É possível fazer poesia após Auschwitz?

27.03.2018

Mesmo com toda a história da educação, literatura, arte, ciência, filosofia, etc, com o intuito  de desenvolver a nossa civilização, nenhuma forma de cultura ou expressão humana conseguiu impedir a bárbarie do extermínio de seres humanos em massa durante a segunda Guerra Mundial. Auschwitz foi o maior campo de concentração durante a segunda guerra mundial e causou aproximadamente a morte de 1,1 milhões de pessoas de forma sistêmica, rápida, organizada e padronizada. A busca pela "eficiência em matar" nunca tinha sido tão perseguida. Ainda não há um número exato de crianças assassinadas em Auschwitz, porém segundo dados do Unitade States Holocaust Memorial Museum aproximadamente 1.5 milhões de crianças foram exterminadas durante o holocausto.

 

 

 

Visto todo esse cenário de barbárie e que esse atos foram causados em sua maioria por pessoas consideradas normais, conforme relatos de Hannah Arendt em seu livro "Eichmann em Jerusalém", nesse texto ecoa uma pergunta célebre levantada por Theodor W. Adorno no século XX ao fazer sua reflexão sobre como o ser humano voltou a barbárie mesmo com todo o desenvolvimento intelectual e cultural da humanidade:

 

Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de por que hoje se tonou impossível escrever poemas” ADORNO

 

Adorno aborda a poesia, mas talvez possamos tratar essa questão de forma mais ampla, como continuar estudando, viajando, lendo, enfim, como continuar desenvolvendo atividades relacionadas ao desenvolvimento cultural da nossa sociedade sabendo que talvez tudo possa novamente terminar em um novo holocausto.

 

 Theodor Adorno  (1903 - 1969)

 

Viktor E. Frankl, psiquinalista que conseguiu sobreviver a Auschwitz (1944-1945) escreveu um livro em que relata seus pensamentos e sensações durante seu período no campo de concentração. Seu livro intitulado “Man`s Search for a Meaning”, nos mostra como toda a sua identidade foi lentamente destruída ao adentrar no campo. Saber que colegas que estavam no mesmo vagão ao chegar seriam rapidamente exterminados, ter todos os pelos arrancado do corpo, ter um número gravado na pele com um animal, utilizar a mesma roupa sem tomar banho durante 6 meses, realizar exaustivos trabalhos forçados no frio intenso, beber água apenas contida em um sopa servida uma vez ao dia, dormir em uma cama de madeira com 6 pessoas,  usar os próprios sapatos como travesseiro, tudo isso o levou ao seguinte pensamento: 

 

I became intensely conscious of the fact that no dream, no matter horrible, could be as bad as the reality of the camp which surrounded us (…)” V. FRANKL

 

Eu me tornei intensamente consciente do fato que nenhum pesadelo, por pior que fosse, poderia ser tão ruim como a realidade que vivíamos no campo (...)”

Tradução livre

 

Apesar de todo sofrimento de seu relato, Frankl nos fala que no campo de concentração uma das poucas atividades possíveis de se fazer sem ser vigiado era utilizar a liberdade do pensamento. Frankl continuou acreditando que um dia voltaria a ver sua esposa, amigos, família, a trabalhar em sua profissão, se alimentaria de guloseimas, beber água, tomar um banho de água quente, calçar calçados confortáveis, escrever, ou seja, mantinha a esperança de uma vida que poderíamos chamar de normal.

 

Viktor Frankl (1905 -1997)

 

Frankl ainda demonstra que mesmo em situação tão no limite havia um apelo pela arte no campo de concentração. Peças de teatro foram produzidas, pequenos textos escritos, desenhos em folhas amassadas, etc e até mesmo um senso de humor permaneceu. Essas eram ferramentas de autodefesa da consciência e por mais grotescas que as mesmas fossem, elas faziam que por um leve momento fosse esquecida a sensação de vulnerabilidade que todos se encontravam.

 

No dia 27 de Abril de 1945  Frankl é libertado por tropas americanas. Ao voltar para casa em Vienna, lhe é revelado que sua esposa, mãe e irmã  foram assassinadas em Auschwitz. Frankl supera seu desespero e tristeza e em 1946 volta a trabalhar como psicanalista e se torna diretor de um instituto de neurologia. No mesmo ano, em apenas 9 dias escreve "Man`s Search for a Meaning", que seria posteriormente publicado em 1997, ano de sua morte.

 

A visão de Adorno em um primeiro momento pode parecer extremamente pessimista, entretanto em obras posteriores Adorno defende que o principal objetivo de toda educação deve ser que Auschwitz não se repita. Mas tomando a liberdade e respondendo a Adorno... Sim! Não só é possível como é necessária que formas de expressão de arte continuem sendo desenvolvidas, não apenas pelo caráter estético mas também como forma de resistência a liberdade do pensamento de todo ser humano.

 

Equipe do Caos Cultural

 

Para continuar a promover a resistência a liberdade de pensamento "O Caos Cultural" esse ano trará uma nova série de artigos, livros, quadros, esculturas, etc, que foram desenvolvidos em situações limite com a #art&resistance. Vale a pena conferir! E para começar,  vejam abaixo quadros da amostra "Arte como forma de resistência em Auschwitz" exposição realizada na Polônia que foi divulgada pelo jornal "El País Brasil" em 16 de Outubro de 2017 de quadro realizados por presos em campos de concentração durante o holocausto:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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