• O Caos Cultural

Manuel Bandeira: O Sublime Ordinário


“Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra. Em ronco que aterra, Berra o sapo-boi: - "Meu pai foi à guerra!" - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Assim era aberta, há 95 anos atrás nos palcos do Theatro Municipal de São Paulo, a semana da arte moderna, com a participação de conceituados artistas modernistas, dentre eles o autor do trecho supracitado, Manuel Bandeira, e o poema: Os Sapos.

Nascido em Recife, em 1886, Manuel Bandeira foi professor, tradutor, crítico e poeta. Filho de engenheiro, mas de família tradicional de advogados, foi a São Paulo cursar Arquitetura na Universidade de São Paulo (1904). Todavia, teve seus estudos interrompidos pela tuberculose, tratando-se, primeiramente, em Teresópolis, e mais adiante no Sanatório de Clavadel, na Suiça, onde conviveu com Paul Eluard, poeta dadaísta francês e um dos pilares do movimento surrealista. Retornou ao Brasil em 1914, em decorrência da Primeira Guerra Mundial, e três anos mais tarde iniciou-se na literatura.

Seu estilo é simples e objetivo, de um lirismo forte que se mescla aos detalhes mais ordinários do dia a dia, criando um sublime no modesto e trazendo conceitos universais à sua poesia. Não raramente se valia de conceitos mal avaliados pela academia, criando poemas piadas com o que, até então, considerava-se vulgar. Não abandonou completamente a tradição, apesar da quebra dos paradigmas proposta pelo modernismo, usou formas rígidas como o soneto, além de composições como o rondó e a trova.

Sua obra é impregnada de uma certa melancolia, uma tentativa de reaver uma alegria infantil já perdida. Procura se encontrar em seu passado, fugir de sua realidade limitada pela tuberculose, olha o mundo de maneira grandiosa em seus detalhes mais insignificantes, encarando, a todo momento, a insegurança de sua condição física, que lhe expunha com mais força à perenidade e fugacidade de sua existência. Sua obra prima foi o livro Libertinagem, de 1930, que marca a versatilidade e o amadurecimento do poeta.

Abaixo, alguns poemas de Manuel Bandeira e um documentário intitulado “O Habitante de Pasárgada” (1959), presente no DVD "Encontro Marcado com o cinema de Fernando Sabino e David Neves".

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico: — Diga trinta e três. — Trinta e três… trinta e três… trinta e três… — Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. — Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? — Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Os Sapos

Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra. Em ronco que aterra, Berra o sapo-boi: - "Meu pai foi à guerra!" - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". O sapo-tanoeiro, Parnasiano aguado, Diz: - "Meu cancioneiro É bem martelado. Vede como primo Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos. O meu verso é bom Frumento sem joio. Faço rimas com Consoantes de apoio. Vai por cinquüenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A fôrmas a forma. Clame a saparia Em críticas céticas: Não há mais poesia, Mas há artes poéticas..." Urra o sapo-boi: - "Meu pai foi rei!"- "Foi!" - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". Brada em um assomo O sapo-tanoeiro: - A grande arte é como Lavor de joalheiro. Ou bem de estatuário. Tudo quanto é belo, Tudo quanto é vário, Canta no martelo". Outros, sapos-pipas (Um mal em si cabe), Falam pelas tripas, - "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!". Longe dessa grita, Lá onde mais densa A noite infinita Veste a sombra imensa; Lá, fugido ao mundo, Sem glória, sem fé, No perau profundo E solitário, é Que soluças tu, Transido de frio, Sapo-cururu Da beira do rio...

Poética

Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbedos O lirismo difícil e pungente dos bêbedos O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos Ganhei um porquinho-da-índia. Que dor de coração me dava Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão! Levava ele prá sala Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos Ele não gostava: Queria era estar debaixo do fogão. Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

     POSTS recentes:     

© 2016 por O Caos Cultural.