Quem são nossos Bárbaros?

03.10.2017

 Pessoas fogem dos tiros em Las Vegas

 

Dia 1 de outubro de 2017, Las Vegas. Rajadas de arma de fogo interrompem um festival que acontecia na cidade, causando tumulto e se transformando no maior e mais letal tiroteio ocorrido em território americano. 59 mortos e 527 feridos.  O autor dos disparos, um  homem de 64 anos chamado Stephen Paddock, sem antecedentes criminais, passagens policiais ou infrações de trânsito. Homem "normal", de acordo com os conhecidos, que não possuia ligação com fundamentalistas de quaisquer tipo. Porém, filho de um criminoso procurado pelo FBI, Patrick Benjamin Paddock,  diagnosticado como psicopata e responsável por transportar armas de fogo em roubos a banco.

 

 Corpos na Universidade Religiosa de Oikos


2 de abril de 2012. Sete pessoas são mortas e três feridas durante uma aula na Universidade Religiosa de Oikos. O atirador, One L Goh, de 43 anos é um ex-aluno que, de acordo com o chefe de polícia, agiu num impulso de raiva após ser expulso da escola, além de ter negado o seu pedido de restituição de um valor de 6 mil dólares referentes à matrícula do curso. De acordo com uma colega de classe, One L parecia alguém psicologicamente perturbado, mas nunca imaginariam que ele pudesse chegar a esse ponto.

 

 O atirador James Holmes


20 de julho de 2012. Rapaz de 24 anos se levanta em meio a uma sessão de cinema no Colorado e dispara contra o público, causando a morte de 12 pessoas e atentando contra a vida de outras 70. O Assassino, James Holmes, era estudante de medicina e estava se especializando em neurociência. De acordo com as investigações, o rapaz havia feito diversas anotações sobre o crime em uma pequena caderneta, todas endereçadas ao seu psiquiátra. A polícia também informou que o homem, visivelmente fora de si, se auto proclamava "o coringa" no momento de sua prisão, o que deixa claro seus desvios psicológicos.

 

 O estudante Cho Seung-Hui


6 de abril de 2007. O estudante Cho Seung-Hui, de 23 anos, mata 32 colegas e professores antes de se matar, na Universidade Virginia Tech. Após o atentado, a emissora de TV NBC recebeu uma correspondencia com mais de 40 minutos de gravação enviados pelo próprio assassino, explicando suas motivações. Cho se dizia injustiçado, dizia que as mortes eram culpa da sociedade, fazia referências religiosas e demonstrava ódio à riqueza. Há tempos o aluno tinha um comportamento anormal, tendo sido descrito como alguém com dificuldade de olhar nos olhos durante uma conversa, que pouco participava das aulas, sentado no fundo da classe com o rosto coberto, e até mesmo acusado de perseguir garotas pelo campus, fazendo ligações e enviando e-mails "perturbadores". Cho Seung era tratado por psiquiátras da Universidade.

 

Os quatro casos acima estão entre os piores atentados ocorridos em território norte americano, e mais do que isso, possuem uma grande semelhança entre eles: são causados por pessoas.


A afirmação acima pode parecer óbvia, mas se contrapõe a diversos outros casos de atentados, aqueles causados por homens de outras religiões, de outras etnias. Aqueles causados por "inimigos" culturais.


Quando observamos as manchetes que retratam os crimes supracitados, verificamos uma necessidade descritiva desses assassinos, uma busca por explicação cabível para motivar um ato tão cruel. Problemas familiares, problemas sociais, condições psiquiatricas. Não é dificil encontrar textos inteiros, em grandes mídias, que abordam toda a biografia desses homens, desde sua infância até o momento derradeiro do assassinato. O "nosso povo" não é bárbaro, ele é humano, ele tem desvios, ele tem motivações e até mesmo explicações para seus atos. Eles serão julgados e condenados, mas não viveremos com o peso da barbarie em nossa sociedade, pois somos civilizados, temos Deus e ordem.

 

 
Essa conceito é diretamente inverso ao pensamento impresso contra atentados causados por não ocidentais, por exemplo. Convido os senhores a lembrar do nome de algum dito "terrorista fundamentalista islâmico". São homens sem rosto e sem vida. Não há história por trás de seus atos, não há desvios psiquiátricos, não há espaço para a humanização. Só nos basta chamá-los muçulmanos, apelar ao terrorismo, à Jihad. São inimigos da liberdade, são destrutivos por natureza. Não possuem esposas, filhos, medos, esperanças. Não agem por raiva, vingança ou desespero. Não são homens, são ameaças.


Por fim, não desejo, com este texto, amenizar a ação de uns, ou demonizar a de outros, mas jogar luz sobre nossa capacidade de segregação inconsciente, de desumanização do outro, de distanciamento pessoal. 


A palavra "bárbaro" provém do grego antigo, βάρβαρος, e significa "não grego, sendo, depois, conceituada os romanos como "aqueles que não falavam latim". Nada mudou, pensamos, hoje, que bárbaros são os agentes de atos abomináveis, todavia apenas quando esses agentes não estiverem dentre nós.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

     POSTS recentes:     
Please reload

© 2016 por O Caos Cultural.