Carta aos Médicos-chefes dos Manicômios

28.06.2017

 

 

Antoine Marie Joseph Artaud, mais conhecido como Antonin Artaud (Marselha, 4 de setembro de 1896 — Paris em 4 de março de 1948) foi um ator, poeta, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro francês. Ligado ao surrealismo, foi expulso do movimento por ser contrário ao partido comunista, uma vez que suas aspirações se davam ao anarquismo.

 

Após alguns incidentes em 1937, Artaud é tido como 'louco' e internado em diversos manicômios franceses, sendo um desses o Hospital Psiquiátrico de Rodez, local onde o artista estabelece intensa correspondência com seu médico responsável, Dr. Ferdière.

 

Apesar de incentivar a produção artística de Artaud, o médico julgava sua condição psiquiátrica delirante, o submetendo a tratamentos como os de eletrochoque que foram extremamente prejudiciais tanto ao seu corpo quanto a sua mente, que passa a não conseguir se manter linear nos escritos posteriores.

 

 

 

Algumas linhas interpretativas constatam nas correspondências entre paciente e médico não apenas o reflexo de uma mente que se perde em meio a abusos e violências, mas também a possível relação com a visão do homem, particular, que se vê reprimido pela sociedade que o julga e condena.

 

Antonin Artaud é um dos grandes nomes do teatro do século XX, tendo como uma de suas obras mais relevantes “O Teatro e seu Duplo”.

 

Segue, abaixo, uma das cartas de Artaud ao Dr. Fedière, assim como um trecho de seu poema “Qui Suis-Je”:

 

 

 

 

Carta aos Médicos-chefes dos Manicômios (1925)
                                                   
Senhores,


As leis e os costumes vos concedem o direito de medir o espírito. Essa jurisdição soberana e temível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que luzes sobrenaturais. O processo da vossa profissão já recebeu seu veredito. Não pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência das doenças mentais. Mas para cada cem supostas patogenias nas quais se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce, as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de palavras?


Não nos surpreendemos com vosso despreparo diante de uma tarefa para a qual só existem uns poucos predestinados. No entanto nos rebelamos contra o direito concedido a homens – limitados ou não – de sacramentar com o encarceramento perpétuo suas investigações no domínio do espírito.


E que encarceramento! Sabe-se – não se sabe o suficiente – que os hospícios, longe de serem asilos, são pavorosos cárceres onde os detentos fornecem uma mão-de-obra gratuita e cômoda, onde os suplícios são a regra, e isso é tolerado pelos senhores. O hospício de alienados, sob o manto da ciência e da justiça, é comparável à caserna, à prisão, à masmorra.


Não levantaremos aqui a questão das internações arbitrárias, para vos poupar o trabalho dos desmentidos fáceis. Afirmamos que uma grande parte dos vossos pensionistas, perfeitamente loucos segundo a definição oficial, estão, eles também, arbitrariamente internados. Não admitimos que se freie o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico quanto qualquer outra seqüência de idéias e atos humanos. A repressão dos atos anti-sociais é tão ilusória quanto inaceitável no seu fundamento. Todos os atos individuais são anti-sociais. Os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura social; em nome dessa individualidade intrínseca ao homem, exigimos que sejam soltos esses encarcerados da sensibilidade, pois não está ao alcance das leis prender todos os homens que pensam e agem.


Sem insistir no caráter perfeitamente genial das manifestações de certos loucos, na medida da nossa capacidade de avaliá-las, afirmamos a legitimidade absoluta da sua concepção de realidade e de todos os atos que dela decorrem.


Que tudo isso seja lembrado amanhã pela manhã, na hora da visita, quando tentarem conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais, reconheçam, os senhores só têm a superioridade da força.


Antonin Artaud


[Escritos de Antonin Artaud, tradução, notas e prefácio de Claudio Willer, L&PM, 1983 e reedições]

 

 

 

Qui Suis-Je (Português)

 

“Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.”

 

 

Qui Suis-Je (Francês)

"Qui suis-je ? 
D’où je viens ? 
Je suis Antonin Artaud 
et que je le dise 
comme je sais le dire 
immédiatement 
vous verrez mon corps actuel 
voler en éclats 
et se ramasser 
sous dix mille aspects 
notoires 
un corps neuf 
où vous ne pourrez 
plus jamais 
m’oublier."


 

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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