Íon: Poetas e Atores

28.09.2017

 

(Arte, do latim "Ars", do grego "Tékne" = Técnica.)

 

Na Grécia Antiga a poesia tinha valorosa função educativa, banida, posteriormente, por Platão na obra República. O filósofo considerava os conteúdos poéticos incoerentes à formação de guerreiros; se continuassem a receber essa educação resultariam em homens covardes, mesmo que os poetas fossem considerados sábios assim como os políticos, artesões e técnicos. O tema pode ser melhor explicado na obra platônica Íon

 

Íon, famoso  e premiado rapsodo, ou seja, homem que faz leituras de poemas de autoria de terceiros e sem auxílio musical, se dá com Sócrates e logo inicia-se uma discussão: poderia Íon recitar não só Homero, encenação pela qual o homem é reconhecido, mas também outros poetas, como Hesíodo ou Arquíloco?

 

Ao negar essa capacidade, motivado pela grandiosidade de Homero perante os outros dois poetas,  Sócrates desenvolve a argumentação de que tal limitação se dá não por um conhecimento técnico de Íon, ou seja, suas ações não podiam ser consideradas arte, mas por uma inspiração divina. Tal conclusão ultrapassa a esfera do microcosmo do rapsodo, e pode ser discutida no macrocosmo poético, quando Platão afirma a inaptidão dos poetas como educadores.

 

Mesmo que tido como o melhor dos poetas, poderia Homero de fato cantar sobre a guerra e a vida do guerreiro sem não ter jamais se dedicado à espada? Para Platão é aí que se encontra o problema. Mesmo Homero seria um homem inspirado pelas Musas, não possuindo nenhum conhecimento técnico sobre o assunto tratado. Sua "arte" não englobaria seu tema. 

 Sócrates em "A morte de Sócrates", de Jacques-Louis David

 

Se trouxermos para nossos dias, o ofício do escritor e do ator se encaixam perfeitamente aos de Homero e Íon, é onde conseguimos, claramente, compreender o pensamento do filósofo. Até que ponto as palavras do escritor representam um conhecimento real do produto descrito? Até que ponto consideramos os atores como detentores do assunto encenado?

 

Fica claro que a ideia parte de um ponto de visto, hoje, já ultrapassado. Inspiração é um conceito desacreditado entre os artistas. Trocamos sua influência pelo resultado de suor e estudos. A arte do artista cênico está em representar o mundo por meio de seu corpo, assim como a arte do escritor se cria na capacidade de expressar, em palavras, esse mesmo mundo.

 

Dividimos as tarefas. Educadores, artistas, militares... Conceitos que se mesclavam no passado, hoje possuem milhas de distancia entre si, o que aumenta a eficácia de suas ações.

O poeta ainda ensina, o ator ainda lhe abre as portas do mundo, mas de uma forma subjetiva e carregada de liberdade.

 

Leia a obra Íon de Platão AQUI

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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