A poesia como exortação de virtudes na Grécia Antiga

28.11.2016

 

A Poesia Didática

 

“Compus uma tragédia cheia de Ares. (...) É assim que os poetas devem proceder. Observa como desde a origem os mais nobres poetas se tornaram úteis: Orfeu, por exemplo, ensinou-nos os mistérios e a afastarmo-nos das mortes, Museu as curas das doenças e os oráculos, e Hesíodo os trabalhos da terra, as estações dos frutos, a agricultura. E o divino Homero donde recebeu honra e glória senão de que ensinou coisas úteis como linhas de combate, virtude militar, armamentos de homens? (1020 e ss. Tradução de Américo C. Ramalho, edição 70)”. Assim Aristófanes descreve as falas de Ésquilo em um duelo imaginário contra Eurípides, em sua peça “As Rãs”. Observamos que trata-se de uma competição que almeja identificar a supremacia, de um desses, na criação de poemas trágicos. Mas por que, de acordo com Ésquilo, as características didáticas são tão valorizadas nessas obras?

 

Para compreender seus motivos devemos nos atentar para o período histórico, e para tal me utilizarei do texto “A revolução da escrita na Grécia antiga e suas consequências culturais” de Eric A. Havelock.

 

Havelock aponta o iletramento social da época, esclarecendo o fato de que muitas das obras que antes se acreditava serem criadas já com o advento da escrita, foram, na verdade, resultantes da oralidade, como poesia a ser cantada. Podemos exemplificar esse fato com os clássicos de Homero, Odisséia e Ilíada, que só foram imortalizadas graficamente anos depois.

 

Assim, devemos considerar que, ao tratar-mos da poesia como canção, somamos ao conjunto a musicalidade, o ato de recitar e, principalmente, o público. “Segundo este modo de ver, seu didatismo não foi obra de um temperamento pessoal, mas resposta a expectativas pertinentes ao papel de um poeta que tinha por tarefa, entre outras coisas, recomendar e preservar o ethos da sociedade oral”. Portanto, Havelock esclarece que uma das tarefas do poeta, incorporada à expectativa dos ouvintes, era de preservar o ethos, criar um senso social ao público por meio de uma poesia que fosse, entre outras coisas, didática, exortadora das virtudes humanas. Se pensarmos nesse dialogismo "poeta x público" causado pela poesia cantada, percebemos a importância que existe na criação de uma temática que faça sentido e aproxime o senso moral daqueles que a ouvem. Além da motivação técnica, que atribuia qualidade às obras que traziam consigo tais conceitos, devemos nos atentar também, à motivação cívica. Se pensarmos uma sociedade iletrada, pensamos um povo que não tem, de modo documental, transcrições que ensinem formas de "conduta padrão", e é aí que o poeta se faz importante. Dificilmente se poderia ouvir um discurso puramente educacional que pretendesse educar um povo e, apenas assim, fazer com que todos os cidadãos memorizassem e transmitissem essas lições aos próximos, mas por meio da poesia (com seus versos, músicalidade, entretenimento e história) essa tarefa torna-se muito mais prazerosa e fácil de ser cumprida. EHavelock explica seu argumento:“[...] a poesia grega está imune a essa espécie de idealização privada. Ela é, em sua forma e em sua substância, “orientada para o outro”, não num sentido abstrato, mas no sentido de que o outro é uma audiência, um “público” externo à pessoa que fala: um público muitas vezes simbolizado, no vocativo, como um indivíduo, mas sempre percebido na poesia. Isto se dava porque a poesia criou-se primeiro em sociedade de comunicação oral, as quais tinham também essa “orientação para o outro”.

 

Além de Aristófanes, citado acima, existem outros autores que tratam do assunto, como Platão, que no livro X da “República”, apresenta uma fala de Sócrates: “esse poeta educou a Hélade e que é digno aprender com ele o que concerne à administração e à educação dos assuntos humanos e viver tendo organizado sua vida conforme esse poeta (606e)”. Podemos citar, não apenas aos obras que esclarecem o ato de "educar", mas também aquelas que o fazem diretamente, como por exemplo Calino, que em uma de suas Elegias diz o seguinte:

 

“I

Até quando essa inércia? Quando, ó jovens,

valor tereis? De ignávia, ante os vizinhos,

pois não corais? Dir-se-ia que a paz reina,

não que a esta terra toda a guerra ocupa.

