Alienação Consciente e o Esvaziamento Humano

05.11.2017

 

Não é segredo a crescente ocorrência de problemas psicológicos que afetam a sociedade hodierna. Estresse, síndrome de burnout e, em destaque, a depressão, tida como o mal do século XI e responsável por mais de 75 mil afastamentos do trabalho em 2016. Os casos são descritos como provenientes de um ritmo de vida e cobrança social intensos, contudo, podemos trazer à luz mais um possível motivador, ameno e, por vezes, imperceptível: a conciência da alienação.

 

Ao tratarmos da condição de “alienado” de um cidadão, não pensaremos sua definição primária, de característica do indivíduo alheio, louco, mas sim sua significação comercial: “ato de transferência de bens”. No ponto de vista de Karl Marx, a alienação é um dos principais vilões da sociedade, isso porque o cidadão trabalhador aliena o trabalho de seu patrão, tomando para si o serviço que, a priori, tratava-se de responsabilidade de outrem, sendo recompensado financeiramente por tal atribuição e, na sociologia de Marx, torna-se controlado pelo detentor dos bens.

 

Porém, tratando-se de uma ideia concebida em 1848, qual seria a implicação de tal atividade no crescimento atual da depressão? A conciência da posição de alienado.

 

A manutenção de nossa sociedade é abastecida pela sede de crescimento individual, ação pela qual o trabalho torna-se mais exaustivo e, ao mesmo tempo, mais desejado pelo vislumbre de evolução que este parece garantir ao homem. Somos ensinados, desde pequenos, que podemos alcançar tudo o que desejarmos. “Siga seus sonhos”, “trabalhe duro”, “nunca desista”, “o esforço garante o prêmio”, o que nos lança em uma corrida desenfreada, desde o processo de educação regular até a vida adulta. A busca por cursos profissionalizantes, faculdades, trabalhos, aprendizagem de línguas, horas extras, jornadas duplas, culminando na entrega total de vida às atividades profissionais. Não parece fugir muito do conceito estabelecido de resultado brilhante por doação integral que nos é ensinado, se não fosse a realidade de que, na maioria esmagadora das vezes, não trabalhamos para a promoção dos frutos que desejamos.

 

A dinâmica enlouquecida da vida moderna, a busca pelo crescimento e alcance dos sonhos poda as próprias raizes do sonho em si, alienando o trabalhador que percebe, em determinado momento de sua vida, a entrega total de suas capacidades ao sonho alheio. Suamos pelos bens alheios, madrugamos pelos objetivos alheios, nos sacrificamos por metas alheias. Os nossos desejos, os nossos sonhos e nossas metas permanecem empoeiradas, debaixo da cama, esperando o momento certo (inexistente) para, enfim, tomar forma. Forma que nunca se fará existente.

 

Ao longo dessa jornada exaustiva tomamos consciência da falácia do merecimento, descobrimos nosso papel de alienado, percebemos nossa incapacidade de controlar nossas próprias vidas, e diante de tamanha descoberta, a mente se destrói, restando apenas a força bruta do corpo que, em trabalho quase mecânico, garante o necessário para a sobrevivencia mínima da figura vazia que antes chamava-se indivíduo.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

     POSTS recentes:     
Please reload

© 2016 por O Caos Cultural.