Você, um Gregor Samsa.

20.07.2017

 

Escrita em 1912, ao longo de apenas 20 dias de produção, e publicada em 1915, A Metamorfose de Franz Kafka é uma novela amplamente conhecida na literatura mundial.


“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.” 


O horror, o absurdo, o surreal. Muito se pode pensar da representação de Kafka sobre a transmutação de sua personagem, porém a verdade se dá na proximidade desagradável que esta protagonista tem de todos nós, leitores kafkianos ou não.


Caixeiro viajante, Gregor Samsa abandona todos os seus desejos e vontades para se ater a um trabalho pouco gratificante mas suficientemente estável, podendo lidar com as dívidas e custos de sua família. O ato de abandono, pré-narrativo, de seus sonhos e, por que não, de sua identidade como ente é o principal gatilho dessa transformação horrenda. Samsa não é, de fato, um inseto gigante. Não possui, literalmente, a forma de uma barata ou um besouro rola-bosta, é, na verdade, um homem que já não se reconhece, uma monstruosidade que perde sua essência diante de si e de sua família.


Sua transmutação não é repentina, é continua e lenta, suficientemente silenciosa para não ser percebida até que esteja completamente concluída, assim como um anfíbio que morre na água fervente por não perceber o aquecimento gradual. As maçãs atiradas pelo pai e que lhe traziam tanta dor, alojadas no vão de suas asas não são de fato maçãs, são rancores familiares. 

 

 Franz Kafka


"De nada servia continuar a fugir, uma vez que o pai resolvera bombardeá-lo. Tinha enchido os bolsos de maçãs, que tirara da fruteira do aparador, e atirava-lhas uma a uma, sem grandes preocupações de pontaria. As pequenas maçãs vermelhas rebolavam no chão como que magnetizadas e engatilhadas umas nas outras. Uma delas, arremessada sem grande força, roçou o dorso de Gregor e ressaltou sem causar-lhe dano. A que se seguiu, penetrou-lhe nas costas. Gregor tentou arrastar-se para a frente, como se, fazendo-o, pudesse deixar para trás a incrível dor que repentinamente sentiu, mas sentia-se pregado ao chão e só conseguiu acaçapar-se, completamente desorientado."


Gregor Samsa acorda transmutado num gigantesco inseto, sofre, se assusta, se esconde, mas seu verdadeiro sofrimento se dá pelo atraso ao trabalho motivado pela inconveniência dessa situação incomum.


Todavia, ele não está sozinho, todos nós, quando distantes de nossos sonhos, arrasados pela nossa realidade, soltos de nossos próprios eixos, numa manhã qualquer, sem que possamos perceber, após sonhos turbulentos, se encararmos atentamente nossa própria figura frente ao espelho, confrontaremos um gigantesco inseto.

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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