De volta à Caverna

02.12.2017

 

Estresse. Depressão. Ansiedade. Falta de tempo. Infelicidade.Quantos substântivos podem colaborar com a definição da angústia moderna? 

 

É lugar comum discutir a falta de perspectivas atual, a insatisfação com o trabalho e a pressão aturada por aqueles que vivem em meio ao caos líquido que nos cerca, porém, e quando se nada contra a corrente? Quando se escolhe como fuga a aceitação? Quando se busca encontrar conforto voltando à caverna.

 

Platão, ao discutir sua metáfora sobre a caverna, dizia que uma vez que o ente se livrasse das amarras que o prendiam no interior desta, onde nascera e fora mantido refém, aos descobrir a verdade do mundo pleno, sentir-se-ia livre, tentando carregar outros indivíduos consigo. A consciência da realidade, a aquisição do conhecimento, a visão crítica do mundo, para o filósofo, concede ao pensador sua autonomia, ou como diria Kant, sua "maioridade".

 

Todavia, a autonomia de pensamento e o contato com a realidade podem se mostrar uma virtude difícil de digerir. Para o existencialismo sartriano, a liberdade é a condenação do homem que, ao tomar consciencia de suas capacidades, percebe a responsabilidades de seus atos e a reverberação de suas escolhas, tornando-se, assim, infeliz.

 

O conjunto de teses explicam a movimentação moderna supracitada. sendo cada vez mais vasto o número de cidadãos que, ao tomarem consciencia de seu papel no mundo, ao encararem o vazio de suas expectativas ou perceberem uma falha na trajetória escolhida, lançam mão da virtude da autonomia e buscam voltar à caverna. 

 

 

Certa vez, um amigo compartilhou uma experência vivida em seu ambiente de trabalho. Um funcionário motivado, de sorriso largo e convicções absolutas, ao ser indagado sobre sua vida social e afastamento de seu país de origem, teve alguns segundos de deslumbre. Observou os segredos que escondia de si mesmo e, por um momento, se entristeceu. Não queria estar na posição que se encontrava, por mais status e dinheiro que ganhasse. Não possuia amigos, já não tinha desejos, já não encontrava motivações. Era apenas uma peça de uma máquina maior, que funcionava de acordo com um complexo motor coletivo. Reclamou a solidão, praguejou contra a sociedade e sentiu a ausência do pai falecido há milhares de quilometros dali. Porém, logo tornou a endurecer seu semblante.

 

Não era forte o suficiente para encarar sua posição. Não era decidido a ponto de abandonar a segurança adquirida ao londe de uma vida e encontrar, verdadeiramente, seus propósitos e necessidades. Esqueceu de si mesmo e correu para seu posto, frente à parede, dentro da caverna.

 

Este não é um indivíduo ímpar, ele é um entre tantos, pois ser ciente é difícil, o mundo é torturoso e todos os pequenos detalhes e irregularidades de uma figura parecem sumir quando observamos apenas sua sombra projetada na parede de pedras de nossas cavernas. A decisão é tentadora.

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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