou-se hit pela força de sua letra, referências, e, principalmente, pela violência e crítica crua que apresenta.

 

Mas você já tinha ouvido falar de Childish Gambino?

 

Gambino é o nome artístico do rapper, humorista, roteirista e ator Donald Glover, conhecido, até então, pelos seus trabalhos de criação, como a roteirização da série 30 Rock, e pelas atuações em filmes como “Perdido em Marte”, “Homem-Aranha, de volta ao lar” e como Lando em “Solo: A Star Wars Story”

 

Foi em 2011 que adotou o nome Childish Gambino, ao assinar com a Glassnote Records, lançando seu primeiro álbum, o Camp.

 

“This is America” foi dirigido pelo japonês Hiro Murai, que já havia trabalhado com Glover outras 4 vezes, nos clipes 3005, Telegraph Ave e Sober, além de tê-lo dirigido na série Atlanta.

 

Em entrevista para a revista Variety, Murai também contou que foi visualmente inspirado “pela ideia de um vídeo de dança que aconteceria nos últimos 20 minutos de 'Mãe!' ou no mundo de 'Cidade de Deus'”, além de comentar como se deu a construção do clipe entre ele e o rapper:

 

"Donald assumiu o ímpeto criativo no conceito inicial [do vídeo] porque ele sabia no que a música se tornaria. E eu entrei quando ele estava organizando as últimas partes da canção. Mas o processo de criação para o vídeo foi como brincar de batata quente com as ideias. Até mesmo durante as filmagens".

 

A relação entre os artistas parece ter dado certo, e o resultado de “This is America” foi chocante. A canção que traz trechos como “Vovó me disse/Conquiste seu dinheiro, homem negro (homem negro)”, “Olha como eu tô me drogando/Eu sou tão estiloso (tão estiloso)” e “Esta é a América/Não escorregue, cara” cutuca a ferida da sociedade norte americana e de seu preconceito, refletindo a posição que fora imposta à sua população negra que se vê marginalizada, refém da violência social e institucional, em um ambiente de prioridades avessas e celebração ao dinheiro.

 

Porém, não foi apenas a letra e o ritmo do trabalho de Gambino que chamou a atenção do grande público, a quantidade de referências presentes no produto audiovisual de Glover e Murai é espantoso e absolutamente criativo.

 

O homem negro que deseja ser branco.

 

Logo no início do videoclipe, um músico negro senta-se no meio de um galpão, tocando um violão. Glover surge ao fundo. O rapper inicia uma dança, e logo faz uma careta, um gesto estranho com o olho. Essa é a primeira referência do clipe, e faz menção a Tio Ruckus, personagem de ficção, antagonista da história em quadrinhos “The Boondocks”. Ruckus é um homem negro que acredita ser branco, apresentando tendências racistas.

 

Jim Crow e as Leis de Segregação

 

Ao aproximar-se do músico, agora encapuzado, Glover posa de maneira peculiar antes de efetuar um disparo contra o homem. A pose imita um personagem muito enraizado na cultura norte americana, Jim Crow.

 

No Início do século XIX, o comediante branco Thomas Dartmouth criava um espetáculo blackface no qual dançava e cantava com o rosto pintado de preto, interpretando um escravo negro chamado Jim Crow. O personagem possuía todos os estereótipos negativos relacionados a comunidade negra, e pouco foi necessário para que a alcunha do personagem de Dartmouth se tornasse uma forma depreciativa de se referir aos cidadãos afro-americanos. A absurdo tornou-se ainda maior quando a expressão pejorativa deu nome a um conjunto de leis que promoviam a segregação racial nos Estados Unidos, que durou até 1965

  

Bailarinos africanos

 

Após se livrar de sua arma, que é delicadamente recebida por uma almofada branca enquanto o corpo do músico negro é arrastado com violência, o que simboliza as prioridades americanas para com as políticas armamentícias enquanto as humanitárias são ignoradas, glover se aproxima de um grupo de jovens estudantes e inicia uma dança.

 

A dança em questão é o Gwara Gwara, traço cultural sul-africano que fora popularizado nos EUA por Rihanna, após uma apresentação do Grammy, em janeiro de 2018.

 

O massacre de Charleston

 

Mais uma cena chocante. Um coral gospel se incorpora à melodia de This is América, mas logo é interrompido pela brutalidade de uma rajada de metralhadora disparada pelo rapper. A cena refere-se ao massacre de Charleston, quando Dylann Roff, um supremacista branco de 20 anos, matou nove pessoas em uma igreja afro-americana, em junho de 2015.

 

Richard Pryor

 

Em determinado momento, o galpão transforma-se em caos. Há diversas pessoas correndo, policiais agressivos, cenas de violência. Glover, em determinado momento, levanta os braços, posando como Richard Pryor, humorista que incluía em suas apresentações temas como o racismo e a violência.

 

A morte de Stephon Clark

 

Durante o caos que ocorre no galpão, estudantes aparecem filmando, tranquilamente, a ação com seus celulares enquanto a letra diz “This is a celly/ that's a tool” (isso é um celular, isto é uma ferramenta).

 

A cena parece fazer referência à morte de Stephon Clark, que levou sete tiros da polícia em março de 2018. Enquanto os policiais buscavam um suspeito de vandalismo, Clark, que falava em seu telefone celular no quintal de casa foi baleado. A alegação: confundiram o celular com uma arma. Esse crime acarretou uma série de protestos no país.

 

O cavaleiro do Apocalipse

 

Em determinado momento do clipe, um cavalo branco com um homem encapuzado o montado passa no fundo. Na bíblia, ao longo do livro do Apocalipse, o cavaleiro que monta um cavalo branco representa a morte e a vitória por meio do confronto violento.

 

Isaac Hayes e os Blakspoitation

 

A postura de Glover ao longo do clipe parece lembrar Isaac Hayes, ícone da música soul, que por vezes agia de forma mais agressiva, disposto a provar seu valor e ponto de vista contrário ao racismo e a segregação. Hayes, inclusive, é também um ícone dos filmes Blakspoitation, que surgiram em 1970, dirigidos ao público negro americano. Apesar dos estereótipos presentes nessas obras, os filmes eram os únicos produtos onde os negros tinham papéis de heróis, não apenas ajudantes ou vítimas de brutalidades.

 

 

 

 A calça confederada

 

Alguns internautas também cogitaram referências presentes no vestuário de Glover. Há uma grande familiaridade entre a calça que o rapper usa, e as calças do uniforme confederado, exército do sul dos EUA que durante a guerra civíl lutava por ideais retrógrados, como pela perpetuação do escravismo.

 Essas são algumas referências presentes na obra do rapper norte americano que, de maneira contundente e absolutamente artística, trouxe temas importantíssimos ao olhos do mundo, nos fazendo refletir sobre a violência que perdura contra os negros, e sobre a imensidão de situações abusivas, horríveis e absurdas que constantemente podem passar desapercebidas por olhos privilegiados. É necessária a arte, a crítica, a exposição e o combate.

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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