..................................................................

Morrendo, o bravo atire o último golpe.

Combater pela pátria, esposa e filhos

honra e nobreza traz. Quando o fiarem

as Moiras é que a morte há de colher-te.

Vá, pois, cada um brandindo a lança e, forte

o coração do escudo protegido,

seu posto ocupe ao rebentar da pugna,

já que ninguém do termo certo escapa,

embora seja de Imortais progênie.

O que, fugindo à luta e aos dardos, volta,

muita vez é no lar que o fim depara,

sem que o estime, porém, nem chore o povo.

Mas o estrênuo varão, pobres e ricos,

qual semideus, enquanto vivo, o encaram

e, saudosos, o exício lhe pranteiam,

lembrando-lhes excelsa e rija torre,

pois, sendo um homem só, valeu por muitos.”
 

É clara a motivação didática de Calino que, por meio de versos, ensina o valor militar aos jovens, exaltando o quão digno e glorioso é lutar e morrer em combate pelo seu povo. Também Tirteu, em outra elegia, trata da temática do combate e da proteção à pátria:
 

“VI

É belo que, lidando pela pátria,

tombe o valente na primeira fila;

mas seu berço deixar e os ricos campos

e, mendigo, ir errar com o pai longevo,

a cara mãe, a esposa e os tenros filhos,

das penas há de ser-lhe esta a mais dura.

Odioso ele será por onde o levem

a penúria e a indigência aborrecida.

Aviltando-lhe a raça e o nobre vulto,

desonra e pecha de covarde o seguem.

Se apreço não lhe dão, mas só desdouro

O êxul depara e quantos dele nascem,

por esta terra com vamor lutemos,

em defesa dos filhos dando a vida.

Cerrando as filas, combatei, mancebos,

deslembrados da fuga e pavor torpe,

e, investindo o inimigo, tende n’alma

desprezo pela vida e heróico assomo.

Não fujais, na corrida atrás deixando

os velhos, cujos membros são mais lerdos.

Pois é vergonha ver-se, antes dos jovens,

jazer, prostrado nas primeiras filas,

um bravo, de alvas cãs, barba grisalha,

exalando, por terra, a nobre vida,

às mãos, nu, tendo os genitais sangrentos:

torpeza e para vista quadro horrendo!

Nada destoa ao moço, ao qual adorna,

brilhante, a flor da juventude amável.

Vivo, olhado é dos mais, caro às mulheres,

e sempre belo, na vanguarda morto.

As plantas, pois, cada um firme no solo,

morda os lábios e, impávido, resita.”

 

Além da temática em comum, ambas as elegias se utilizam de exemplos históricos para a garantia do efeito de exortação desejado, no caso dos versos de Tirteu, somos apresentados à guerra do Peloponeso.

 

Mas e após a concretização da escrita na sociedade grega, como foi afetada essa cultura do“ensinar pela poesia”? Havelock diz: “à medida que, por toda a parte, no mundo grego aumentava a difusão da competência na leitura, com certeza decrescia a necessidade do imperativo de elaborar registros históricos em forma de poesia”, ou seja, a poesia como processo didático é inversamente proporcional à difusão da leitura, mas não o suficiente para abolir a prática. Os próprios textos de Aristófanes e Platão demonstram essa essência viva, além do fato de que não se pode deixar de compreender as tragédias ou comédias gregas, por exemplo, como modos alternativos de se suscitar um conhecimento especifico no público (leitor ou não), seja este conhecimento qual for, fazendo com que o ganho real da introdução da escrita na Grécia seja, além do simples relato documental, o surgimento da ferramenta que facilitou uma literatura mais intima ao seu autor, atribuindo um conceito mais pessoal à poesia.

 

 

Bibliografia

 

HAVELOCK, Eric A. “A revolução da escrita na Grécia e suas consequências culturais”. Tradução de Ordep José Serra. Editora Unesp. p.11 – 39.

 

Platão. Livro X. A República.

 

Aristófanes. As Rãs.

 

Calino. Elegias

 

Tirteu. Elegias

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

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