O Moderno Sincretismo Customizável

20.10.2017

 

 

Ao tratarmos a cultura de um grupo, principalmente focalizando as repercuções de suas crenças, não podemos isolar o sincretismo, isso porque tal prática (que se define como a fusão de elementos culturais, doutrinas religiosas ou filosóficas) se apresenta não em algumas, mas em quase todas práticas humanas, uma vez que estas se dão pelo contato e interação de diferentes povos em diferentes épocas.

 

Até mesmo as doutrinas e religiões mais tradicionais que conhecemos se deram pela união de diferentes outras crenças que, de forma orgânica, foram sendo absorvidas por grandes concentrações de pessoas. Datas cerimoniais equivalentes, alegorias reutilizadas, divindades recicladas, dentre tantas outras situações, são reflexos desse sincretismo que culminou na base de crenças como o cristianismo, judaísmo, islamismo, ou mesmo em exemplos mais recentes, como é o caso da umbanda.

 

Porém, percebemos como ponto coinscidente dentre todas essas crenças a ação do tempo em um coletivo, uma transformação, como dito acima, orgânica em seu contato para com os fiéis. Tal afirmação ganha força quando se compreende que a solidificação de um culto se dá pela crença indiscutível na verdade suprema de seu objeto de adoração. O tempo e a naturalização daquela filosofia são os responsáveis pelo surgimento dos dogmas, supremos e inquestionáveis, assim como na aceitação de sua divindade como única e verdadeira, caso contrário o viés racional de sua fé perderá o sentido.

 

Tal tese parece sólida, mas o que pensar, portanto, do recente sincretismo costumizável? O que a criação consciente de um corpo doutrinário diz sobre nossa geração?

 

Há uma crescente prática religiosa que se define pagã, ligação atribuída a aceitação das muitas divindades presentes em seu panteão, não pela identificação com alguma religião específica. Isso porque o próprio termo “pagão”, nesse sentido, foi cunhado para se referir aos politeístas não batizados no cristianismo, uma vez que, anteriormente, na definição clássica, referia-se a um conjunto de crenças nacionais, de um povo ou etnia, o que não corresponde ao conceito atualmente propagado.

 

 

O novo paganismo se dá por uma somatória de religiões que, únidas, criam um sincretismo moderno, totalmente customizado por seus adeptos. Em diversos grupos vemos diversos conjuntos de deuses e tradições distintas, que são absorvidos na mesma velocidade que novos adeptos, com novas idéias, se unem à essas seitas.

 

Tal únião é constante e pouco rara, pois atualmente a moda (se assim podemos dizer) remonta essa tradição “hippie” ou “holística” dos anos 60 em uma roupagem completamente nova, e quando digo “roupagem”, admito todos os significados cabíveis, pois é necessário pouco caminhar por entre lojas ou sites para se deparar com as mais variadas vestimentas voltadas para esse nicho.

 

A readequação de vários credos, de conceitos adaptados das grandes fés à tradições religiosas de minorias, é muito bonito e denota liberdade e certo crescimento espiritual, mas seria essa a real motivação? Qual o processo inconsciente que leva essas novas gerações a quebrarem o dogma, fator de extrema importância para a manutenção de um culto como verdadeiro?

 

 

Vivemos em um mundo de extrema liquídez, como já nos lembra Bauman. As velhas tradições caem, enxergamos a nós mesmos de forma distinta, com certezas flúidas, com possibilidades variáveis. Tudo no mundo é customizável, você pode montar seu plano de internet, TV e celular, você pode definir a cor e acessórios de seu carro, você pode escolher o método educacional de seu filho, você pode trazer novas pessoas ao seu círculo social ou deletá-las absolutamente com o simples apertar de um botão “add” ou “block”...

 

A pluralidade e, principalmente, o comodismo de nossa época se confunde com o próprio homem que, construído nesse universo, também se faz plural, em um misto de possibilidades, consumismo e doutrinação da contemporânea filosofia do “estar sempre bem”. Constrói o mundo que deseja à sua volta e, ao fazê-lo, elimina as obrigações contrárias ao seu bem estar.

 

Criar, conscientemente, uma pluralidade religiosa que não é fixa, podendo absorver ou expelir demais doutrinas no momento que lhe for cômodo, não só quebra a essência do que seria outrora o sinônimo da verdade dívina (ou seja, imutável, externa ao poder humano, que não admite interferências), mas também serve de válvula para a não aceitação dos vícios e pecados referentes a todas aquelas tradições acolhidas (uma vez que a simples coexistencia de algumas já culminaria no julgamento, ou mesmo na invalidação destas enquanto dogmáticas).

 

Não estamos criando um lindo panteão livre de amarras e preconceitos, estamos criando um ambiente confortável a nós mesmos, onde tudo que nos apatece é aceito, e aquilo que não nos convém, ignorado. Tudo muito bem maquiado pela liberdade espiritual, uma vez que é fé cega, sinestésica, que não admite comprovações empíricas, ou seja, o comodismo torna-se blindado.

 

Por fim, gostaria de dizer que não condeno a prática de quaisquer que seja a crença individual de um grupo, sendo ela tradicional, moderna, customizada ou não, apenas os convido a exercerem uma ação muito mais difícil do que se fidelizar à qualquer fé: a auto-investigação.

 

Qual é o papel da nossa sociedade na forma como nos relacionamos a crença? O que a criação de uma um novo sincretismo individual diz respeito à nossa construção como indivíduos? Libertamos ou amenizamos?

 

 

Há alguns anos, conforme nos lembra o prof. Leandro Karnal, a imagem de cristo deixa de ser melâncólica e torna-se alegre. Deus deixa de ser julgador e torna-se o “papai do céu”, seu amigo de todas as horas, quem sempre está lá por você, quebrando a idéia contrária que vigorava até o momento. Este foi um movimento de infantilização do cristianismo, de amenização de ações aos fiéis, assim como o auxílio dívino na vida financeira do cristão, durante o processo das reformas protestantes, tomou o lugar do céu aos pobres.

 

Todos foram movimentos ideológicos motivados pela necessidade histórica de um povo. Qual seria nossa necessidade atual?

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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