A Ruptura (parte 1)

10.01.2017

De Ilan C. Krieger

 

I

Ao abrir os olhos ainda me sentia muito atordoado. As mãos doíam de forma aguda, como se cada pequena junta de meus dedos estivesse inflamada pelo esforço da noite passada. Sulcos finos e arroxeados marcavam as costas da minha mão, carimbando o local exato por onde o pequeno cabo de nylon tracionara sobre meus punhos.

O cabo, aliás, ainda estava ali, jogado no canto do quarto, de forma desleixada, exibindo pequenas manchas de sangue e, talvez, até pequenos pedaços de pele quase imperceptíveis.

Senti náuseas ao me levantar, respirando calmamente para que todo o conteúdo semi-digerido que jazia em meu estômago permanecesse lá, porém o gosto amargo na boca anunciava que a tarefa fora 'quase' completamente bem sucedida.

Apesar disso, as sensações físicas que provava no momento não se equiparavam ao que sentia psicologicamente. A lembrança do medo que me asfixiava na noite anterior se mesclava à perturbação dos pesadelos, confundindo as certezas do que poderia ser real ao irreal, a sensação de completa perdição, isolamento, loucura e histeria. O conflito entre a minha antiga moral, e a consciencia podre de minha impotência atual. Um fantoche absolutamente degradante.

Antes que qualquer respiração profunda ou segurança emocional pudesse firmar minhas pernas e acalmar minha frequência cardíaca, percebo certa claridade. Um feixe de luz de sol quebra a semipenumbra do quarto bagunçado em que me ergo. Identifico ser a porta do banheiro que, em meio à tensão da noite anterior, permaneceu ali, entreaberta, durante toda a noite. Durante todo meu sono, compartilhando o mesmo ar que, sonolento, eu respirava. Vomitei ao imaginar tal ligação imunda, sujando o chão do quarto, as roupas que se esparramavam pelo espaço e até os meus própios pés.

O gosto amargo de suco gástrico em minha boca expandia o nojo que sentia por mim mesmo, pelas minhas próprias mãos machucadas, pela minha própria mentalidade deturpada e por minha própria figura organica, tão fétida e complexa quanto aquela que encontrava-se no chão do pequeno banheiro iluminado. Figura que vagarosamente busco encarar, mesmo que em pequena parte, mesmo que por poucos milímetros, com o intuito apenas de certificar-me de que tudo aquilo que revivia em loopins dentro da minha cabeça teria, de fato, sido real.

Já havia tido uma crise de ansiedade por estresse antes desse episódio, e o que sentia naquele momento, caminhando em direção àquele pequeno feixe de luz que demarcava a entrada do banheiro, faria com que necessitasse de uma dose tripla dos medicamentos que provara anteriormente. As batidas de meu coração explodiam de tal maneira que era possivel sentí-las reverberarem pela superfície de meus dentes, que colidiam uns aos outros de maneira ritmada. Os olhos se contraíam pela pressão que me corpo sofria, deformando a imagem capturada pelas minhas córnear. Suspirei profundamente, trêmulo, como após uma crise de choro, enquanto lentamente levava a mão à porta. Erguia os dedos com uma lentidão exagerada, não por receio ou para me proteger de forma furtiva do que viria a encontrar, mas por descontrole completo de minhas coordenações musculares. Desejava escancarar o pequeno banheio, abruptamente, encarar com coragem o que me esperava ali, mas não o fiz. Não podia. Movia-me de forma engessada e acovardada, porém, movia-me.

Até o momento que pude sentir a superfície de madeira tocar a ponta gelada de meus dedos e, sem pensar duas vezes, a empurrei poucos centimetros. Devia alargar aquela fresta apenas um pouco, já seria o suficiente. Mais do que o suficiente! Por alguns poucos segundos senti os olhos ofuscarem com luz que, agora, clareava todo o meu rosto, e quando pude enxergar novamente, senti o folego travar.

De sobressalto, joguei os pés para trás, tentando desesperadamente me afastar dalí, mas o terror que me calcificava os membros e escurecia a consciência me jogou ao chão, num baque seco do corpo contra o solo, onde permaneci enquanto a porta ainda abria, lentamente, reagindo a minha investida.

Lá estava ele, no chão, como havia sonhado. Como havia desejado ter sonhado que estivesse, apenas em sonhos, dos mais pérfidos e conturbados. Daqueles que te fazem acordar gritando em meio a madrugada. Daqueles que te fazem madrugar em claro por medo de experimentar novo pesadelo. Eu experimentava esse pesadelo. Uma, duas, três vezes, e o encaravam novamente, encolhido, tremulo, desesperado. Gritei. Berrei de terror! Me debati, tentando desviar o olhar. Em vão. Lá estava ele, no chão do banheiro, em pedaços, espalhado entre manchas vermelhas e marrons, bem em frente àquela pequena rachadura entre os azulejos da parede.

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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