A poesia nucleal de Leandro Rafael Perez

29.11.2016

Na apresentação do livro Turnê a meio mastro, Renato Manzzini confere, aos poemas de Leandro Rafael Perez, a capacidade de suscitar o efeito de micro-implosões encadeadas, numa progressão discreta e meticulosa.


Julguei indispensável expor alguns desses poemas "fortes, anti-burocráticos e multi-centrados", mesmo consciente da inadequação de se separar algumas unidades do todo, tencionando compartilhar o trabalho do poeta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

jumentos posicionados


como obstáculos, nada de alazões


pancadão meticuloso


gente que germina


cuspo como quem colabora


atesto calvices, orgulho-­me de nada


aponto uma esquina devagar

 

 

 

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Eu também falo sobre o cão doméstico,
não apenas o urso em riste me atrai:


mamãe tem refluxo, gorfa na pia,
não mais meus pés cabem sobre o dorso dos seus


papai pirata depois de perder um olho,
enquanto houver vida havemos de contá­-la.

 

 

 

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Tranquei da tormenta as causas imediatas
e encaro meu pai como a um totem da sedimentação.


um animal diz "talvez" quando se repete
e o mesmo tento toda vez que me contradigo.


Loas não lhe trarão de volta o amor minguante.
O vigor se exime de culpa à beira­mar.

 

 


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20 ou 2


rouco de tanto ouvir,
diz Petrarca sobre


Ésquines


a tradução é do Camões
dizem, não sei


a internet está lenta,
é possível


a rouquidão derradeira
de ter ouvido do mundo


sua verdade em nada
se relaciona com


o inefável, pelo contrário,


rouco de tanto ouvir


direi de grunhido em
grunhido as onomatopeias


todas, me tomarão como
simpático cada ocorrência


e me deitarei pela primeira
vez um orador, delator


de coisa alguma.

 

 

 

 

Autor do livro Turnê a meio mastro (Patuá, 2014), Leandro Rafael Perez nasceu em 1987 e tem a altura da Carmem Miranda com um chapéu-coco. Mora na divisa com Diadema, em São Paulo, e é formado em linguística e português pela USP. Tem um livro perdido pela internet (Pálpebras Amarelas, 2008) e, do mesmo autor, a editora Patuá publicou em 2011 o livro de poemas lança além do real só. Um poema seu consta na terceira edição impressa da revista Modo de Usar & Co. e escreveu uma série inédita para a revista virtual Geni. Mantém o blogue fumante entre cavalos.

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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