A Moderna Exclusão da Cultura

13.03.2017

 

 

Primeiramente, gostaria de informar que as linhas que se seguem possuem teor de livre pensamento muito mais do que estudo, tendo se estruturado com base nos ensinamentos de Zygmunt Bauman acerca do Mundo Líquido, em falas do professor Leandro Karnal e em experiências próprias, obtidas com observações e diálogos ocorridos no interior das salas de aula com alunos do quinto ano ao sétimo ano.

 

Há anos, quando este que vos escreve ainda era um ser dotado de jovialidade, energia e poucas experiências, num período ainda pré adolescente em que certezas me eram desconhecidas e situações despercebidas, lembro-me de gozar de alguns hobbies pouco apreciados pelos pais e educadores. Passatempos ‘inúteis’ como, por exemplo, as HQs e o famigerado videogame.

 

Em meados dos anos 90, junto á ascensão deste tipo de jogo eletrônico, vieram os julgamentos. Condenações ligadas ao desvirtuamento das mentes infantis que caminhavam ao ócio criativo. ao esvaziamento intelectual, ao vício e, até mesmo, à violência, mimetizando a possível ação reprovável de um amontoado de pixels animados.

 

Logicamente, tais julgamentos não se sustentavam, uma vez que sua lógica fora conceituada por mentes cansadas, vozes de poder que não conheciam aquela nova tecnologia e, como todo ente em posição de poder que vislumbra a chegada do desconhecido, coloca-se em posição de defesa e repele a ameaça.

Porém, logo se provou que esses tais videogames traziam uma série de benefícios a seus jogadores, tais quais o aumento na velocidade de raciocínio, melhora na coordenação e aprimoramento das capacidades de atenção, além de meu benefício favorito: a aquisição de um novo passatempo culturalmente válido. Devemos lembrar que o storytelling presente nos jogos são narrativas, por vezes extremamente bem elaboradas, que podem servir como passo inicial rumo à busco por novas expressões deste gênero, como a literatura, teatro, cinema, dentre outros.

 

Toda a ação de repulsão a estas e tantas outras novidades são, na verdade, um misto de medo inicial e de certo idealismo temporal falso. Conforme nos lembra o professor doutor Leandro Karnal, tal prática de glorificação do antigo não representa uma lembrança real, mas uma tentativa de re-significação do passado frente às mazelas de um mundo atual que, aos poucos, te deixa para trás. E lembremos, todo defensor do passado-glorioso já fora, também, vítima das mesmas palavras, e num contexto cultural podemos lembrar das desfeitas ao cinema e aos desejo de atuar, às novas batidas músicas, entre tantas outras práticas rechaçadas em suas épocas de destaque.

 

Sendo esta uma prática recorrente a cada nova geração e nova tecnologia, já é de se esperar que, hodiernamente, tais palavras estejam sendo atiradas contra ouvidos mais jovens, e desta vez o inimigo em comum é a internet.

 

A exposição privada nas redes sociais, o compartilhamento de informações falsas, a supervalorização de webcelebridades, todas estas são novas causas a se questionar, ao menos por aqueles mais saudosistas. Mudanças enormes que acompanham os saltos enormes das novas descobertas tecnológicas, construindo novas relações interpessoais, novas formas de expressão, novas expectativas e identificações. uma modificação que cria novos sujeitos, assim como comentado por Bauman em seu conceito nomeado “Mundo Líquida”, mundo que não se faz mais por bases sólidas, mas sim fluidas, mutáveis, re-organizáveis. Mundo em que o corpo e a mente, por vezes (para não se dizer “constantemente”) não habitam o mesmo lugar graças ao poder da conexão perpétua, conexão esta que cria uma relação constante entre as pessoas, que estão sempre à disposição de uma mensagem, sempre a espreita de um like, etc.

 

Porém, o que busco apontar é algo que tenho percebido em jovens de até 13 anos e que vai muito além das buscas por novas maneiras de entretenimento, como aquelas ditas acima, é  uma nova expressão de estilo de vida que parece, ao menos a princípio, excluir toda forma de cultura e diversão até então conhecida, que vai contra toda a busca das gerações anteriores.

 

Questionando alguns alunos, como forma de compreender melhor seus mundos e particularidades, constatei naqueles cuja idade não ultrapassava a informação supracitada, que os velhos hobbies parecem estar sendo abandonados exponencialmente.

 

A pergunta era simples: o que fazem em seu tempo livre?

 

Sem cinema. Sem quadrinhos. Sem futebol ou qualquer outro esporte. As músicas de que gostam já não representam uma paixão que guarda nomes de bandas e de seus integrantes, assim como a lista das 10 canções favoritas de cada artista, são apenas aquelas de ritmo legal que toca na abertura do canal x. Até mesmo meus amados jogos eletrônicos, hoje tratados com descaso de quem não conheceu a novidade de recebê-los em um mundo ainda muito mecânico, e que não se preocupa mais em jogá-los, no máximo assisti-lo pela narração cômica de algum youtuber que não se preocupa em acompanhar a narrativa daquela obra.

 

Eis que somos apresentados a uma nova forma de interação com o mundo. Uma geração que passa 100% de seu tempo conectada a celulares, tablets, computadores, e que mesmo com toda essa possibilidade de consumo informativo e cultural, parece não se sentir nada atraído por aquilo que lhes é oferecido em bandeja de ouro.

 

As expressões da cultura e do entretenimento parecem se esvaziar de significado, tanto as mais recentes, dotadas de alto teor de tecnologia e interação, quanto as mais clássicas, como a simples leitura de um livro ou a visita a um teatro, práticas quase extintas pelos jovens.

 

Mas se não há resposta positiva a nenhuma das questões apresentadas, qual a ocupação diária dessa nova geração? A resposta vem na forma de um estrangeirismo: whatsapp.

 

 

“Passo o dia conversando com meus amigos pelo whatsapp” foi a resposta mais recorrente, demonstrando, de fato, a concretização das ideias de Zygmunt Bauman. Uma geração cuja atenção está voltada para as relações superficiais contidas em um texto de mensageiro. Uma geração que não consome informação, mas trabalha, o dia  todo, fazendo girar informações que, por ausência de corpus, tem como referencial a si mesmo, uma figura moldável e atualizável graças ao advento das redes sociais. Uma geração que parece se unir à liquidez do mundo, e moldá-lo no aspecto de seu próprio corpo.

 

Por fim, gostaria de dizer que não faço essas afirmações a fim de exaltar a minha época, os meus costumes e os meus desejos, apenas constato uma aparente modificação na relação do jovem com o mundo, e que futuramente pode apresentar, assim como foi com o já antigo jogo eletrônico, grandes benefícios à vida dessas crianças quando adultas.

 

Observo, com o ciúmes do mundo que antes era meu quintal, mas com a resiliência da aceitação de que, agora, pertence a eles, e os caminhos já não são mais pavimentados por mim.   

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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