O Poeta e a Lagartixa

21.09.2017

 

 

Se pensarmos em um escritor sem meios termos, com certeza este seria Álvares de Azevedo. Autor de obras tão marcantes como Macário, Noite na Taverna e Lira dos Vinte anos, o jovem poeta paulistano parece projetar uma imagem fantástica  de desmesura poética, quer por culpa do próprio autor, quer por culpa da crítica, ou até mesmo pelas expectativas de nosso próprio imaginário.

 

Seguindo a linha dos extremos, é difícil encontrarmos um leitor que "ature" Álvares de Azevedo, alguns o amam, outros não o suportam, e pela soma desses fatores tão opostos, podemos sentir a força de sua obra. E não é só no âmbito das críticas que se destaca essa bipolaridade (se é que podemos chama-la assim), na verdade o mais importante, ao menos para estas linhas que se seguem (afinal, este é o foco do artigo que temos em mão), é como se dá os opostos inseridos dentro da obra de Álvares de Azevedo. "Opostos" estes chamados "binomias".

 

Para a exposição desta binomia usarei o poema A Lagartixa, do Livro "A Lira dos Vinte Anos", poema este presente na segunda das três que compõe o livro. Porém, antes de iniciarmos uma contextualização maior do assunto, gostaria de salientar, e desta forma comprovar, o objeto de estudo que pretendo expor com este artigo, me utilizando das palavras do próprio autor em seu prefácio:

 

"A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces."

 

Devemos, primeiro, compreender o trabalho de Álvares de Azevedo. Podemos repartir sua obra (tanto em poemas quanto em prosas) em diversas "facetas" do autor: O fantástico e o gótico, que são tão abundantes em suas prosas, o inocente (mesmo que propositalmente inocente) e íntimo da primeira e segunda parte da Lira dos Vinte anos, e, o que nos interessa mais neste momento, a "alegria saudável, graciosa, e a dosagem exata de humor", nas palavras de Antonio Candido, de que é formada a segunda parte da Lira.

 

A importância deste humor em uma obra romantica é muito bem grifada por Marlene de Castro Correia, que no livro Poesia Sempre diz: "[...] o humor confere à poesia de Álvares de Azevedo uma feição ímpar no Romantismo brasileiro e dele advém parte de seu poder de sedução sobre a sensualidade moderna".  Antonio Candido vai mais fundo em seu livro Formação da Literatura Brasileira: "As seis poesias da série Spleen e Charutos formam um conjunto excepcional [...] podendo algumas serem consideradas pequenas obras primas do gênero, como Solidão e A Lagartixa".

 

Nos utilizando um pouco mais das palavras de Marlene de Castro, podemos entender a formação deste gênero humorístico da poesia de Álvares de Azevedo na utilização do prosáico, do espaço comum ao homem, do cotidiano, etc. É uma poesia simples, do pequeno, e que por este motivo cria uma atmosfera excepcional em torno de si e uma compreensão muito maior por parte de quem a lê. Mas não podemos dizer que esta obra é desprovida de intensões maiores ou "solta" em meio ao universo literário, muito pelo contrário, o autor mantém sempre uma conversação direta com tópos romanticos.

 

Portanto, com esta breve contextualização da obra, acredito ser possível focarmos diretamente no poema escolhido:

 

A Lagartixa

 

A lagartixa ao sol ardente vive

E fazendo verão o corpo espicha:

O clarão de teus olhos me dá vida,

Tu és o sol e eu sou a lagartixa.

 

Amo-te como o vinho e como o sono,

Tu és meu copo e amoroso leito...

Mas teu néctar jamais se esgota,

Travesseiro não há como teu peito.

 

Posso agora viver para coroas

Não preciso no prado colher flores;

Engrinaldo melhor a minha fronte

Nas rosas mais gentis dos teus amores.

 

Vale todo um harém a minha bela,

Em fazer-me ditoso ela capricha;

Vivo ao sol de seus olhos namorados,

Como ao sol de verão a lagartixa.

 

 

Logo ao iniciarmos a leitura do poema, somos tomados por certo desconcerto causado por termos tão estranhos à poesia romântica, como por exemplo a lagartixa. É deste estranhamento que, ao continuarmos lendo, percebemos uma crescente entonação de humor gracioso mesclado a alguns temas comuns dos autores da época.

 

Com uma análise bem superficial, na primeira estrofe identificamos um tópos romãntico muito utilizado, a exaltação da mulher amada, mas todo o crescimento emocional proposto neste tema é rompido no último verso seguinte, quando o poeta diz  "Tu és o sol eu sou a lagartixa". A comparação traçada é cômica quando se constrói por meios tão provincianos quanto uma lagartixa. O amor não eleva o homem, ele lhe faz aparentar a condição de um pequeno réptil.

A partir daí nos parece que o poeta começa a desfazer o objeto humorístico quando constrói outras temáticas romanticas, como o culto ao ócio  em: "Amo-te como o vinho e como o sono,/Tu és meu copo e amoroso leito..." e "Travesseiro não há como teu peito.", ou mesmo no engrandecimento das características da mulher: "Nas rosas mais gentis dos teus amores". Porém, a última estrofe descontrói novamente o objeto romântico, "Vivo ao sol dos seus olhos namorados;/como ao sol de verão a lagartixa."

 

Mas em uma leitura mais atenta, é possível traçar uma grande variedade de binomias nestas quatro estrofes, desta forma trabalhando a aproximação de opostos.

 

A primeira grande binomia moldada por Álvares de Azevedo é a aproximação Homem x Animal, o poeta que ama e a lagartixa que ao sol faz verão, e desta binomia forma-se outra, o "calor do sentimento amoroso" x "o sangue frio do réptil", afinal, a escolha do objeto de comparação é bem específico para o autor. Há também a oposição da "grandiosidade do amor romantico" X "mesquinhez da lagartixa". Podemos até traçar mais uma oposição entre o próprio sol e sua importância para ambas as criaturas: para a lagartixa seria um provedor biológicamente necessário no que diz respeito à obtenção de energia, já para o poeta, vem carregado de preguiça como se o calor deste seu amor lhe tirasse a energia e o enxarcasse de sono e preguiça.

 

Mas não é apenas nos termos utilizados que se constrói a binomia, o poema por si só aproxima opostos, se pensarmos exatamente na mescla desses objetos comuns ao romantismo tradicional e da atmosfera graciosa e bem humorada da poesia presente.

 

Portanto, temos um grande exemplo do fenômeno binomico da poesia de Álvares de Azevedo no poema A Lagartixa, onde o leitor se depara com extremos opostos tão figurativos quanto morais, tão provincianos quanto altamente críticos e. desta forma, o poeta cria, como diria Antonio Candido, "pequenas obras primas", que dialogam com todo um cenário literário. Nada menos esperado vindo de um poeta sem meios termos.

 

Deseja ler "Lira dos Vinte Anos" de Álvares de Azevedo gratuitamente? Clique aqui.

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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