As novas zonas de confortos instrumentalizadas ou as bolhas sociais

 

Não é muito claro quem definiu o conceito de zona de conforto, porém esse termo vem sendo utilizado pela psicologia para identificar situações em que nós humanos estamos habituados a realizar, seja a rotina que criamos para ir ao trabalho, ao acordar (hoje em dia a primeira consulta as redes sociais), seja na forma que escovamos os dentes ou até mesmo como emitimos a nossa opinião sobre determinados assuntos que acreditamos dominar.

 

De forma geral, a zona de conforto está diretamente ligada a nossa capacidade de conformação com o contexto em que vivemos, podemos dizer que é como nossos pensamentos se configuram e acomodam em nossas mentes. Apesar de algumas vezes esse conceito ser encarado como algo perjorativo, não podemos negar que todos temos as nossas zonas de conforto (situações que acreditamos dominar), afinal seria muito difícil que a todo momento em nossas vidas tivessemos reflexões criticas sobre nossas atitudes e ações.

 

Freedom Hope - Painted by Oleg ­­Shuplyak

 

Todo momento em que sentimos que a nossa zona de conforto possa ser abalada por algo ou alguém, normalmente temos inconscientemente uma atitude de negação, afinal uma nova ideia pode ferir as bases do nosso pensamento consolidado (principalmente ao chegarmos a uma idade adulta). Esse fechamento para o mundo exterior, talvez traga um conforto e crie barreiras para opiniões e/ou ideias contrárias, mas também não podemos negar que ela faz parte da natureza humana e que talvez a negação de novas ideias possa ser encarado como um tipo de resistência dos nossos valores. Porém, ainda sabendo disso, sempre houve a importância e a necessidade do debate e do contraditório para a construção da nossa  civilização e que a mudança deve ser encarada como algo necessário e incontrolável.

 

Entretanto, no mundo pós-moderno, podemos dizer que essa mesma zona de conforto vem se tornando mais instrumentalizada, pois agora traz consigo não apenas os nossos pensamentos, mas há uma rede de grupos dentro das redes sociais, na qual são criados grandes conglomerados de pessoas que pensam da mesma forma. Para atenuar ainda mais essa situação, essas redes tem a capacidade de sugerir páginas notícias amizades eventos fotos lugares etc. de acordo com o perfil do usuário, para que sempre lhe seja confortável e que sinta que seus valores convergem com os valores de toda uma comunidade. Lentamente, vamos excluindo do dia-a-dia do índividuo ideias contrárias, construindo assim uma visão unilateral de mundo, como se fosse uma espécie de bolha social que não enxerga o todo.

 

 Kid Blowing Bubbles - Painted by Banksy

 

Essas bolhas sociais mantém os individuos diariamente conectados a tudo que compactue com seus valores, deixando o contraditório muito distante. Como consequência, como toda bolha, há uma grande fluidez no pensamento e ao mesmo tempo um grande esvaziamento de conteúdo dos grupos, que vagam sem rumo acreditando na horda sem líder. Apesar disso, há ainda uma construção de identidade do índivíduos perante as bolhas, o que aumenta a zona de conforto do indíviduo, ou seja, a bolha de forma alguma pode ser estourada ou questionada. Assim cria-se uma grande resistência a capacidade de debater, o que por consequencia torna convidativa abordagens mais radicais ou até mesmo a violência. Tavez quando indivíduo chega a esse ponto, possa significar que o mesmo só encontra significa ou realmente crê em sua bolha a partir da eliminação do contraditório. Eliminar o outro reafirma ainda mais a minha posição e valores.

 

É preciso encarar que há realmente um grande problema ao acreditar que seus valores e crenças sejam realmente os únicos interessantes e verdadeiros e que a única forma de continuar acreditando neles seja eliminar qualquer força contrária. Ainda é extremamente imprevisível determinar exatamente quais serão as consequências de vivermos em bolhas sociais, mas alguns fatos já podem ser observados em nossa sociedade:  é cada vez mais difícil ouvir o outro, debater política e religião e dialogar sem medo de ser rotulado. Para terminar, deixo aqui  abaixo uma frase do filme “The clash”:  

 

“É o sentido do tato. Numa cidade normal, você anda, esbarra nas pessoas; as pessoas trombam com você. Em Los Angeles ninguém te toca. Estamos sempre atrás do metal e do vidro. Acho que sentimos tanta falta desse toque, que batemos uns nos outros só para sentir alguma coisa.”

 

Dentro das bolhas sociais, será possivel ainda sentir alguma coisa pelo outro?

 

 Crash (2004) - co-written, produced, and directed by Paul Haggis

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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