A Palpitante Interação Ególatra

25.07.2017

 

 

 

Emily Dubberley, escritora britânica autora do livro Brief Encounters: The Woman’s Guide to Casual Sex definiu a busca moderna por sexo como “o pedir de uma pizza, você se conecta à internet e encomenda uma genitália”. Afirmação, a primeira vista, absurda, mas que se mostra acertada quando olhamos para alguns dos mais famosos aplicativos de relacionamento da atualidade.

 

Líder da concorrência, contabilizando mais de 10 milhões de downloads, o Tinder aguça a curiosidade e o desejo de seus usuários com uma propaganda incisiva: “o aplicativo mais sexy da internet”, “encontre alguém agora”, “dê um match!”, publicidade digna de comerciais de TV. Mas o que essa gama de usuários somada a esse marketing massivo diz respeito à forma como nos relacionamos hodiernamente?

 

 

 

O sociólogo Zygmunt Bauman, em seu texto “Sexo Virtual”, presente no livro “44 cartas sobre o mundo líquido", comenta a perda de um caráter de importância que esse novo estilo de se relacionar sofre por influência tecnológica. De acordo com o autor, aquilo que dá tons especiais a uma relacionamento, a dificuldade da aproximação, o nervosismo da primeira experiência sexual, o caminhar lento e apreensivo de seus desbravadores que, pela dificuldade encarada em conquistar o pretendido, tende a criar um laço afetivo muito maior com seu estimado parceiro, seriam as principais perdas e, consecutivamente, principais defeitos da liquidez da afetividade (ou do desejo).

 

Porém, podemos  questionar  a imparcialidade de tal opinião autoral se nos debruçarmos sobre outro texto do mesmo livro, "No Rastro da Geração Y". Neste, Bauman especifica como característica geracional a pouca importância atribuída a antigos padrões sociais. O trabalho, por exemplo, que antes se fazia o atributo mais importante na vida de um homem, hoje é menos importante, ficando atrás de outras atividades como diversão, viagens, satisfação pessoal, etc. O porquê dessa mudança? O trabalho deixa de ser uma âncora e se torna um meio flexível de alcançar seus desejos. Bom, se tal pensamento é típico de nossa geração, por que não se aplicaria aos relacionamentos?

 

 

 

A busca por relacionamentos momentâneos, sexo sem compromisso, a escolha por não manter “especial” uma interação que já nasce com o propósito de ser perecível, nada disso é motivado pelo surgimento de aplicativos ou pela influência tecnológica no meio social, acredito que seja exatamente o contrário. Uma nova forma de enxergar o mundo, mais voltada a si, mais egoísta, talvez até mais hedônica, faz com que a interação afetiva se faça, também, um artifício para alcançar a concretização de desejos momentâneos. O outro torna-se material, os aplicativos de relacionamento e os sites voltados ao namoro virtual se assemelham a vitrines que expõem produtos para sua satisfação pessoal.

 

Mas afinal, essa prática pode ser encarada de forma positiva ou negativa? Não acho que possamos concretizar um resultado absoluto para tal indagação.

 

Apesar de podermos questionar a veracidade ou importância desses relacionamentos, como faz Bauman, podemos também apontar para uma nova visão de mundo, mais realista, menos idealizada, que abandona padrões românticos surgidos em meados do século XVIII. As pessoas aceitam a temporalidade, se satisfazem em obter e atribuir felicidades puramente momentâneas. Caem velhas convenções e instituições.

 

Só o tempo nos dirá se esses relacionamentos ególatras são, de fato, criação de um ideal contemporâneo ou um erro crasso no comportamento social.   

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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