Vigiar e punir... e gerenciar

Modelo Panóptico ou A Casa de Inspeção de Jeremy Bentham - Sistema de prisão que previa a observação de todos os prisioneiros através de um controle central. Entretanto, nenhum prisioneiro saberia se era vigiado (Ver sem ser visto)

 

Um primeiro conceito que precisa ser desconstruído é a velha crença em que houve um período no passado do Brasil em que a violência era combatida e que a paz reinava. Um dos fatores que podem influenciar a esse tipo de pensamento está muito mais relacionado a falta de acesso a informação da população brasileira entre os anos 60 e 80 do que a real existência desse “paraíso”. Um adendo a esse ponto é destacar que tivemos nossos anos de “chumbo” (ditadura militar e civil) e como na maioria das ditaduras (independente do país) há sempre uma grande tendência de seus ditadores controlarem a informação ou de certa forma manterem uma imagem de que tudo está sob controle.

 

Ainda sobre esse tema, é importante destacar que parte da sociedade normalmente é conivente  ao que chamaremos aqui de “processos de esquecimento cultural”, evitando assim a discussão ou a contestação de fatos históricos que possam ser desconfortáveis ou vergonhosos para sua nação. Pelo mundo ainda é possível constatar demonstrações contrárias a esse processo de esquecimento cultural, como por exemplo a Alemanha que até os dias de hoje ainda mantêm os campos da concentração e os dados sobre o holocausto, como uma forma de preservação da história do seu povo e um alerta para que as atrocidades perpetuadas durante a 2ª Guerra mundial nunca mais se repitam.

 

Foto do Campo de Concentração de Dahau - Munich / Alemanha - Na frente uma urna contendo as cinzas  de um prisioneiro desconhecido. Ao fundo escrito em Yiddish usando letras hebraicas, e em francês, inglês, alemão e russo as palavras:

"Nunca mais"

 

Infelizmente, sempre haverá uma parcela da sociedade defensora dos controles e abusos do Estado a fim de combater a violência. Conforme previsto por Michel Foucault em seu livro “Vigiar e Punir”, abrir mão de nossa própria liberdade como indivíduos, em favor de uma sociedade dominada pelo Estado totalitário, pode ser para alguns infelizmente a única resposta a seus medos, criando assim a falsa sensação de segurança. 

 

Entrentanto, até mesmo esses controles sociais impostos pelo Estado vêm perdendo força e espaço para uma nova modalidade, a segurança atrelada a iniciativa privada. Podemos dizer que o capital reconheceu na fragilidade dos laços humanos (conforme explorado por Zygmunt Bauman em “O Amor Líquido”) em combinação com um Estado de crise a oportunidade perfeita para a criação do seu novo mercado, chamado de segurança privada. É impossível deixar de notar a "enxurrada" de novos condomínios pelas cidades, a expansão das câmeras de segurança, alarmes, carros blindados, etc, fora o mercado de empresas de risco, como seguradoras e agências funerárias. Há todo um mercado altamente aparelhado para atender as necessidades dessa população fragilizada.

 

 

 

É importante notar que praticamente não há mais por parte do Estado, a real necessidade de se pensar e agir para se desenvolver uma sociedade ou um mundo sem violência (mesmo que essa idea seja utópica ou imaginativa, aqui no sentido de busca de um ideial). Há uma certa preferência em pensar apenas no aqui e no agora e por consequência que a violência está diretamente atrelada a sociedade. Ao final, essa mesma violência só pode ser combatida através da cultura de “Vigiar e Punir” e gerenciada pela inicitiva privada para diminuir os riscos de você ou eu sermos afetados por ela. Conforme citado por Vladimir Safatle durante uma apresentação: "a violência hoje não precisa ser eliminada pelo Estado, ela precisa apenas ser gerenciada". Nas minhas palavras, há mais preocupação em manter a máquina rodando do que pensarmos em uma nova maneira para buscarmos diferentes possibilidades e resultados.

 

Nos manter imersos em uma atmosfera de violência e insegurança é uma forma de nos condicionar como consumidores da indústria da violência, resta saber quais serão os efeitos a longo prazo em uma sociedade que de forma contínua está pagando para diminuir a sua liberdade  e construindo suas próprias prisões.

 

 

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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